“Rachel Hollis está conquistando o mundo.” Essa foi a frase inicial da postagem que fiz em meu blog em 2018, no qual apresentei uma resenha sobre um dos livros mais vendidos nos EUA.[i] Naquele tempo, Girl, Wash Your Face tinha vendido mais de um milhão de cópias, e Hollis tinha ampliado seu público no Facebook em mais de um milhão de seguidores. Sua imagem inteira foi construída em cima do conceito de que as mulheres acreditam em um monte de mentiras: “A verdade? Você, e apenas você, é a total responsável por quem você se torna e por quão feliz você é. Essa é a lição a ser aprendida.”[ii] Já na introdução, ela repete esse conceito diversas vezes. Ela escreveu: “Compreender que você escolhe a sua própria felicidade, que você tem o controle da sua própria vida, é tão importante” e “eu quero gritar com todo o ar dos meus pulmões até que você conheça essa grandiosa verdade: você está no controle da sua própria vida.”[iii] Trabalhe muito, acorde cedo, se apresse e sonhe grande. Em outras palavras, você é o seu próprio chefe. Milhares de pessoas compraram essa mensagem dela, de sucesso autogerado, e infelizmente milhares de pessoas tem agora presenciado a queda dessa ideologia. Na primavera de 2021, Hollis recorreu às redes sociais para desabafar publicamente a respeito de um comentário que recebeu durante uma live, que dizia que ela era “incompatível” por ser privilegiada o suficiente para contratar uma mulher que limpa sua casa duas vezes por semana. Hollis protestou: “O que eu fiz para você achar que eu quero ser compatível? Não, meu bem. Literalmente tudo o que eu faço é viver uma vida com a qual a maioria das pessoas não consegue se equiparar.”[iv] Ela estava se vangloriando de trabalhar com mais intensidade e acordar mais cedo do que a maioria das pessoas. Na descrição do vídeo, ela mencionava nomes de várias mulheres como Harriet
Tubman, Oprah e Malala Yousafzai, que também eram “incompatíveis”. A postagem foi removida logo depois que uma multidão nas redes sociais despejou sua tuitável fúria sobre a imagem de Hollis. Fãs, que até então haviam se identificado com seus relatos de fraquezas, lutas e momentos dos mais vergonhosos (como a vez em que fez xixi nas calças em um trampolim), sentiram-se traídos com a notícia de que ela nunca pretendeu ser compatível desde o princípio. Outros, se sentiram profundamente ofendidos por ela se comparar com minorias que precisam superar obstáculos que Hollis nunca enfrentou.
E tudo isso partiu de uma mulher que escreveu na introdução de seu livro as seguintes palavras: “E se eu escrevesse um livro inteiro sobre todas as lutas que encarei e então explicasse os passos que me ajudaram a superar esses períodos?”[v] Hollis construiu sua imagem compartilhando como havia superado desafios pessoais para alcançar seus sonhos, tudo com a intenção de dizer a outras mulheres que elas poderiam fazer o mesmo. No fim das contas, a nova Torre de Babel puniu Hollis com um repentino e definitivo cancelamento. Enquanto este livro estava sendo escrito, ela estava lentamente voltando para a boa estima de seus apoiadores. O tempo dirá se ela será capaz de reconquistar a confiança e companhia deles. Por ora, essa é uma triste amostra de como termina o jogo de colocar-se em primeiro lugar e tentar controlar seu próprio destino.
Quem está no comando aqui?
O que é autoridade para você? Já parou para pensar nisso alguma vez? Para alguns, a resposta são seus sentimentos e preferências. Para outros, é a ciência e a razão. Para muitos, é uma mistura de sentimentos, moralidade autodeterminada, razão e atrações. A maioria das pessoas provavelmente nem pensa muito sobre isso. Pertence ao filósofo, teólogo, matemático, inventor, físico e escritor do século 17 (tudo bem, todo mundo era muito inteligente naquele tempo), Blaise Pascal, esta famosa citação: “As pessoas, quase invariavelmente, definem suas crenças não com base em provas mas com base no que elas acham que é atrativo.” Pascal fez uma observação importante a respeito de qual é a tendência dos seres humanos para determinar sua autoridade sobre a verdade. Explicando de modo simplório, a maioria de nós não está simplesmente analisando fatos e chegando a conclusões imparciais. Tendemos a nomear as autoridades que nos dizem o que devemos e não devemos fazer, pensar e acreditar com base no que nos deixa confortáveis. Nós todos temos vieses… até os estudiosos e cientistas.
