Resumo: Gênesis 3 revela não apenas a origem do pecado e do sofrimento humano, mas também o início da esperança da redenção. Ao entender Adão como representante da humanidade, compreendemos por que a queda afeta toda a criação — e por que a promessa de Deus em Gênesis 3.15 aponta para Cristo como aquele que vence o mal e restaura todas as coisas. Artigo escrito por Courtney Doctor, autora, professora bíblica, palestrante frequente em conferências e retiros, e blogueira ocasional. Ela recebeu seu mestrado em Divindade (MDiv) do Covenant Theological Seminary em 2013 e escreveu vários livros e estudos bíblicos. Atualmente, ela atua como Diretora de Iniciativas Femininas da The Gospel Coalition e é co-apresentadora do podcast The Deep Dish.
Se você fosse ré em um julgamento criminal, imagino que a pior parte do processo seria esperar pela sentença. Especialmente se, apesar de ter feito de tudo para evitar a punição, você soubesse que é culpada.
Foi exatamente isso que aconteceu em Gênesis 3.14-19. Deus pronunciou a sentença contra aqueles que haviam feito o que era errado. Pense no que teria sido aguardar o Juiz proferir as palavras que definiriam o resto de sua vida. E mais: o alcance dessa sentença não se restringiu ao restante da vida de Adão, ou de Eva, ou da minha vida, ou da sua — mas se estendeu a toda a criação até a consumação do reino.
No entanto, por que é assim? Por que todos sofremos as consequências como “Obrigada, Eva!”, ou gente dizendo com convicção que teria feito diferente, que jamais teria dado aquela mordida proibida. Muitos se perguntam por que todos nós temos de sofrer por causa do pecado deles.
Teologicamente, este é um dos conceitos mais importantes que precisamos compreender: a ideia de que uma pessoa pode ser o representante de um grupo maior, e aquilo que vale para o representante vale para o grupo.
Todas nós, de alguma forma, sabemos como isso funciona. Minhas filhas jogavam basquete, e antes de cada jogo a capitã do time ia até a capitã do outro time e as duas se cumprimentavam. Essas capitãs estavam representando suas equipes. O gesto de boa vontade e esportividade, transmitido naquele aperto de mão, não significava apenas que as duas estavam se comprometendo a jogar de forma justa, mas que seus times também estavam. As ações delas eram em nome de toda a equipe, porque eram representantes.
Da mesma forma, quando o presidente de um país assina um tratado de paz, ele o faz em nome de todos os cidadãos que representa — e suas ações resultarão em paz ou guerra para todos. Pelo lado negativo da representação, pense no CEO de uma empresa que toma uma decisão financeira desastrosa, e a companhia quebra por causa disso. Todos os funcionários sob sua liderança perdem o emprego. As ações de um afetam todos os que ele representa.
Vemos isso repetidamente no Antigo Testamento com os reis de Israel: conforme andavam os reis, assim andava a nação. Reis justos traziam paz e prosperidade; reis maus traziam desastre e sofrimento. Mesmo que nos pareça injusto, essa é uma realidade com a qual convivemos constantemente.
Além disso, e mais importante ainda, a nossa salvação está diretamente ligada ao fato de termos um representante. Mas isso é assunto para mais adiante em nossa história!
Adão foi o cabeça representativo de toda a humanidade. Por isso, a sentença dada a ele e a Eva é também a nossa sentença. Porém, antes de Deus pronunciar o juízo sobre seus filhos, ele primeiro prometeu que haveria redenção das consequências que estava prestes a anunciar.
Deus começou a anunciar as consequências falando primeiro à serpente. E ele iniciou com uma maldição e uma promessa. Em Gênesis 3.15, Deus traçou a linha de batalha e prometeu enviar alguém que destruiria por completo a serpente. De maneira surpreendente, mesmo depois da rebelião e do pecado de Adão e Eva, Deus prometeu lutar não contra seus filhos, mas em favor deles. Aqui temos o primeiro vislumbre do evangelho. E é a boa notícia de que o castigo não será a resposta final de Deus ao pecado, mas a redenção. Deus prometeu derrotar aquele que acabara de derrotá-los.
