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Artigo

O plano de Deus para a igreja é uma comunidade sobrenatural

Mark Dever 22 de Junho de 2016 - Igreja e Ministério

Qual é o plano de Deus para a igreja local? O apóstolo Paulo o define em Efésios 2 e 3. Começa com o evangelho, em Efésios 2.1-10. Estávamos “mortos nos... delitos e pecados” (v. 1). Mas Deus “nos deu vida juntamente com Cristo” (v. 5). “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (vv. 8-9).

Mas o evangelho não termina com a salvação; leva a algumas implicações perturbadoras. Implicação número um: unidade. Como Paulo escreveu sobre os judeus e os gentios, no final do Capítulo 2, Deus destruiu a parede de separação de hostilidade, “para que, dos dois, criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade. E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (vv. 1518). Observe que o evangelho sozinho cria essa unidade: a cruz é o modo pelo qual Cristo aniquilou a hostilidade entre judeus e gentios. Afinal de contas, o que mais poderia unir dois povos que tinham história, aspectos étnicos, religião e cultura tão diferentes?

Ora, qual é o propósito para essa unidade entre judeus e gentios? Vá a Efésios 3.10. A intenção de Deus era “que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais”.

Considere um grupo de judeus e gentios que não compartilham nada em comum, exceto uma aversão bem antiga uns pelos outros. Uma analogia menos extrema e moderna seria pensarmos nos democratas liberais e nos republicanos libertários, em minha própria vizinhança. Ou o desdém que o fashionista que calça Prada sente pela multidão que bebe cerveja Schlitz nas corridas da Nascar (multiplicado muitas vezes, é claro). Junte-os na igreja local, onde eles tocam os ombros com certa regularidade, e as coisas explodem, certo? Não! Por causa de uma coisa que eles têm em comum – o vínculo de Cristo –, eles vivem juntos, em amor e unidade admiráveis. Unidade que é tão inesperada, tão contrária ao modo como nosso mundo age, que até “os principados e as potestades nos lugares celestiais” sentam e observam. Os planos de Deus são admiráveis, não são?[1]

A comunidade que revela o evangelho é notável em duas dimensões (ver figura a seguir). Primeira, é notável por sua largura. Ou seja, estende-se para incluir pessoas tão divergentes quanto judeus e gentios. Como Jesus ensinou no Sermão do Monte: “Se amardes os que vos amam, que recompensa tendes?” (Mt 5.46). Uma maneira pela qual essa comunidade glorifica a Deus é por alcançar pessoas que, sem o poder sobrenatural, nunca se uniriam. Lembre Efésios 2.18: “Porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito”. Segunda, essa comunidade é notável por sua profundidade. Ela não apenas une pessoas para tolerarem umas às outras, mas também para serem tão estritamente comprometidas que Paulo as chama “novo homem” e “nova família” (Ef 2.19). Paulo recorre aos laços mais profundos do mundo natural – os laços de etnia e de família – para descrever essa nova comunidade na igreja local.

Largura e profundidade sobrenaturais de comunidade tornam visível a glória de um Deus invisível. Essa é a suprema afirmação de propósito para comunidade na igreja de Éfeso. Essa é a suprema afirmação de propósito para comunidade nas igrejas contemporâneas. É também a suprema afirmação de propósito para comunidade em sua igreja?

Duas dimensões de comunidade em Efésios 2

 
 

Permita-me resumir dois elementos fundamentais de Efésios 2 e 3, antes de prosseguirmos:

1. Esta comunidade é caracterizada por comunhão em Cristo. Diz-se que “o sangue é mais denso do que a água”. Nossa história mundial é uma longa história de conflitos tribais, em que as pessoas mais próximas são aquelas que fazem parte de uma família. Ou seja, com uma exceção crucial: a igreja local. Quando duas pessoas compartilham de Cristo – embora tudo mais seja diferente –, elas são mais íntimas do que os vínculos dos laços de sangue poderiam torná-las. De novo, elas estão na família de Deus.

