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Artigo

Excelência versus perfeccionismo

Michael Horton 09 de Outubro de 2018 - Vida Cristã

O trecho abaixo foi retirado do livro Simplesmente Crente, de Michael Horton, Editora Fiel.

A excelência é uma virtude quando tem em vista a glória de Deus e o bem de nosso próximo. No entanto, como acontece com todas as virtudes, o amor próprio transforma este impulso nobre em vício. Ele pode assumir muitas formas. Uma delas é o perfeccionismo.

No caso de aspirantes perfeccionistas, o anseio por aprovação pode impedi-los de receber a misericórdia de Deus e de servir ao próximo de modo simples — e imperfeito. Eventualmente, muitos dessa classe reconhecem sua derrota e se fecham dentro de si mesmos. “Nunca mais vou fazer isso”, dizem a si mesmos. O desejo de agradar a outros — de derivar sua identidade das palavras de algum outro que não seja Deus — tem efeito debilitante em seu coração. Em vez de viver a partir da justificação dos ímpios em Cristo realizada por Deus, eles vivem para a aprovação e o aplauso de outros pecadores. Quando falta essa aprovação, eles se fecham, se retraem, se afastam do mundo — talvez até de Deus. O medo de falhar, o temor da rejeição e o desejo evitar a dor faz com que deixem de buscar a excelência de modo saudável, que honre a Deus.

No caso de perfeccionistas iludidos, o sucesso tem efeito oposto: intoxicá-los com a ilusão da autojustiça. Isso pode ser uma droga terrível. Em vez de colocar nossa confiança em Deus, aprendemos a confiar em nossa própria dedicação e piedade. Nosso serviço incansável é impelido mais por desejo de justiça própria e autovalorização do que por segurança suficiente em Cristo para tratar das verdadeiras necessidades do próximo.

Quando encontro somente em Cristo a minha justificação, estou livre para amar e servir aos outros de formas ordinárias e não alardeadas. Um ato relativamente insignificante e imperfeito de generosidade é, contudo, útil a meu próximo, e, portanto, glorifica a Deus. Nosso perfeccionismo, contudo, torna os outros e suas necessidades simplesmente em instrumentos para amar e servir a nós mesmos. Pode ser que tenhamos o chamado “complexo de messias”, e essa necessidade interior insaciável nos impulsione a fazer aquilo que, no final, levará outros a fazer bons elogios sobre nós. Queremos “uma vida excelente” inscrita na lápide de nosso túmulo como prova de que somos gente de valor e importância.

Tristemente, até mesmo algo simples como oferecer um lindo jantar pode ser deturpado por nosso desejo de impressionar. Logo não será mais o prazer das visitas, mas sua aclamação que faz com que todo o esforço valha à pena. Se eu puser grande importância na sua aclamação, não pouparei esforços, e irei a distâncias extravagantes para garantir sua aprovação. Em contraste, a verdadeira excelência — realizada por amor ao próximo, para a glória de Deus, pela fé em Cristo — pode envolver apenas ter mais um prato para o caso de alguém chegar na hora de comer o ensopado.

É precisamente isso que Jesus encontrou num sábado, ao ser convidado para jantar com visitas de destaque na casa de um líder dos fariseus. À primeira vista, esse episódio parece um exemplo de falta de noção social por parte de Jesus. Depois de causar espanto por curar um homem no sábado, Jesus transforma o ataque velado (com a pergunta genérica, “É legítimo ou não curar no sábado?”) em sermão sobre hospitalidade. Ele revela que os líderes religiosos, na verdade, não estavam interessados em excelência, pelo menos não na que é realizada pela fé e em serviço de amor ao próximo. Para eles, a excelência tinha a ver com seguir regras morais que eles inventaram. Em sua idolatria da excelência legalista, perderam uma oportunidade de serem salvos — de si mesmos.

Jesus vira a mesa e fala-lhes sobre a etiqueta correta para os jantares em seu reino. Começa com o arranjo dos assentos:

Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, envergonhado, ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convivas. Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado (Lucas 14.8-11).

Em essência, não espere até que o anfitrião passe você para a mesa das crianças. Jesus não está apresentando lições gerais sobre a etiqueta nos jantares. Ele chama os pecadores e rejeitados ao seu banquete, enquanto os líderes religiosos que recusaram a sua generosidade foram deixados para fora, no frio. Ele é o anfitrião dessa refeição – não o convidado. Se eles não se permitirem serem servidos à sua mesa — junto com os outros pecadores da rua, passarão fome. De qualquer modo, ficarão surpresos se achavam que teriam lugar de honra à mesa de Deus.

