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Artigo

O luto e a pobreza de Rute

Philip Ryken 21 de Setembro de 2018 - Vida Cristã

O trecho abaixo foi extraído do livro Quando os Problemas Aparecem, de Philip Ryken, Editora Fiel, lançamento de agosto de 2018.

Quando se trata de segurar em Cristo com uma mão e nas pessoas que amamos com a outra, seria difícil encontrar exemplo melhor do que Rute, que fez um compromisso de vida ou morte de permanecer com Noemi. Imagine a cena e sinta sua dramática tensão. Três mulheres em meio ao horizonte se dirigindo ao deserto. Antes de chegar perto de Belém, Noemi parou no meio da estrada e disse a suas noras que voltassem para suas casas em Moabe. Ela as abençoou pela bondade delas, mas disse também claramente que deveriam voltar para casa, onde havia alguma esperança de encontrarem outros homens com quem casar.

A essa altura, as duas jovens mulheres romperam em lágrimas. O cenário é o mais próximo que a Bíblia chega de uma novela. “E beijou-as [Rute e Órfã]. Elas, porém, choraram em alta voz” (Rute 1.9). Elas falaram a Noemi: “Não! Iremos contigo ao teu povo” (v. 10). Mas Noemi não teria nada a oferecer. Não tinha esperança de um novo marido e, assim, não podia lhes oferecer nenhuma garantia de provisão ou proteção — a amarga verdade que cortava o coração da velha viúva. “Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão” (v. 13).

A angústia de Noemi provocou mais uma rodada de lágrimas; as três mulheres, “de novo, choraram em alta voz” (v. 14). Choravam, lamentando como fazem as mulheres do Oriente Médio. Quando finalmente as lágrimas secaram, Orfa fez a escolha sensata. Amava Noemi o bastante para andar parte do caminho até Belém, mas, ao imaginar que ficaria melhor em casa, beijou Noemi em despedida. Quem poderia culpá-la?

 Mas Rute fez a escolha oposta, com consequências enormes. O que ela decidiu levaria à salvação do mundo. Veja o que fez ela: enquanto Orfa dava seu último adeus, Rute se apegou a Noemi. Aqui, a Bíblia usa um verbo forte que indica um laço inquebrável. Podemos imaginar Rute abraçada a Noemi, e, depois, quando sua sogra começa a se afastar, Rute agarra em suas vestes para evitar que ela vá embora sem ela. Rute simplesmente recusou soltá-la.

De início, Noemi tentou empurrá-la para longe, dizendo: “Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada” (v. 15). Essas palavras esclarecem o que estava em jogo espiritualmente. A escolha que Rute e Orfa confrontaram não foi meramente quanto à localização geográfica, identidade étnica ou às chances relativas de encontrar um parceiro para a vida em uma ou outra comunidade. Não, em meio aos problemas, essas mulheres estavam escolhendo se queriam seguir ao Deus vivo e verdadeiro. Rute já havia feito a sua escolha. Estava de tal forma decidida que ao ouvir Noemi o que sua nora tinha a dizer percebeu que não tinha razão para argumentar. Rute disse: “Não me instes para que te deixe e me obrigue a não te seguir; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti” (vv. 16–17).

Palavra após palavra, esse pode ter sido o melhor discurso que uma pessoa já fez. É uma confissão de fé feita por uma mulher de fé. Nos termos mais claros e fortes possíveis, Rute diz ao mundo o que significa pertencer a Deus e a seu povo.

Quando chegaram os problemas, essa mulher não desistiu, mas se dobrou. Fez um compromisso de vida ou morte com o Deus de Israel.

Essa não é a escolha feita pela maioria das pessoas quando se deparam com provações tão grandes quanto essas. Em vez de ir com Deus, a maioria das pessoas lançam sobre ele a culpa de seus problemas, como fez Noemi. Considere o testemunho de Rose Thurgood, que nasceu em 1602 e escreveu uma narrativa pessoal sobre sua experiência espiritual. Eis o que Thurgood escreveu sobre sua resposta espiritual a uma terrível moléstia que abateu sua família: Assim estávamos prostrados, muito enfermos, por um mês, e meus filhos às vezes ficavam tão quentes em seus ataques que ninguém conseguia saciar sua sede, e eles desmaiavam [...]. Agora me vejo nessa extrema pobreza e carência, com toda a minha casa enferma novamente, e em tudo o Senhor me entregou à dureza de coração novamente, a ponto de eu gritar enraivecida e praguejar contra o próprio Deus, dizendo para mim mesma, que Deus é esse, o que ele pensa em fazer com meus filhos; certamente morrerão. Assim, comecei a brigar com Deus.