Pense nisso. O propósito básico da ciência é revelar conhecimento sobre o mundo natural. Os cientistas fazem isso formulando hipóteses, criando previsões, avaliando evidências, realizando experimentos e, por fim, chegando a uma conclusão. Mas cientistas não conseguem interpretar uma evidência sem envolver algum pensamento filosófico. É por isso que dois cientistas diferentes conseguem avaliar a mesma base de dados e chegar a conclusões diferentes. Alguns cientistas iniciam o processo com a crença de que Deus não existe. Eles assumem que tudo o que existe é a matéria, e que todos os fenômenos resultam da interação de uma matéria com outra matéria. Essa é uma crença filosófica chamada “materialismo”. O problema é que essa teoria não consegue ser testada em laboratório. E por não conseguir ser provada, é basicamente uma hipótese e não possui uma categoria para explicar fenômenos imateriais, como a alma ou a existência de um ser divino incorpóreo. Sendo assim, o materialismo começa deixando Deus fora do cenário. O físico Paul Davies disse certa vez: “A ciência tem como ponto de partida a suposição de que a vida não foi criada por um deus ou um ser sobrenatural.”[vi] O professor de filosofia da Universidade da Califórnia, John Searle, define o materialismo como algo mais parecido com uma crença religiosa do que com um fato científico, e o descreve como uma “religião do nosso tempo”. Ele prossegue e diz: “Como as religiões mais tradicionais, ele é aceito sem questionamentos e estabelece a estrutura na qual outras questões podem ser colocadas, abordadas e respondidas.”[vii]
O cientista depende de realidades imateriais (como o pensamento) para chegar a conclusões científicas de que o materialismo é verdadeiro. Que tal essa contradição? Com a Torre de Babel em pleno funcionamento, não há fim para a abundante disponibilidade de recursos que te ajudam a descobrir o que é autoridade para você. E se Deus não existe, a maioria dirá que a resposta está dentro de você. Mas isso é verdade?
A Bíblia é o seu chefe
Amigos, se você é um seguidor de Jesus, ele está no comando.
Jesus é o seu chefe, e ele diz que a Bíblia também é.
Além disso, a Bíblia não é sobre você. Também não é sobre mim. Não é simplesmente um livro de sabedorias que nos guiam ao longo de nossa vida, nem é um diário de uma antiga viagem espiritual escrita por pessoas que estavam fazendo o melhor que podiam para compreender Deus na época e no lugar em que viviam. A Bíblia é um livro sobre Deus. De modo mais específico, é um livro sobre Jesus. Ele revela a natureza e o caráter de Deus, seu plano de salvação e a abrangente história do mundo desde o começo até o fim. É inspirado por Deus e, por essa razão, não contém erros, contradições ou equívocos. Eu sei essas declarações soam como ousadas, mas espero te provar isso enquanto observamos o que Jesus tinha a dizer sobre as Escrituras.
Quando Jesus cita ou comenta as Escrituras, o Novo Testamento ainda não existia. Então, seus comentários eram sobre as “Escrituras Judaicas”, os livros do Antigo Testamento. Sendo assim, a pergunta de milhões é: O que Jesus achava desses livros? Ele achava que eram temporários, equivocados ou simples observações de teologia subjetiva ou de pessoas religiosas?
