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Artigo

Viver somente pela graça

Tim Chester 18 de Julho de 2017 - Deus

O que Deus nos dá? (3/4)

O texto abaixo foi extraído do livro Por que a Reforma ainda é importante?, de Michael Reeves e Tim Chester, lançamento da Editora Fiel.

Viver somente pela graça

Que diferença faz viver somente debaixo da graça? Claramente, qualquer um que saiba ser aceito e amado por Deus por causa de Jesus, e não por causa de como desempenhou bem suas obras, poderá conhecer a confiança tão segura quanto o próprio Jesus. Nele, temos uma justiça incomparável que, como ele, é “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (Hebreus 13.8)

Mas será que isso não poderia levá-los a se tornar confiantes demais? Com o céu garantido, será que não podiam achar que podem “continuar pecando para que abunde a graça” (Romanos 6.1)? Será que não diriam que, embora eles gostem de pecar, Deus gosta de perdoar? Foi exatamente isso que muitos católicos romanos questionaram quando ouviram a mensagem dos reformadores. Desde então, não foram apenas os católicos que vislumbraram esse perigo. No século XX, cercado por pessoas – e uma igreja – que haviam capitulado tão facilmente a Hitler, o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer sentiu que uma atitude equivocada diante da graça era, em parte, responsável. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, ele escreveu um escaldante ataque àquilo que chamou de “graça barata”, que havia permitido tanta falta de espinha dorsal moral:

A graça barata quer dizer justificação do pecado sem justificação do pecador. Somente a Graça faz tudo, dizem eles, e, assim, tudo pode continuar como estava. “Tudo pelo pecado não podia expiar.” O mundo continua do mesmo antigo jeito, e ainda somos pecadores, “mesmo levando a melhor das vidas”, conforme Lutero dizia. Bem, então, que o cristão viva como o resto do mundo, deixe que ele se modele pelos padrões do mundo em toda esfera da vida e não aspire, presunçosamente, a levar uma vida diferente sob a graça da antiga vida sob o pecado...

A graça barata é a pregação de perdão sem exigir arrependimento [...] a graça barata é graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem Jesus Cristo, vivo e encarnado.

A frase de Bonhoeffer: “graça sem Jesus Cristo” é realmente a chave aqui. Pois “graça sem Jesus Cristo” era exatamente o que os reformadores estavam repelindo. Com sua mensagem de “somente pela graça”, eles não ofereciam mais a graça como uma “coisa” ou um combustível espiritual; estavam oferecendo o próprio Cristo. Em outras palavras, salvação somente pela graça é simplesmente outra maneira de dizer que a salvação é só por Cristo. “Pela fé em Cristo”, escreveu Lutero, “a justiça de Cristo torna-se nossa justiça e tudo que ele tem se torna nosso; melhor, ele mesmo se torna nosso”. Isso abre um abismo entre a mensagem somente pela graça e a graça barata.

Como Lutero mostrava, em sua ilustração do casamento, salvação somente pela graça trata de o crente estar unido a Cristo como o noivo é unido à sua noiva. Nessa história, a prostituta recebe o status real de seu marido, mas isso não nos fala do ponto ou da intenção do casamento. Supõe-se que o matrimônio aponte para o casamento ideal entre Cristo e a igreja (Efésios 5.31-32). Num casamento ideal, um homem e uma mulher se unem a fim de ter um ao outro. Assim também os crentes confiam em Cristo e são unidos a ele a fim de ter a ele mesmo. Não, em primeiro lugar e mais importante, conseguir o céu, a justiça, a vida ou qualquer outra bênção, mas obter Cristo, em quem estão todas essas outras bênçãos. Veja, por exemplo, o apóstolo Paulo, que escreveu de maneira tão enfática sobre a salvação tão somente pela graça. Ao escrever aos filipenses, declarou que seu desejo era partir e estar não “no céu”, mas “com Cristo” (Filipenses 1.23). Para ele, a maior atração do céu era Cristo.

Isso quer dizer que ninguém pode realmente receber o Cristo que justifica sem receber o Cristo que nos torna santos. A vida eterna que os crentes recebem livremente pela fé somente é a vida do Espírito, que nos transforma para que nos tornemos mais santos e mais parecidos com Cristo (2 Coríntios 3.18). Isso quer dizer que a vida santa não está nas difíceis letras miúdas do evangelho, um caminho escondido por trás das boas-novas da graça apenas. Isso, em si, já é uma notícia maravilhosa: mediante esse evangelho, Deus age nos libertando não somente da assustadora penalidade futura do pecado, como também de seu presente poder escravizador. Somente a graça é a mais potente mensagem de libertação: total libertação do inferno, e libertação gradual até mesmo de seu prenúncio tóxico e viciante. Assim, Paulo escreve que a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (Tito 2.11-14).

Como a verdadeira graça jamais será “graça sem Jesus Cristo”, Paulo não sente dificuldade racional em colocar a “salvação gratuita” bem ao lado das “boas obras”:

Porque, pela graça, sois salvos por meio da fé; e isso não provém de vós, pois é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus, de antemão, preparou para que andássemos nelas (Efésios 2.8-10).

Aqui não há dificuldade, pois só essa é a verdadeira vida, a vida pela qual os crentes são salvos livremente: libertados do cativeiro do pecado para conhecer a Deus e partilhar de sua boa e santa vida.

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Tim Chester
Autor Tim Chester

TIM CHESTER é pastor da Igreja Grace in Boroughbridge, North Yorkshire, Inglaterra. É plantador de igrejas, faz parte do ministério Atos 29,...