Enquanto a Igreja tentava encontrar uma linguagem clara para explicar que Jesus era verdadeiramente Deus, alguns cristãos começaram a se questionar se ele era realmente homem. Nos contos mitológicos gregos, alguns heróis podiam se tornar deuses, mas quem já ouvira falar de um deus se tornando homem? Para muitos, isso não condizia com a dignidade de um deus.
Para suavizar um pouco essa ideia, algumas pessoas passaram a defender que Jesus apenas se parecia um homem. Hoje, chamamos essas pessoas de docetistas, termo que vem de uma palavra grega cujo significado é “parecer”. Uma forma inicial de docetismo já existia na época dos apóstolos. O apóstolo João condenou veementemente esse tipo de ensino em suas cartas.
No entanto, mesmo aqueles que acreditavam nos ensinos bíblicos não conseguiam compreender como uma pessoa, Jesus, podia ser Deus e homem. Um bispo chamado Apolinário (c. 310–c. 390) tentou explicar isso dizendo que, embora Jesus fosse um homem verdadeiro, a segunda pessoa da Divindade (Deus Filho) tomara o lugar de sua alma. Em outras palavras, Jesus não tinha alma humana. Isso poderia parecer razoável, mas não é o que a Bíblia ensina. Em vez disso, a Bíblia nos diz que Jesus era totalmente homem e totalmente Deus. E, da mesma forma como o ser humano é composto de corpo e alma, Jesus, para ser plenamente homem, precisava ter um corpo humano e uma alma humana.
Os ensinamentos de Apolinário foram condenados em 381, no primeiro Concílio de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia). Foi lá que o Credo de Niceia foi redigido, praticamente com a mesma forma que ele tem hoje. Em 451, o mesmo credo foi confirmado no Concílio de Calcedônia (cidade perto de Constantinopla), onde ficou esclarecido que Jesus era “como nós em todos os aspectos, exceto no pecado; gerado antes dos séculos pelo Pai no que diz respeito à sua divindade”. Ambos esses concílios foram ecumênicos, incluindo representantes das igrejas tanto do Oriente como do Ocidente.
Tal como a Trindade, as duas naturezas de Cristo são um mistério que a mente humana não consegue apreender por completo.
Pense nisto
• A Bíblia nos ensina: “visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos” (1Co 15.21). Deus seria justo se punisse um anjo ou algum outro ser pelos pecados cometidos pelo ser humano? Explique sua resposta.
• A razão pela qual a Igreja lutou fortemente contra qualquer ensino de que Jesus não é totalmente Deus e totalmente homem é que esses ensinamentos negam o Evangelho, que nos diz que Jesus, sendo Deus, tornou-se um de nós para nos resgatar do pecado e da morte. Os mestres que negam o Evangelho podem ser chamados de cristãos? Explique sua resposta.
• Leia 1 João 1.1-2; 4.3; 2 João 7. Explique como as passagens nos ensinam que Jesus era realmente um homem.
(conforme publicado no Concílio de Constantinopla)
[Cremos] … em um só Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os mundos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas; o qual, por amor de nós seres humanos e por nossa salvação, desceu do céu e encarnou, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, e se fez homem; foi também crucificado por nós sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado; e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras; e subiu ao céu; está sentado à direita do Pai, e virá pela outra vez, em glória, para julgar os vivos e os mortos; e seu reino não terá fim.O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro História da Igreja, de Simonetta Carr, que será lançado em breve pela Editora Fiel.
