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Artigo

Por que amenizar o evangelho prejudica os pobres

Mez McConnell 30 de Junho de 2016 - Evangelização

Entre o tempo em que plantei igrejas no Brasil e meu trabalho agora em Edimburgo, em um dos conjuntos habitacionais mais carentes da Escócia, recebi inúmeros grupos missionários temporários. E, ao mesmo tempo que recebia com alegria a ajuda deles, percebi ao longo dos anos que vários desses grupos que amavam a Jesus vindos do Reino Unido e dos Estados Unidos chegavam com seus pincéis e martelos, mas sem qualquer entendimento a respeito da mensagem do evangelho que achavam que viriam proclamar.

O evangelho trata de boas-novas. Elas de fato são as melhores notícias. E é essencial que entendamos corretamente a mensagem e a mantenhamos no lugar certo. Entender a mensagem errado seria o mesmo que tomar um remédio fora da sua validade: ele é incapaz de curar. Por outro lado, colocar outras coisas no lugar prioritário do evangelho seria o mesmo que possuir uma linda caixa de joias que não tem nenhuma joia dentro: você possui algo lindo e vazio.

Precisamos ter a disposição de investir tempo para que a mensagem seja transmitida correta e fielmente. Eis aqui cinco motivos para isso:

1. A eternidade é o que mais importa

O evangelho abrange tudo a respeito da vida, tanto esta vida presente quanto a vida futura. Muitos dos jovens que desejam servir em períodos curtos em comunidades carentes da Escócia estão empolgados pelos pobres e apaixonados pela ideia de ser missionários e de “romper barreiras”. Mas, infelizmente, eles inadvertidamente colocam a ênfase no lugar errado: reconciliação racial, justiça social, ou na renovação da cultura. A mensagem do evangelho não se resume apenas ao amor de Cristo ou o ao desejo de Deus de tirar você das dificuldades nas quais você se encontra.

A maior necessidade nos conjuntos habitacionais não é a mudança social ou econômica. O maior problema deles é o fato das pessoas estarem alienadas de um Deus santo porque o fedor dos pecados delas ofende a Deus. Assim, essas pessoas precisam de um Senhor e Salvador real que morreu e ressuscitou por elas para que pudesse remover todo o seu pecado e substituir seu coração endurecido e idólatra por um coração de carne. Qualquer outra mensagem é incapaz de começar a ajudar.

Sendo claro, não somos contra ajudar as pessoas com seus problemas físicos diários. Há situações em que seria positivamente ruim para uma igreja não ajudar alguém com necessidades físicas. Mas é necessário priorizar a mensagem do evangelho; ele vem primeiro. Pobreza, violência e injustiça são problemas reais num nível pessoal e social. Mas são sintomas da doença espiritual que carregamos conosco. Tratar os sintomas é algo bom e nobre, mas sem a cura do evangelho o paciente certamente morrerá. Quando abordamos o evangelismo em nossos conjuntos habitacionais necessitados, precisamos fazê-lo com uma mentalidade que parta de dentro para fora.

2. Não existe outro meio de salvação

Em Atos 4.12, lemos: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. Se isso é verdade, as pessoas precisam crer no verdadeiro evangelho para ser salvas e conduzidas a um relacionamento correto diante de Deus. Não existe salvação em qualquer outra pessoa; não existe um plano B. Estão completamente errados aqueles que acham que melhorar o visual dos conjuntos habitacionais, esvaziar as lixeiras e plantar alguns jardins vai transmitir, de certa maneira, a verdade do evangelho por meio de alguma forma de osmose espiritual. A fé vem pelo ouvir (Romanos 10.17), de forma que proclamamos a completa obra substitutiva de Cristo pelos pecadores ao invés de oferecer um programa de autoajuda.

Boas obras, como cuidar dos pobres, são sim um sinal poderoso para os incrédulos (1 Pedro 2.12), mas no livro de Atos a Palavra de Deus que é espalhada e causa o crescimento assombroso da igreja primitiva (p.ex.: Atos 6.7). O cristão do primeiro século certamente fazia boas obras cuidando do pobre, auxiliando as viúvas e ajudando os mais idosos. Mas essas coisas eram subprodutos de uma vida vivida para a glória do evangelho; elas não consistiam no evangelho em si mesmo. As pessoas em nossos conjuntos habitacionais serão salvas apenas se ouvirem a proclamação do evangelho de forma clara e compreensível. Não existe outro caminho.

3. De outra maneira somos capazes de desistir

Se não apresentarmos o evangelho corretamente, podemos esquecer qualquer tipo de trabalho sério de plantação de igreja nos conjuntos habitacionais. Precisamos saber o que vamos fazer bem como o estado das pessoas a quem serviremos. Não podemos nos permitir ser surpreendidos e desencorajados pela profundidade da depravação humana. O morador dos conjuntos habitacionais não a esconde como o pessoal do subúrbio faz.

