Resumo: Este artigo explica por que a fé cristã está enraizada em acontecimentos históricos reais, mostrando como a Bíblia conecta a revelação de Deus a pessoas, lugares e tempos específicos. Ao explorar exemplos bíblicos e a centralidade da ressurreição de Cristo, o texto demonstra que o evangelho não é mito moral, mas história redentora verificável fundamentada na ação soberana de Deus. Escrito por Courtney Doctor, autora, professora bíblica, palestrante frequente em conferências e retiros, e blogueira ocasional. Ela recebeu seu mestrado em Divindade (MDiv) do Covenant Theological Seminary em 2013 e escreveu vários livros e estudos bíblicos. Atualmente, ela atua como Diretora de Iniciativas Femininas da The Gospel Coalition e é co-apresentadora do podcast The Deep Dish.
Tenho um amigo que é arqueólogo. Ele é como um Indiana Jones dos dias atuais e já passou bastante tempo em diferentes partes do mundo escavando em busca de artefatos. Se ele encontrasse uma moeda romana durante uma escavação, quais fatores influenciariam as conclusões que poderia tirar sobre essa moeda?
Para começar, a localização geográfica teria importância. Uma moeda romana encontrada no Egito significa algo diferente de uma moeda romana encontrada no Texas. Além disso, a camada da escavação também faria diferença. Se ele encontrasse a moeda em uma camada onde tudo ao redor fosse do século XIX, suas conclusões seriam diferentes das que teria se a moeda estivesse em uma camada do primeiro século. O contexto geográfico de sua descoberta moldaria sua compreensão dela.
A realidade histórica também importa. Se meu amigo dissesse que encontrou os restos de um unicórnio, o que você pensaria? A maioria de nós diria: “Espere um minuto. Um unicórnio?” Pensaríamos que ele tinha perdido a razão! Por quê? Porque sabemos que unicórnios são mitológicos e que, em uma escavação arqueológica, ele só poderia encontrar coisas que foram reais em determinado tempo e lugar. Um arqueólogo só pode desenterrar restos de coisas que de fato existiram em certo lugar e época. Portanto, a realidade histórica também é uma chave essencial para suas descobertas.
Assim como acontece com meu amigo em suas escavações, várias coisas são importantes para nós conforme estudamos para compreender Deus e sua Palavra. Uma delas é a realidade histórica da Bíblia — Deus age em pessoas reais, em lugares reais, em tempos reais, em cenários reais! Como afirmou Michael Williams em uma aula que frequentei: “Os autores bíblicos […] sabiam que fé sem fatos históricos e reais não é fé, mas mera superstição.”[i]
É importante ter isso em mente, porque precisamos saber que a revelação de Deus para nós está enraizada em acontecimentos que realmente ocorreram! Podemos ser salvas porque um homem real realmente nasceu, realmente morreu e realmente ressuscitou. Paulo nos lembrou disso ao dizer: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé” (1Co 15.14). Paulo estava afirmando que, se a crucificação e a ressurreição não tivessem de fato acontecido com um homem real (Jesus), em um momento real da história (por volta do ano 33 d.C.), em um lugar real (fora da cidade de Jerusalém), então a nossa fé seria inútil. Isso mostra o quanto o cenário histórico da Bíblia é algo essencial!
Se não dedicarmos algum tempo para ancorar a história das “obras de Deus em nosso mundo” em cenários de tempo e lugares reais, então iremos ler a Bíblia como uma coleção de histórias moralistas que podem ou não ter acontecido. Ou como mitologia, que nada mais faz do que ilustrar as consequências de comportamentos bons ou maus. Em histórias assim, sem ancoragem, Deus e suas ações em nosso favor podem se tornar como aquele unicórnio — uma ideia divertida, mas nada que precisemos levar a sério. No entanto, louvado seja Deus, os eventos narrados na Bíblia realmente aconteceram em locais que podemos visitar. Isso significa que, ao lermos a Bíblia, não estamos apenas lendo boas ideias sobre como devemos viver, mas estamos lendo sobre um Deus vivo que age e trabalha por seu povo. E esse mesmo Deus continua a agir e a trabalhar por seu povo em nosso mundo real, hoje.
Introdução, eu disse que a história da redenção poderia ser resumida como Deus agindo por meio de eventos reais e pessoas reais para a salvação do seu povo. O Deus que criou todas as coisas não permanece distante, apenas lançando ideias moralistas sobre nós; pelo contrário, ele se envolve e entra em sua criação — ele age em nosso favor no tempo e no espaço reais!
Ao ler as Escrituras, você perceberá que Deus faz questão de mostrar aos seus leitores que o que está contando não é um mito. Ele nos fornece datas, nomes e fatos que ancoram sua Palavra em cenários históricos. Pense em como Deus orientou Moisés a começar o livro de Deuteronômio:
São estas as palavras que Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto, na Arabá, defronte do mar de Sufe, entre Parã, Tofel, Labã, Hazerote e Di-Zaabe. Jornada de onze dias há desde Horebe, pelo caminho da montanha de Seir, até Cades-Barneia. Sucedeu que, no ano quadragésimo, no primeiro dia do undécimo mês, falou Moisés aos filhos de Israel, segundo tudo o que o Senhor lhe mandara a respeito deles, depois que feriu a Seom, rei dos amorreus, que habitava em Hesbom, e a Ogue, rei de Basã, que habitava em Astarote, em Edrei. (Dt 1.1-4)
Observe todos os detalhes que nos dão o cenário histórico: locais exatos, datas exatas e referências a outros eventos históricos. Dessa forma, Deus garante que saibamos que essa história está fundamentada na realidade. Ezequiel começa dizendo: “Aconteceu no trigésimo ano, no quinto dia do quarto mês, que, estando eu no meio dos exilados, junto ao rio Quebar, se abriram os céus, e eu tive visões de Deus” (Ez 1.1). Deus fez questão de nos situar tanto geograficamente quanto temporalmente antes de nos dar, por meio de Ezequiel, as grandes visões que revelou.
Quando você lê a Bíblia e se depara com trechos que fornecem muitos detalhes específicos, pergunte a si mesma por que esses detalhes estão ali. Deus quer que saibamos que aquilo que foi registrado realmente aconteceu. É por isso que, no Evangelho de Lucas, antes de lermos sobre o nascimento de Jesus, encontramos:
Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria. (Lc 2.1-2)
Precisamos compreender que Deus age por meio e no meio dos acontecimentos humanos; o miraculoso acontece em meio ao corriqueiro — tanto no passado como ainda hoje.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Do jardim à glória: como o enredo da Bíblia transforma a nossa história, de Coutney Doctor (em breve pela Editora Fiel).

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[i] Conforme Michael D. Williams. Esta citação é registrada aqui da melhor forma que consigo me recordar.
