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Artigo

O Resgate dos Perdidos – Parte 2/2

Leandro Lima 04 de Dezembro de 2017 - Artes e Literatura

O texto abaixo foi extraído do livro As Crônicas de Olam – Vol. 3 – Morte e Ressurreição, de L. L.L. Wurlitzer, lançamento da Editora Fiel.

 

Quando o piso desapareceu debaixo das patas, o corpo da re’im afundou momentaneamente no vazio junto à muralha externa de Kerachir, porém, em instantes, as asas poderosas empurraram o ar e Layelá se elevou rapidamente, escalando a montanha lateral sem tocar as patas no gelo. Em segundos a escuridão da madrugada as envolveu e as ocultou do mundo.

Quando Leannah se viu solitária dentro da névoa, deixou a tristeza tomar conta do seu rosto. Permitiu-se ser frágil outra vez, mesmo sabendo que só poderia fazer isso por pouco tempo. Os desafios que tinha diante de si requereriam mais uma vez determinação e coragem acima das forças dela. Ela tentaria corresponder, porém não ainda. Antes precisava se permitir chorar...

Layelá terminou de contornar os picos deixando a névoa para trás, e Leannah viu as estrelas quando o mundo de gelo se abriu diante dos olhos dela. O pouco tempo justificava toda aquela pressa.

A tristeza retornara ao seu coração, e dessa vez, para ficar. Em poucas horas, Ben e Tzizah se casariam diante dos rions para que a Aliança pudesse ser restabelecida. Não era apenas a inevitabilidade do fato, nem a necessidade urgente daquele casamento devido às circunstâncias o que mais a assolava, mas o conhecimento de que, no fundo, Ben desejava aquilo.

Desde o dia em que ele acordou em Olamir, após aquele tipo de ressurreição que Thamam havia realizado nele através das pedras curadoras e da magia antiga, Leannah soube que ele jamais seria seu. O fascínio que Tzizah exerceu sobre ele foi algo avassalador, uma força contra a qual parecia inútil tentar lutar. Mesmo sabendo que ele jamais seria feliz ao lado dela…

Leannah compreendia que precisava se conformar, pois não podia determinar o futuro dos outros, mesmo tendo o poder de fazer isso.

Mas será que eu não acabei de fazer exatamente isso?

Mais uma vez, Leannah desejou nunca ter partido de Havilá. Desejou ter ficado lá com seu pai e irmão, vivendo a vida simples da cidade pequena, comprometida com o atendimento aos rituais do templo, ingenuamente sonhando acordada algumas noites estreladas, pensando no tamanho do mundo e nos mistérios da criação… Nunca deveria ter seguido Ben até o primeiro porto das pedras… Por um momento, ela desejou não ter nem mesmo percorrido o caminho da iluminação. E, principalmente, não ter alimentado a fútil esperança de que, após tudo aquilo, Ben a notaria…

Se pudesse desfazer tudo. Se tivesse voltado com Adin para casa naquela noite, e deixado o guardião de livros seguir sozinho seu caminho pelo Yarden, como era no fundo o que ele sempre havia desejado… Talvez… Talvez…

Mas no fundo ela sabia que, se tivesse feito isso, Ben agora estaria do lado das trevas, irremediavelmente perdido. E esse risco ainda não havia desaparecido totalmente.

Mais uma vez precisava admitir o quanto o destino podia ser cruel e, ao mesmo tempo, repetitivo. Como na Rota das Pedras, quando após experimentarem uma proximidade que nenhum dos dois havia forçado, à qual Leannah inclusive havia resistido num primeiro momento, Tzizah surgia diante dos olhos do guardião de livros, ofuscando tudo o mais.

Mas eu fiz isso. É culpa minha.

Antes mesmo de partir para o Degrau, Leannah ordenou para Layelá que trouxesse Thamam e Tzizah até o final do sétimo dia. Por isso, no início da viagem, ela tentou manter distância do guardião de livros, mas depois, foi impossível… e não só por causa do frio. Sabia que se arrependeria… Ela se permitira ficar perto dele, mesmo sabendo que seria a última vez.

Leannah enxugou as lágrimas. Precisava se conformar. Nada daquilo seria mudado, assim como a dor que ardia em seu peito jamais seria apagada. Se ao menos pudesse chorar por mais tempo... Mas a batalha final se armava no horizonte, e ela precisava encontrar forças em algum lugar para completar sua missão. Por muito pouco e os shedins teriam vencido antes mesmo de haver uma batalha. Mas agora Leannah sabia que ela aconteceria. E seria muito antes do que eles esperavam, e, provavelmente, também muito pior.

Ao amanhecer ela encontrou a passagem para abandonar Kerachir. A passagem se abriu para ela, provando que a Aliança havia sido renovada. O patriarca lhe disse que quando a Aliança fosse renovada, a passagem poderia ser aberta também no amanhecer. Por isso, quando se abriu, ela soube que Ben e Tzizah estavam formalmente casados.