Além disso, não podemos nos desesperar com a existência ou não de uma solução para os problemas que as pessoas enfrentam. Precisamos do evangelho completo, que nos fala sobre a terrível verdade a respeito do nosso pecado e da gloriosa esperança que temos em Cristo. Se alterarmos, diluirmos ou pervertermos o evangelho, o apóstolo Paulo nos chama de malditos (Gálatas 1.8), e não podemos esperar o favor de Deus para o trabalho que realizamos.

4. A pessoa real está realmente indo para o inferno

Em Hebreus 9.27 lemos: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo”. Numa linha de raciocínio semelhante, quando questionado sobre uma torre que caiu e matou dezoito pessoas, Jesus chamou as pessoas ao arrependimento ou a morrer em seus pecados (Lucas 13.5). Essa pode parecer não ter sido uma resposta muito pastoral para uma pergunta a respeito de pessoas que morreram de forma trágica, mas Jesus se interessava demais pela alma de seus ouvintes para ignorar a oportunidade.

Biblicamente falando, existe algo pior do que a pobreza e a baixa autoestima: o inferno. Ele é real, eterno e consciente. Todo ser humano se encontra debaixo do pecado e é filho da ira (Romanos 3.9; Efésios 2.3). O fato de vir  de histórias diferentes não mitiga essa realidade. Numa era em que muito do pensamento cristão a respeito do pobre diz respeito a amá-lo e a aumentar sua autoestima, o inferno pode parecer uma realidade muito distante para várias pessoas. Inúmeras vezes elas chegam aos conjuntos habitacionais com a ideia de que todas precisam ser amadas ou, pior ainda, que precisam aprender a amar a si mesmas! Se esse é o seu diagnóstico do problema, então você jamais lhes contará a realidade do juízo e da punição eterna.

Temo que grande parte da letargia evangelística das igrejas se deve ao fato de que não tratamos a doutrina do inferno com seriedade a ponto de nos preocuparmos com os outros. Nosso maior ato de amor pelas pessoas nos conjuntos habitacionais não é ajudá-las com suas contas de luz ou com a busca de um emprego, ou a se limparem, ou darmos a elas um quarto para dormir ou ajudá-las com seu vício em drogas. O que de mais amoroso podemos fazer pelos seres humanos ao nosso redor é proclamar-lhes a realidade e a seriedade do inferno, independentemente do que possam pensar a nosso respeito depois disso. Eis um ato de amor sacrificial. Apenas parte da verdade sobre Deus não será suficiente.

5. Para a glória de Deus

O evangelho é sobre a glória de Deus (observe que, em 2 Coríntios 4.4, Paulo o chama de “evangelho da glória de Cristo”). Deus escolheu salvar pecadores de forma a se mostrar como justo e justificador (Romanos 3.26). Escolheu redimir seu povo de forma a provocar o louvor eterno em nosso coração (Apocalipse 5.12). Escolheu realizar tudo isso de forma a engrandecer sua sabedoria enquanto anula e frustra a chamada sabedoria dos poderes do mundo em rebelião contra ele (1 Coríntios 1.21). Será que achamos que sabemos mais das coisas do que Deus? Será que temos um evangelho melhor e mais glorioso do que aquele que Deus planejou desde a eternidade e executou no tempo?

Um evangelho centrado no homem (Deus o amou tanto, então, por favor, o escolha) glorifica pecadores. Sem uma mensagem de juízo, Deus parece injusto e permissivo, não glorioso. Sem um chamado ao arrependimento e à santidade, Jesus é proclamado como um salvador impotente para derrotar o pecado na vida de seu povo (compare com 1 João 3.8). Deus quer salvar, mas Deus não permitirá que isso aconteça à parte do evangelho glorioso de seu Filho. Ele não divide a sua glória, de forma que nenhum evangelho pela metade ou diluído será suficiente.

Eles me disseram que eu estava indo para o inferno

Há catorze anos um pequeno grupo de cristãos apareceu do lado de fora de um centro comunitário das ruas da Inglaterra e me disse que eu estava indo para o inferno.

Eles me disseram o que eu precisava fazer para evitar isso. Ouvir as boas-novas, receber as boas-novas, me arrepender, crer e ser batizado.

Eu não queria ouvir aquilo. Mas quatro anos depois de muita dor, ira e arrependimento genuíno tardio fui salvo pela graça misericordiosa de Deus. Escrevo estas palavras hoje como pastor pois um dia aqueles cristãos dedicaram suas vidas para que eu pudesse ser “endireitado”. Isso é o que Deus pede de nós. Essa é a nossa tarefa primária se quisermos alcançar e ajudar os necessitados.

 

 



Direitos:
 Trecho do livro Igreja em Lugares Difíceis, futura publicação da Editora Fiel

 

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Mez McConnell
Autor Mez McConnell

É pastor sênior da Niddrie Community Church, Edimburgo, Escócia. É fundador do 20schemes, um ministério voltado para...



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20schcmes existe para edificar igrejas saudáveis centradas no evangelho para as comunidades mais pobres da Escócia. Nosso desejo de longo prazo...