Em primeiro lugar, Jesus se referiu às Escrituras diversas vezes como sendo a “Palavra de Deus”. Em Mateus 15.3, ele repreende os líderes religiosos por quebrarem os mandamentos de Deus. Ele continua no versículo 4: “Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte”. Ele estava fazendo alusão às profecias de Êxodo 20.12, Êxodo 21.7, Levíticos 19.3 e Deuteronômio 5.16. Note que Jesus fez referência a três diferentes livros do Antigo Testamento e disse que “Deus ordenou”. Ele não disse “antigos escribas que buscavam compreender Deus em sua época e contexto ordenaram”.
Em Marcos 7.8-13, Jesus critica os fariseus por abandonarem “os mandamentos de Deus” e adicionarem suas próprias tradições às Escrituras. Ele lhes disse que estavam “invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição” (ênfase adicionada). Logo após citar Êxodo 3.6 em Mateus 22.31-32, ele diz: “Não tendes lido o que Deus vos declarou?” De maneira contínua, Jesus se referia ao Antigo Testamento como sendo a Palavra de Deus. Considerando que Jesus é Deus, não faz sentido que ele esperasse que seus seguidores levassem sua Palavra a sério?
Jesus também apontava que os livros do Antigo Testamento eram inspirados por Deus. Certa vez, enquanto ensinava a uma multidão no pátio do Templo, ele deparou com alguns fariseus, e vamos apenas dizer que houve uma troca de palavras entre eles. Basicamente, Jesus recorreu à inspiração das Escrituras para ajudá-los a compreender que o Messias é mais do que apenas um descendente de Davi. Ele disse: “Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor?” (Mt 22.43). De fato, é nesse ponto que o próprio Jesus dá uma definição para a inspiração divina. Ele afirma que Davi, assim como outros autores bíblicos, estava “falando pelo Espírito” quando escreveu as Escrituras. O estudioso bíblico John Wenham reparou que todas as vezes que Jesus disse “está escrito”, ele também estava apelando para a inspiração das Escrituras: “Fica claro que Jesus considerava ‘está escrito’ como o equivalente a ‘Deus disse’.”[viii] Jesus também declarou que as Escrituras eram historicamente confiáveis. Ele constantemente se referia aos personagens do Antigo Testamento como pessoas reais que viveram em épocas e lugares reais. Ele falou de Abel (Lc 11.51), Noé (Mt 24.37-38; Lc 17.26-27), Abraão (Jo 8.56), Ló (Lc 17.28-29), Isaque (Mt 8.11), Jacó (Lc 13.28), Moisés (Jo 7.22), Davi (Mt 12.3-4; 22.43; Mc 12.36; Lc 20.42), Salomão (Mt 6.29; 12.42; Lc 11.31; 12.27), Elias (Lc 4.25-26), Eliseu (Lc 4.27), Jonas (Mt 12.39-41; Lc 11.29-30, 32) e Zacarias (Lc 11.51).
Ele também descreveu eventos como a instituição da circuncisão (Jo 7.22), o julgamento de Sodoma e Gomorra (Mt 10.15), o milagre do maná (Jo 6.31), Moisés levantando a serpente no deserto (Jo 3.14) e Davi comendo pão consagrado (Mt 12.3-4; Mc 2.25-26; Lc 6.3-4) como fatos reais. Se isso não fosse o bastante, Jesus confirmou duas das mais discutidas histórias do Antigo Testamento. Alguns céticos alegam que o dilúvio e a história de Jonas na realidade nunca aconteceram — ainda assim, Jesus afirmou que ambos os fatos eram históricos (Mt 12.40; 24.37-39). Na verdade, ele comparou a autenticidade histórica do relato sobre Jonas com a historicidade de sua própria ressurreição, evento que o apóstolo Paulo afirmou poder sustentar ou ruir o cristianismo, com base no fato de ter realmente acontecido ou não (1Co 15.14)!
