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Artigo

O Grande Reavivamento na Inglaterra no Século XVIII

Paulo Anglada 11 de Julho de 2001 - História da Igreja

A condição moral deplorável em que se encontra o nosso país quase dispensa comentário. A impiedade e perversão dos homens, que cada dia mais têm trocado a verdade de Deus pela mentira, mudando a glória do Deus incorruptível, adorando e servindo a criatura ao invés do Criador, têm suscitado a ira de Deus sobre o Brasil. Por isso, Deus tem entregue nosso povo à imundícia, pela concupiscência de seus próprios corações. E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem toda sorte de coisas inconvenientes e aprovarem os que assim procedem (Rm 1.18, 23, 24, 25, 28, 32).

A Inglaterra Antes do Reavivamento do Século XVIII

Esse estado de impiedade e depravação pode, às vezes, nos levar a pensar que a situação é irremediável e que não encontra paralelo na história de outras nações. Nem uma coisa nem a outra é verdade. A Inglaterra da primeira metade do século XVIII caracterizava-se pela impiedade, corrupção e imoralidade. As trevas espirituais assolavam todas as camadas sociais daquele país. A terra de muitos reformadores e dos puritanos decaiu tanto, que “a corrupção, a desonestidade e o desgoverno nos altos postos era a regra, e a pureza, a exceção”.

A Igreja da Inglaterra, na sua grande maioria, jazia inerte, sem nenhum vigor. Os sermões, meros ensaios morais, nada podiam fazer no sentido de despertar, converter e salvar os pecadores. “As importantes verdades pelas quais Hooper e Latimer tinham ido para a fogueira, e Baxter e muitos dos puritanos, para a prisão, pareciam ter sido totalmente esquecidas e colocadas na prateleira.”

Um conhecido advogado cristão da época afirmou que visitou todas as mais importantes igrejas de Londres, e que não ouviu “um único dis- curso que apresentasse mais cristianismo do que os escritos de Cícero, e que lhe seria impossível descobrir, do que ouvira, se o pregador era um seguidor de Confúcio, de Maomé ou de Cristo!”

Os bispos e arcebispos da época, na sua grande maioria, eram homens mundanos; tão mundanos que houve casos em que o próprio rei teve de intervir para restringir a impiedade deles. Para se ter uma idéia da situação, conta-se que, quando a pregação de Whitefield começou a incomodar o clero, foi sugerido com seriedade pelo próprio clero que a melhor maneira de dar um fim à sua influência era torná-lo um bispo. Quanto ao clero paroquial, Ryle afirma que “seus sermões eram tão indizível e indescritivelmente ruins, que é reconfortante lembrar que eram geralmente pregados a bancos vazios”. A verdade é que a situação moral da Inglaterra na primeira metade do século XVIII era tão baixa, que condutas reprováveis e comuns hoje no Brasil, como a prática do adultério, fornicação, jogo, linguagem obscena, profanação do domingo e bebedice, também não eram consideradas coisas condenáveis na Inglaterra na primeira metade do século dezoito. Estas eram as práticas da moda nas camadas mais elevadas da sociedade da época e não escandalizavam ninguém.

A Transformação da Inglaterra na Segunda Metade do Século XVIII

Na segunda metade do século XVIII, a Inglaterra mudou. Foi radicalmente transformada. Isto porque milhares de pessoas foram transformadas. Trabalhadores e membros das classes mais elevadas tiveram sua moral e costumes transformados. Como diz Nichols, “forte entusiasmo apoderou-se da vida religiosa da Inglaterra, afugentando a indiferença e o desinteresse” que marcou a primeira metade do século XVIII. “Que uma mudança, para melhor, aconteceu na Inglaterra nos últimos cem anos”, a- firma Ryle no final do século XIX, “é um fato que, eu suponho, nenhuma pessoa bem informada jamais tentaria negar... Houve uma grande mudança para melhor. Tanto na religião quanto na moral, o país passou por uma completa revolução. As pessoas não pensam, não falam, nem agem como faziam em 1750. Este é um fato, que os filhos deste mundo não podem negar, por mais que tentem explicá-lo”. Foi nesse período que surgiram as obras sociais de caráter cristão, as escolas dominicais — “um dos primeiros passos na educação popular da Inglaterra” —, a abolição do comércio de escravos, as reformas nas prisões, hospitais, bem como o moderno movimento missionário que alcançou muitos países na Ásia, África e Américas. A transformação que a Inglaterra experimentou foi tão grande, que muitos historiadores afirmam que, não fora isto, fatal-mente o país também sofreria as agruras de uma revolta interna, como a Revolução Francesa. A estas trans-formações também se atribui a ascensão da Inglaterra à posição de líder entre as nações no século passado.