Jesus até mesmo dá a seu anfitrião uma advertência em forma de parábola sobre um banquete de casamento: “Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado”. Num primeiro momento isso não faz sentido: “para não suceder que eles te convidem e sejas recompensado”? Essa não é simplesmente a lei da hospitalidade? Se você der uma festa que agrade às pessoas, não é provável que seja recompensado recebendo convites delas? Porém, não é isso que Jesus lhes diz.

Disse também ao que o havia convidado: Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos” (Lucas 14.12-14).

Jesus diz aos líderes religiosos que eles deveriam convidar exatamente as pessoas a quem excluíram dos lugares do templo. Esses líderes certamente estavam confusos. Afinal de contas, essa gente sórdida tinha sido excluída para que a excelência e pureza do templo fosse preservada. Por que essa gentalha seria convidada para o banquete?

Encurtando a parábola, Jesus manda ao mordomo do grande banquete que envie os servos para convidar as pessoas para a festa. Um a um, os convites delicadamente lavrados são polidamente recusados. Se definirmos a excelência em termos autocentrados, são eles rejeitados por boas razões. Finalmente, o mestre manda seu servo para os atalhos e as vielas:

Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar.

Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa. Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia (Lucas 14.15-24).

Seguido a este episódio, Lucas insere a instrução de Jesus às multidões sobre o preço do discipulado, concluindo: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.33). Isso não é uma advertência abstrata, muito menos um texto-prova para uma visão monástica de pobreza. O que Jesus está afirmando é que toda desculpa para recusar o convite do mestre — até mesmo a busca por “excelência” religiosa — nos tornará estrangeiros em seu reino. A sua excelência religiosa não lhe fará merecer um lugar à mesa de Deus. Seus esforços próprios jamais merecerão um lugar de honra. O convite não é Cristo mais qualquer outra coisa, mas somente Cristo. A autossuficiência material, moral ou espiritual é mortal, e tem consequências eternas.

Tudo que Jesus diz nessa parábola ele está cumprindo no meio deles. Ele prepara a mesa e convida seus amigos. Acaba sendo que os líderes religiosos são, na verdade, os que estão do lado de fora e os excluídos — os rejeitados da vida no templo— agora são feitos íntimos pela fé em Cristo. Quando transformamos uma piedosa paixão por excelência (ou seja, glorificar e ter prazer em Deus e amar o próximo) em ídolo de nossa própria autojustificação, perdemos a coisa realmente radical que Deus está fazendo bem debaixo do nosso nariz.

Ser “corriqueiro” significa rejeitar a idolatria de buscar a excelência por razões egoístas. Não cavamos poços na África para provar nosso valor ou importância. Não servimos a sopa para os sem-teto nem nos envolvemos em disciplinas espirituais por desejo de sermos especiais, radicais e diferentes. Quando fazemos essas coisas por razões egoístas, Deus se torna ferramenta para que ganhemos nosso prêmio pelo tempo de nossa vida. Nosso próximo, se torna instrumento na criação de nosso senso de significado, impacto e identidade. Aquilo que fazemos para Deus é, na verdade, feito para nós mesmos.

Em lugar disso, temos de realinhar nossos afetos e reordenar nossas prioridades. Jesus Cristo cumpriu toda a justiça durante seus mais de trinta anos de perfeita obediência a tudo que o Pai ordenara. Ele fez isto por nós. Tendo realizado a obra que nós devíamos fazer, ele carregou a sentença da justiça divina e pagou nossa dívida acumulada. Agora ele está ressurreto, sentado à destra do Pai, intercedendo por nós. Aqui, diante da face do Salvador exaltado, contemplamos o retrato da verdadeira excelência. Somente ele é o substituto único — a oferta pela culpa por sua morte, para que agora sejamos não somente perdoados, mas possamos nos oferecer como “sacrifício vivo” de louvor e gratidão (Rm 12.1). Admitimos que isso é paradoxal: somente ao descansar em Cristo é que nos encontramos ativos em boas obras, não apenas para as corridas curtas, mas para toda a maratona de longa distância.

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Michael Horton
Autor Michael Horton

Michael Horton é professor de Apologética e Teologia Sistemática na Westminster Seminary California (EUA). É formado pela Biola...