Jesus também apresentou a ideia de que as Escrituras não contêm erros. Lembra dos saduceus, os que não acreditavam na ressurreição dos mortos? Certa vez, eles fizeram uma pergunta traiçoeira para Jesus e ele lhes respondeu dizendo: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Por que ele iria relacionar o engano deles com as Escrituras se ele acreditasse que aqueles escritos sagrados poderiam conter alguma informação errada? A visão de Jesus a respeito da Palavra de Deus também pode ser compreendida pela afirmação que ele fez quando estava prestes a ser apedrejado pelos judeus, por alegar ser um com o Pai. Em João 10.35, ele diz: “A Escritura não pode falhar.” Além disso, Jesus afirmou a ideia de que a Palavra de Deus nunca passará, um tema comum tanto no Antigo como no Novo Testamento. Ele não poderia ter defendido essa questão com mais clareza do que em Mateus 5.17-18: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.” Isso trata da imperecibilidade dos escritos do Antigo Testamento. Jesus também disse: “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei” (Lc 16.17). Jesus está afirmando que ele não veio para ignorar, negar ou se opor às Escrituras; mas, sim, para cumpri-la por completo.
Logo após a ressurreição, Jesus encontrou dois de seus seguidores que não o reconheceram no caminho para Emaús (Lc 24.13-35). Eles estavam discutindo quão decepcionados ficaram quando Jesus foi crucificado, porque tinham a esperança de que ele fosse o redentor de Israel. No versículo 25, Jesus os repreendeu por serem “tardos de coração para crer em tudo o que os profetas disseram”. E, então, o versículo 27 nos diz: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” É fascinante que a primeira coisa que Jesus queria que esses seguidores soubessem após sua ressurreição era que o Antigo Testamento é sobre ele. Alguns comentaristas sugerem que esse foi o motivo pelo qual Jesus não queria ser reconhecido — porque ele queria que a fé e a crença de seus discípulos estivessem baseadas primeiramente nas Escrituras.9
Quando Jesus foi tentado pelo diabo no deserto (Mt 4.1-11), ele recorreu à autoridade das Escrituras para resistir ao ataque. Como Deus encarnado, ele poderia ter convocado uma legião de anjos ou empregado qualquer tipo de defesa para afastar a tentação do inimigo. Em vez disso, ele escolheu citar o Antigo Testamento. Quando Jesus respondeu ao diabo com “está escrito”, o estudioso Leon Morris observou que isso: “aponta para a confiabilidade e imutabilidade das Escrituras. Para Jesus, encontrar uma passagem bíblica que abrange o problema em questão é o mesmo que chegar ao fim de qualquer discussão.”10 Tendo em vista o que Jesus acreditava sobre as Escrituras, fica claro que ele esperava que seus seguidores obedecessem a elas. Se Jesus acreditava que as Escrituras eram inspiradas, incorruptíveis, imutáveis, inerrantes e historicamente confiáveis, por que nós não deveríamos crer?

Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Não é errado se me faz feliz : e outros enganos desta geração, de Alisa Childers, em breve pela Editora Fiel.
[i] Alisa Childers, “Girl, wash your face? What Rachel Hollis gets right… and wrong”, AlisaChilders.com, 3 de setembro de 2018. Disponível em: https://www.thegospelcoalition.org/reviews/girl-wash-face/. Acesso em 22 de jul. de 2023.
[ii] Rachel Hollis, Girl, wash your face: stop believing the lies about who you are so you can become who you were meant to be (Nashville: Nelson Books, 2018), p. xi.
[iii] Hollis, Girl, wash your face, p. xii, xiv.
[iv] E! News, “Rachel Hollis Issues Apology after Privilege Video Backlash”, YouTube, 6 de abr. de 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f8ws0F- mAsHc. Acesso em 23 de jul. de 2023.
[v] Hollis, Girl, wash your face, p. xvi.
[vi] Paul Davies, The fifth miracle: the search for the origin and meaning of life (New York: Simon & Schuster, 1999), p. 28.
[vii] John Searle, Mind: a brief introduction (New York: Oxford University Press, 2004), p. 48 [edição em português: Mente, cérebro e ciência (Lisboa: Edições 70, 2015)].
[viii] John Wenham, Christ and the Bible, 3. ed. (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2009), p. 28.