Os Instrumentos de Transformação da Inglaterra

O que operou essa transformação? A que se deve tamanha mudança? Ryle observa acertadamente, que “o governo do país não pode reivindicar o crédito pelas mudanças. Moralidade não pode vir à existência através de decretos-lei e estatutos. Até hoje as pessoas jamais vieram a ser religiosas por meio de atos parlamentares”. A Igreja da Inglaterra, como instituição, também não pode reivindicar este crédito. Os bispos, arcebispos e clero que descrevemos há pouco jamais poderiam ser os instrumentos de tal obra.

Qual, então, foi a fonte e quais os instrumentos de tamanha transformação? Deus foi a fonte; e uma dúzia de homens simples, a maioria ministros da Igreja da Inglaterra, foram os instrumentos. Aprouve a Deus escolher alguns de seus servos fiéis; não eram poderosos, nem pessoas de nobre nascimento. Entretanto, foram estes homens humildes, mas fiéis, que Deus escolheu para envergonhar os fortes, a fim de que ninguém se vanglorie na presença dEle.

George Whitefield, John Wesley, William Grimshaw, William Romaine, Daniel Rowlands, John Berridge, Henry Venn, Samuel Walker, James Harvey, Augustus Toplady e John Fletcher, soberanamente escolhidos, habilitados, ungidos e revestidos de especial graça, sacudiram a Inglaterra de um extremo ao outro com a antiga arma apostólica da pregação. “A espada que o apóstolo Paulo empunhou com poderoso efeito, quando tomou de assalto as fortalezas do paganismo dezoito séculos atrás”, escreve Ryle, “foi a mesma espada pela qual eles obtiveram suas vitórias”. Tendo contemplado a glória de Deus mais vividamente (como Paulo, na estrada de Damasco, e Estêvão, ao ser apedrejado); tendo sido o amor de Deus derramado em seus corações pelo Espírito Santo; tendo recebido em seus espíritos o testemunho direto do Espírito Santo, a respeito do seu bendito relacionamento com Cristo, e estando cheios de uma alegria indizível e cheia de glória, tais homens anunciaram o Evangelho de Cristo de modo simples, direto, ousado e cheio de fervor. “Proclamavam as palavras de fé com fé, e a história da vida, com vida. Eles falavam com ardente zelo, como homens que estavam totalmente persuadidos de que o que diziam era verdade”.

O que pregavam esses homens? Todo o conselho de Deus, especialmente doutrinas como a suficiência e a supremacia das Escrituras, a total corrupção da natureza humana, a morte expiatória de Cristo na cruz, a justificação pela graça mediante a fé, a necessidade universal de conversão e de uma nova criação pelo Espírito Santo, a união inseparável da verdadeira fé com a santidade pessoal, o ódio eterno de Deus pelo pecado e o seu amor pelos pecadores. Eles não hesitavam em proclamar clara e diretamente às pessoas “que elas estavam mortas e precisavam viver; que se encontravam culpadas, perdidas, desamparadas, desesperadas e em perigo iminente de destruição eterna”. “Por mais estranho e paradoxal que pareça a alguns”, afirma Ryle, “o primeiro passo deles no propósito de tornar bom o homem, foi mostrar que este era completamente mau; e o argumento primordial deles, no sentido de persuadir as pessoas a fazerem alguma coisa por suas almas, era convencê-las de que não podiam fazer nada por elas”. Eles também “nunca recuaram em declarar, nos termos mais claros, a certeza do julgamento de Deus e da ira porvir, se os homens persistissem na impenitência e incredulidade; e, apesar disso, nunca cessaram de magnificar as riquezas da bondade e da compaixão de Deus e de conclamar todos os pecadores a arrependerem-se e voltarem-se para Deus, antes que fosse tarde demais”.

Conclusão

Foram estes os homens e esta, a pregação que Deus usou como instrumentos para reavivar a Igreja na Inglaterra e, assim, transformar completamente o país. Através desses instrumentos de Deus, muitos crentes foram levados a renovar sua aliança com o Senhor e passaram a viver uma vida cristã vigorosa e cheia de frutos; milhares foram profundamente convencidos de seus pecados, foram levados ao mais sincero arrependimento, compreenderam a graça de Deus em Cristo Jesus e por ela foram alcançados; e muitos — que até se opunham — foram secretamente influenciados e estimulados. Foram estes os homens e estas, as doutrinas, os quais, nas mãos de Deus, “tomaram de assalto as fortalezas de Satanás”, conclui Ryle, “arrancando milhares como que tições do fogo, e mudaram o caráter da época”. Foram estes os homens — sinceros e fiéis - e esta, a pregação — viva, verdadeira e ungida - que aprouve a Deus escolher para reavivar sua Igreja e trans- formar a Inglaterra na segunda metade do século dezoito. Abençoa-nos também, ó Deus, livra-nos da incredulidade, testifica diretamente em nosso espírito que somos teus filhos, pois cremos nisso, derrama o teu amor em nossos corações pelo teu Espírito, que em nós habita; concede-nos a mesma alegria indizível e cheia de glória. Reaviva a tua obra em nosso país.

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