Depois de tratar com a serpente, Deus voltou-se para a mulher e, em seguida, para o homem. Deu-lhes a punição pela desobediência. A partir desse momento, toda a humanidade passaria a experimentar a vida debaixo dessa maldição. Haveria dor no parto, conflito no casamento, frustração no trabalho e, por fim, a morte física. E não sentimos o peso dessas coisas todos os dias?
Em Gênesis 1.28, Deus havia chamado Adão e Eva a serem frutíferos, multiplicarem-se e encherem a terra. Agora, eles lutariam para cumprir as três coisas. C. John Collins observa que a “tarefa alegre de ‘multiplicar’ (1.28) torna-se o cenário de ‘dor multiplicada’ (3.16), e a esfera em que os humanos deveriam experimentar a bênção de Deus (multiplicação) agora é ‘um lugar de dor, perigo e maldição [multiplicados]”.[1] E nós sabemos muito bem a verdade dessas palavras. A dor associada à multiplicação é imensa. Tendemos a pensar apenas na dor física do parto, mas esse sofrimento abrange desde infertilidade até aborto espontâneo, desde a perda de um filho até o anseio não realizado por ter um filho, desde complicações na gravidez até doenças na infância. Tudo isso está incluído na dor, na angústia e na ansiedade que acompanham o “multiplicar” neste mundo caído.
Se você é casada, conhece alguém que seja casada ou deseja casar-se, Gênesis 3.16 deve fazer muito sentido. A maravilhosa instituição do casamento — criada, ordenada e abençoada por Deus — é um dos lugares em que experimentamos de forma mais íntima os resultados da queda. Seja nas lutas do casamento de nossos pais, em nosso próprio casamento, no desejo ainda não realizado de casar-se, na devastação do divórcio ou nas inúmeras formas em que enfrentamos a corrupção da sexualidade, quase todas nós já experimentamos as dificuldades relacionadas ao casamento. Em Gênesis 2, vimos alegria, deleite, satisfação profunda e vulnerabilidade segura entre o homem e a mulher. Vimos perfeita harmonia entre duas pessoas. Eles eram diferentes, mas foram criados para ser coerdeiros do reino e cooperadores na expansão do reino. E, até Gênesis 3, tudo indica que não havia conflito. Eva não se rebelava nem usurpava, e Adão não dominava nem ditava. Eles trabalhavam lado a lado com alegria e amor. Todavia, em Gênesis 3, somos informadas de que agora eles se oporiam um ao outro. As coisas não seriam mais como deveriam ser.
Ainda assim, quando digo repetidamente que as coisas não são como deveriam ser, não quero dizer que não haja nada a fazer em resposta, ou que devamos assumir uma postura de resignação e apenas esperar. Não! Somos chamadas a enfrentar a maldição, a resistir a ela e a caminhar na beleza de um mundo e de relacionamentos redimidos. Quando oramos “venha o teu reino [agora] […] assim na terra como no céu” (Mt 6.10), somos chamadas a participar dessa oração! Devemos lutar contra a briga. Casadas ou não, devemos aprender o que significa lutar pelos casamentos ao nosso redor, não contra eles. Para alguns, isso significa aprender a falar positivamente sobre o próprio cônjuge ou o cônjuge de uma amiga. Para outros (falando sem rodeios), significa parar de flertar com o cônjuge de outra pessoa. Significa orar pelos casamentos em nossas igrejas e vizinhanças. Significa viver em integridade sexual — sejamos casadas ou solteiras — em todas as áreas. Se você é casada, significa se esforçar para trabalhar ao lado do seu cônjuge, e não contra ele. Significa buscar aconselhamento conjugal com humildade e desejo de restauração. Significa participar com nosso Pai no processo de restaurar todas as coisas, incluindo a quebra dos casamentos — os nossos e os daqueles ao nosso redor.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Do jardim à glória: como o enredo da Bíblia transforma a nossa história, de Coutney Doctor (em breve pela Editora Fiel).

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[1] C. John Collins, Did Adam and Eve Really Exist? Who They Were and Why You Should Care(Wheaton: Crossway, 2011), p. 55.