2. Se essa comunidade não é sobrenatural, não funciona. Por “funciona”, quero dizer “cumpre os planos de Deus para comunidade”. E se, em vez de unidos ao redor de Cristo, judeus e gentios achassem algum artifício organizacional elegante para coexistirem? Isso tornaria conhecida a “multiforme sabedoria de Deus”? Não. Glorificaria a sabedoria e a habilidade deles. E nunca se aproximaria da largura e da profundidade de comunidade descritas em Efésios. E se judeus cristãos amassem apenas judeus cristãos, e gentios cristãos amassem apenas gentios cristãos? Não é um mau começo. Mas, em comparação com a comunidade que Paulo descreve em Efésios, isso diz relativamente pouco sobre o poder de Deus no evangelho.

Isso significa que devemos fugir de quaisquer relacionamentos em que compartilhamos Cristo mais alguma outra coisa? Não. Deus usa nossas afinidades sociais. Toda igreja tem uma cultura, um sentimento, uma maioria. Seria desonesto sugerir o contrário, afirmando que uma congregação não compartilha nada em comum, exceto Cristo. Gosto é atraído por gosto, e isso é uma realidade natural. Não há nada inerentemente errado no conforto das pessoas com o que lhes é familiar. Apesar disso, uma pergunta importante é: com o que você vai edificar? Quais instrumentos usará? Usará os instrumentos naturais de “ministério por semelhança”? Ou, embora reconheça nossa tendência natural em relação à semelhança, você colocará sua aspiração em comunidade, em que a semelhança não é necessária – por causa do vínculo sobrenatural do evangelho? Como escreveu o apóstolo: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas” (2 Co 10.4). A diferença se manifestará com o passar do tempo. Quando você edifica com instrumentos naturais, com o passar do tempo as divisões naturais entre as pessoas se tornarão sólidas. Use meios naturais para alcançar os brancos de classe média e, com o passar do tempo, sua igreja será branca de classe média. Mas, quando você edifica com instrumentos sobrenaturais, no decorrer do tempo essas divisões naturais começam a diminuir. Uma igreja totalmente branca talvez venha a se tornar, lenta e admiravelmente, menos branca. Essa tem sido a história de nossa própria congregação.

Enquanto reconhecemos nossa tendência para semelhanças, devemos aspirar por uma comunidade em que a semelhança não é necessária – em que nenhuma linha de semelhança na congregação explique toda a congregação. Esse tipo de comunidade desafia explicações naturalistas.

Deus tem grandes propósitos para a comunidade de sua igreja: proteger o evangelho, transformar vidas e comunidades, resplandecer como um farol de esperança para os não convertidos. Comunidade que faz isto é comprovadamente sobrenatural. Não é comunidade planejada ao redor do evangelho mais algum outro vínculo de semelhança. É comunidade que revela o evangelho.

Esta é, portanto, a tese deste livro: comunidade autêntica que revela o evangelho e tem profundidade e largura sobrenaturais é uma consequência natural da crença na Palavra de Deus. Mas ficamos impacientes e edificamos comunidades de “evangelho mais”, que arruínam os propósitos de Deus para a igreja local, por comprometermos essas mesmas profundidade e largura

 

[1] Como sabemos que, nessa passagem, Paulo estava se referindo a uma igreja local, e não à igreja universal? Três razões: (1) o que é verdadeiro, quanto à assembleia celestial, deve também ser verdadeiro quanto à assembleia local. Peter O’Brien expressou isso muito bem em seu comentário: “Visto que era apropriado que esse novo relacionamento com o Senhor entronizado achasse expressão concreta no ajuntamento regular dos crentes, ou seja, ‘na igreja’ (cf. Hb 10.25), então a palavra aqui, em Efésios 3.10, deve provavelmente ser entendida como o ajuntamento celestial que está reunido ao redor de Cristo e como uma congregação local de cristãos” (The Letter to the Ephesians, Pillar New Testament Commentary [Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999], 246). (2) Boa parte do restante da epístola discute as relações entre crentes numa igreja local. (3) O foco de Efésios 3.10 é o presente, não uma assembleia algum dia no céu. A assembleia de judeus e gentios de hoje é a igreja local. E cada congregação aponta para a assembleia maior e mais ampla de todas as pessoas, em Apocalipse 7.

 




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Autor Mark Dever

Mark Dever é diretor do Ministério 9 Marcas, nos Estados Unidos, e pastor da Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington D.C. Graduado na Universidade...



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