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Artigo

Pastoreando em meio à depressão

John Starke 20 de Março de 2019 - Liderança da Igreja

Não me lembro de todos os detalhes da conversa. Minha esposa e eu estávamos sentados juntos. Era o entardecer. Nós tínhamos esse canto em nosso apartamento que chamamos de “o canto”. Era entre a sala de jantar e a cozinha, e tinha espaço suficiente para acomodar duas poltronas, uma mesa entre elas, com uma lâmpada. Passamos muito tempo naquele recanto juntos, com muitas conversas. Este se destaca para mim porque foi a primeira conversa significativa que tivemos sobre minha tristeza.

Minha esposa mencionou perceber alguma desconexão emocional em mim. Eu estava tentando explicar isso de forma divertida, como quando você dorme sobre seu braço e ele adormece. Você se senta e tenta alcançar um copo de água com aquele braço. Você olha para o copo e olha para o braço, mas, por mais que queira alcançar, há uma desconexão com a intenção de alcançar e a capacidade do braço de realmente fazer isso. Foi assim que me senti na minha vida emocional. Eu queria me conectar e emocionalmente estender a mão, mas algo dentro de mim estava adormecido ou desconectado. Algo havia mudado.

Não foi surpresa para minha esposa que eu estivesse triste. Houve circunstâncias desafiadoras na igreja. Houve conflito, confusão e, pela primeira vez em toda a minha vida, eu tinha experimentado ser caluniado e ouvido mentiras sobre mim, onde perdi minha reputação com pessoas de quem gostava. Eu estava exausto. Eu estava regularmente em reuniões até a meia-noite, tentando trabalhar com uma dinâmica relacional realmente difícil. Eu perdi muita confiança em mim mesmo. Eu não sabia qual era o caminho para cima e qual era o caminho para baixo durante grande parte daquela temporada. Durou cerca de 18 meses.

Mas comecei a perceber que não estava apenas triste ou desanimado com as circunstâncias. Algo estava diferente. Houve uma escuridão que se instalou. Minha tristeza e desânimo começaram a envolver-me e a sufocar. Foi difícil não experimentar toda a minha realidade (minha família, trabalho, descanso, orações) através do filtro de tristeza e aflição. “A carne pode suportar apenas um certo número de feridas e não mais”, diz Charles Spurgeon, “mas a alma pode sangrar de dez mil maneiras e morrer repetidamente a cada hora”[i]. Em outras palavras, enquanto a depressão pode ter sido desencadeada por circunstâncias, não foram apenas circunstâncias desencorajadoras que me mantiveram deprimido.

Depressão era algo que eu nunca tinha experimentado. Eu sempre tive a capacidade de enxergar além do horizonte; de falar a verdade em qualquer circunstância e confiar em Deus ou, pecaminosamente, em mim mesmo, para passar por elas. Mas agora era como se eu tivesse vendas emocionais que não me permitiam ver ou sentir muita coisa além da minha tristeza. Minha vida interior parecia rejeitar uma palavra de encorajamento como um corpo que vomita remédio. Eu poderia agarrar a esperança da mesma forma que poderia segurar fumaça com as minhas mãos.

Mas quanto mais eu me abria e falava sobre isso, mais eu ouvia de outros pastores e colegas que eles nunca tinham experimentado depressão até que entrassem no ministério pastoral ou se envolvessem em algum conflito significativo ou desânimo em seu trabalho. Eu não estava sozinho. O que era notável é que, embora as palavras de verdade e encorajamento muitas vezes parecessem tão eficazes quanto um xarope contra a tosse para o câncer de garganta, a presença permanente de um companheiro sofredor era como a mão de Deus sobre minhas feridas. Isso ajudou a ampliar meu escopo da realidade. A depressão era como estar em uma caverna confusa, ofuscantemente escura, mas a presença de alguém que pudesse dar testemunho da minha dor era como uma voz na escuridão, despertando alguma esperança de que pudesse haver alguma direção.

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Eu era pastor e estava deprimido. É claro que a depressão não atinge apenas os pastores e nem todos os pastores experimentam depressão. Mas havia alguns desafios únicos em ser um líder e guia espiritual, ao mesmo tempo em que me sentia enfraquecido pela minha vida emocional, para a qual não tinha muitas categorias. Como eu poderia ajudar os outros se me sentisse desamparado? Como eu poderia pregar o fruto da alegria cristã quando, literalmente, passaram meses desde que eu mesmo a experimentara? Vergonha, culpa e medo eram emoções que pareciam estar se revolvendo em mim.

Não é anormal ser triste

Aqui está a verdade honesta: Bons pastores se colocam no caminho de potenciais críticas e regularmente dentro do domínio e alcance da dor de outras pessoas. Não deveria, então, surpreendê-lo, pastor, que você possa experimentar depressão, mesmo que nunca tenha experimentado isso antes. Carregar o peso emocional consistente das várias dores, medos, críticas, sofrimentos e transições de uma congregação (grande ou pequena) é uma vocação desafiadora. O que ela pode fazer na sua vida interior pode ou irá surpreendê-lo. Mas, embora possa surpreender você, saiba que não é anormal. Além do peso pastoral, a tristeza é uma experiência cristã normal. “O caminho para a tristeza foi bem percorrido, é a trilha normal das ovelhas para o céu, e todo o rebanho de Deus teve que passar por ela”, diz Charles Spurgeon.