Noemi disse mais ou menos a mesma coisa: “Que tipo de Deus é esse, e o que ele pensa em fazer com a minha família?”. Mas Rute fez uma escolha diferente. Quando veio a aflição, ela escolheu ir com Deus, mesmo que sua cunhada estivesse indo na direção oposta. Foi a escolha de embarcar em uma longa e perigosa jornada que nenhuma mulher deveria enfrentar sozinha. Foi a escolha de uma nova identidade cultural em um mundo onde isso era quase inconcebível. Foi também a escolha de ficar com sua sogra, que no máximo era uma bênção mista: Noemi estava tão amargurada que, quando chegou em Belém, as pessoas quase não a reconheceram.

Havia muitos obstáculos para Rute ir com Deus. Sempre há! Quando chegam as grandes escolhas da vida — as escolhas que determinam o destino espiritual de uma pessoa — sempre existe todo tipo de razão para se fazer outra coisa. Se Rute fosse a Belém, estava escolhendo descer uma perigosa estrada, com uma pessoa difícil, para um destino desconhecido. Mas, em vez de desistir de Deus, ela fez a escolha certa, a melhor escolha, o que, para ela, foi a única escolha possível. Rute queria estar “integralmente” com o Deus vivo. Em sua percepção, isso não era uma aposta de jogo, mas uma certeza pela fé. Assim, tendo por testemunha o próprio Deus, ela fez um voto solene de segui-lo até a morte.

Uma das coisas que mais me inspiram em relação à Rute é que ela fez sua escolha quando era jovem, provavelmente ainda na casa dos vinte anos. Mas em qualquer idade, as decisões que tomamos hoje demarcam o curso para a eternidade. Não importa quem somos ou o que tenha acontecido — se tudo vai bem para nós ou desesperadamente errado — temos à nossa frente o resto da vida.

Se formos sábios, iremos com Deus, onde quer que ele nos chame para ir. Alguns crentes servem no mundo empresarial, onde existem oportunidades de criar valor para as pessoas feitas à imagem de Deus. Outros servem no campo da educação, ensinando as pessoas a respeito do que Deus criou. Os artistas exibem verdade e beleza com a paisagem e os sons da criação.

Outros cristãos têm seus chamados na ciência, medicina, no direito ou na política pública. Muitas outras pessoas ainda estão tentando entender o que fazer e para onde ir, e, nesse caso, o mais importante é dizer a Deus — sem reservas — que estamos dispostos a ir e a fazer o que ele quer. Se formos com Deus, ele nos dará oportunidade de fazer algo útil para o reino.

Se formos sábios, ficaremos com Deus, onde quer que ele nos chame a permanecer. Jamais devemos subestimar o quanto isso pode ser difícil. Às vezes, permanecer com Deus é muito mais difícil do que ir com Deus. Tudo dentro de nós clama por fazer uma tarefa diferente, em outro lugar, com pessoas diferentes. Mas se esse não for o caminho de Deus para nós, não será o caminho certo, não importa quanto seria mais fácil. Fique com Deus e com seu povo. Onde formos neste mundo, devemos nos apegar à igreja da forma como Rute se apegou à Noemi. O único modo de permanecer com Deus neste mundo é permanecer perto de seu povo.

Vá com Deus, fique com Deus. Viva com Deus, morra com Deus e, então, viva com ele para sempre. Essa foi a escolha de Rute, e essa decisão se tornou seu destino. Também será nosso destino se escolhermos Deus como fez Rute.

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Philip Ryken
Autor Philip Ryken

Philip. G. Ryken é o presidente do Wheaton College e um membro do Conselho do The Gospel Coalition.