A neve começou a rarear debaixo das patas da re’im quando o sol nascente as aqueceu um pouco. As montanhas foram ficando mais baixas, e ao meio dia, um pouco de verde surgiu no solo. Ao entardecer, Ganeden estava inteira na paisagem. Porém, ela só conseguiria chegar lá perto da meia-noite. Voando só com Leannah, a re’im conseguia manter praticamente o dobro da velocidade de quando carregava duas pessoas. Leannah percebia que ela poderia voar ainda mais rápido, mas não queria cansá-la demasiadamente.

Enquanto voava na direção da floresta dos irins, cada parte de seu corpo e mente lhe implorava para que adentrasse a imensidão verde rodeada de carvalhos e se deixasse levar pelos sonhos dos kedoshins. Entendeu isso ainda dentro do templo de Bethok Hamaim, quando o Morada das Estrelas lhe revelou não apenas o passado e o modo como o universo foi criado, mas também o futuro, e o grande plano no qual os kedoshins estavam envolvidos. Ansiava mais do que tudo fazer parte daquilo. O mundo dos homens parecia insignificante diante daqueles planos. Porém, ainda havia algo naquele mundo que a prendia…

Mesmo assim, era confortador saber que havia um lugar onde podia abandonar

o passado. Sim, um lugar onde podia deixar aquele amor impossível para trás. Não queria mais se machucar com aquilo. Tinha que superar de uma vez por todas.

Os irins partiriam em breve. Lembrou-se de Gever e da insistência dele para que ficasse em Ganeden. Você não será apenas a rainha da floresta, mas a rainha do novo amanhã — disse o antigo príncipe dos kedoshins. — Venha conosco. Você não faz mais parte do mundo dos homens. Deixe-os seguir o destino que eles mesmos escolheram em sua própria insignificância. Você não precisa pagar por isso junto com eles. Ajude-nos a povoar as estrelas… Venha conosco!

— Sim, eu os ajudarei a fazer isso — disse Leannah olhando para a caixa com o gelo luminoso. — Mas não poderei acompanhá-los.

Ao perceber que a floresta era seu destino, como se houvesse recebido uma ordem, Layelá voou para lá.

— Você também gostaria, não é? — Afagou o pescoço da re’im. — Haveria tanta coisa para descobrir se fôssemos com eles… Como seria bom deixar todo esse mundo de perdas e sofrimento para trás.

Enxugando uma última lágrima que ainda insistiu em descer, mesmo quando ela havia decidido que era tempo de parar de chorar, Leannah pousou ao lado de Ganeden. Quase não havia luminosidade, mas ela podia ver que era o mesmo lugar perto do entroncamento com a Rota dos Peregrinos, onde Kenan atacara os cavaleiros-cadáveres. Perto dali, Ben havia se perdido e o mundo enfrentara uma encruzilhada, e um caminho sem volta havia sido escolhido. A partir dali, ela se tornara a portadora definitiva do Olho de Olam.

Leannah desceu de Layelá e se aproximou das árvores. Permaneceu pouco menos de um metro da borda, tentando ouvir os sons e respirando seus aromas. A vontade de entrar era quase irresistível… Só precisava dar alguns passos e deixar tudo para trás. Se adentrasse, não teria forças para voltar.

Não precisava chamá-lo. O irin tinha conhecimento de tudo o que acontecia à volta da floresta.

Alguns segundos depois, ela o viu. Ele estava poucos metros da borda, olhando para ela. O olhar cinzento sereno era o mesmo de sempre. O convite ainda estava lá também, mas ela sabia que não estaria por muito tempo.

Ela se adiantou e chegou muito perto da linha das árvores. Ele não se moveu, como se esperasse que ela adentrasse por si mesma. Porém, ela parou e esperou também. Então, contrariado, ele esticou o braço para pegar a pequena caixa. Leannah viu quando o braço luminoso deixou as árvores e alcançou a caixinha. Fora da floresta o braço dele brilhava como o sol, apesar de ser noite. Num segundo, a caixa estava dentro de Ganeden.

— Eu cumpri minha palavra — disse Leannah.

— Eu não tinha nenhuma dúvida a esse respeito — a voz de Gever foi como o vento movendo as folhas das árvores. — Mas isso não me deixa feliz. Não queremos partir sem você, bela luz do entardecer.

— A batalha final se aproxima… Eu tenho que ficar. Vocês não podem ajudar?

Ela não sabia o motivo de ter dito aquilo. Eles não podiam tomar parte naquela batalha. Os irins não podiam mais intervir no mundo.

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Leandro Lima
Autor Leandro Lima

Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição – SP (1999). Mestre em Teologia e História pelo...



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