Eu sei que em alguns círculos, existem estigmas contra pastores que procuram aconselhamento; mas é uma coisa boa, mesmo em temporadas que não pareçam uma crise. Aconselhar e ter alguém dando alguma direção à sua vida interior é um padrão saudável para os líderes espirituais em todas as estações.

Procure ajuda dentro da igreja local. Nem todo mundo vai ajudar. Nem todo mundo vai entender, mas não tenha medo de falar abertamente sobre isso com seus colegas mais velhos, se você os tiver. A igreja local pode ser (deveria ser) um lugar agradável para as pessoas, até os líderes, desmoronarem. Mas, muitas vezes, as complexidades da depressão podem ser desafiadoras para os líderes leigos. Pode ser sábio procurar aconselhamento profissional.

Encontrando a linguagem

Na minha experiência, encontrar linguagem e categorias para usar a fim de falar sobre minha depressão foi um grande primeiro passo para a cura. Há poder em nomear seu problema. Eu não quero dizer apenas ser capaz de usar a palavra “depressão”. Mas, ainda mais, há algo sobre metáforas usadas por colegas sofredores que pareciam abrir minha compreensão da tempestade dentro de mim. Palavras clínicas podem ajudar na categorização e análise, mas as metáforas pareciam fazer meu coração disparar: “É isso!”

Zack Eswine explica que as metáforas às vezes ajudam a desvendar os mistérios da alma melhor que os termos clínicos, porque eles não explicam muito, mas deixam espaço; elas permitem nuances e diferenciações; elas exigem mais reflexão e exploração[ii]. Encontrar bons livros (A Depressão de Spurgeon, de Zack Eswine ou Lincoln’s Melancholy, de Joshua Wolf Shenk) é uma boa ajuda para acessar um novo vocabulário. Mas aprender a encontrar uma habitação nos Salmos é o melhor remédio.

Comecei a perceber que os Salmos estavam cheios de palavras de crentes desesperados, tristes, desanimados e confusos. Eles tinham palavras para mim que eu não sabia que precisava. O que foi um conforto mais profundo e surpreendente foi que eles foram inspirados por Deus, que sabe o que homens e mulheres precisam dizer quando não sabemos o que dizer. Deus sabe o quanto podemos ficar desesperados e providenciou palavras para nós dizermos nesses tempos. “Aqui”, diz ele, “use essas palavras. Elas vão ajudar”. Sim, o Espírito geme por nós quando ficamos sem palavras como uma folha frágil, mas os Salmos fornecem palavras, linguagem, para quando nossas almas precisam alcançar a expressão. “A minha alma, de tristeza, verte lágrimas”. (Sl 119.28); “Estou cansado de tanto gemer”. (Sl 6.6); “Gasta-se a minha vida na tristeza, e os meus anos, em gemidos; debilita-se a minha força, por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consome”. (Sl 31.10); “Não me arraste a corrente das águas, nem me trague a vorage”. (Sl 69.15); “Pois a minha alma está farta de males, e a minha vida já se abeira da morte”. (Sl 88.3).

Essas palavras podem parecer um guidão emocional enquanto tentamos encontrar sentido e lidar com nossas experiências.

Procure melhores hábitos

Muitos de nós dormem menos horas do que deveríamos e comem mais do que deveríamos. Nós não nos exercitamos e nos sobrecarregamos. Isso não só traz má saúde, mas também leva a insalubridade emocional. Algumas armas básicas contra a depressão é adotar hábitos saudáveis.

Adote um “Sabbath” regular. Lute por um dia de descanso toda semana. Resista a buscar justificativas para “pular” dias de folga. Coma de forma saudável e faça exercícios. Isso tudo trará efeitos surpreendentes em sua vida mental. Ore os Salmos. Crie amizades saudáveis, mesmo que você tenha que sacrificar o conforto por isso. Os pastores conhecem muitas pessoas superficialmente e ninguém profundamente. Desligue o seu telefone da hora do jantar até a hora do café da manhã. Faça pausas regulares nas mídias sociais. Esses ritmos e hábitos não curam sua depressão, mas melhoram seu pensamento e sua vida emocional.

Depois de vários meses de depressão, a nuvem se elevou para mim. Eu experimentei cura. Posso te contar uma coisa maravilhosa? A alegria que sinto agora com amigos, minha esposa, meus filhos, minha igreja é mais profunda. Eu sou um pastor melhor, eu acho. As pessoas aqui e ali que também sofreram depressão ou melancolia expressaram que sentem que sou uma pessoa segura para conversar. Isso é um presente. Você acredita nisso? O Senhor de alguma forma restaurou tudo o que o gafanhoto tinha comido e muito mais. Louvado seja o Senhor! Eu não teria escolhido experimentar a escuridão, mas a escuridão foi transformada em graça e eu não a trocaria por nada.

 

[i] Spurgeon, “Honey in the Mouth”. MTP, Vol. 37, p. 485.

[ii] Zack Eswine, “A depressão de Spurgeon”: Esperança realista em meio à angústia, Editora Fiel, 2015. 98, 99.

 

Tradução: Paulo Reiss Junior.

Revisão: Filipe Castelo Branco.

Fonte: Pastoring Amid Depression.

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John Starke é pastor titular da All Souls Church em Nova Iorque e editor do The Gospel Coalition. Junto com Bruce A. Ware, ele é coeditor do livro One...



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