quinta-feira, 23 de maio

A cilada da procrastinação

Quanto tempo leva para trocar uma lâmpada? Depende do coração de quem tem a tarefa sob sua responsabilidade. Para um homem comum, a tarefa pode ser cumprida em poucos minutos, retirando a lâmpada defeituosa e colocando a nova lâmpada. Mas o mesmo homem comum pode levar semanas, até meses, para ir ao mercado, comprar uma lâmpada, separar um tempo, pegar uma escada e, finalmente, efetuar a troca.

Do outro lado da casa, a esposa chora no banho.

Enquanto esses passos não são dados, ele se ocupa de diversas outras tarefas — algumas importantes, outras menos — e segue fugindo de sua responsabilidade, ora se culpando, ora se justificando.

Seis meses para trocar uma lâmpada parece um prazo razoável para você?

Todos nós procrastinamos

A procrastinação pode ser definida como a fuga ou o adiamento de tarefas que estão sob nossa responsabilidade, normalmente por meio da realização de outras tarefas e atividades — especialmente envolvendo distração ou entretenimento.

Todos fazemos isso. A procrastinação sempre esteve presente na história humana, pois, desde a Queda, os homens fogem de suas responsabilidades. Porém, o instrumento pelo qual a fuga acontece varia de geração em geração.

Hoje, vivemos a era da informação e do entretenimento. Para tornar tudo ainda mais intenso, essa imensa quantidade de informações e entretenimentos cabe na palma de nossas mãos, em um dispositivo multitarefas que apelidamos de smartphone — um telefone “esperto” ou “inteligente”. Curiosamente, o telefone “burro” nos ajudava a ser mais inteligentes e proativos em nossas responsabilidades.

A luta com os chamados de Deus

A história da procrastinação está conectada à história da redenção. Gênesis 1 e 2 revelam que o homem no mundo de Deus desenvolvia seus chamados com fluidez. Isso não significa, contudo, que tudo que o homem fazia era fácil; significa, sim, que a criação respondia ao domínio do homem.

Adão recebeu a tarefa de dar nome aos animais e, aparentemente, eles respondiam à liderança de Adão com docilidade. Adão foi colocado no jardim para o “cultivar e guardar”, e aparentemente, enquanto Adão trabalhava a terra, ela respondia ao trabalho dele com fluidez e naturalidade.

E então o pecado entrou no mundo.

O homem quebrou a aliança, desejando ser igual a Deus. Comeu do fruto proibido e passou a experimentar as consequências disso. Deus lança as maldições em Gênesis 3, envolvendo dificuldades no cumprimento do seu chamado. As mulheres teriam dificuldade e dores no parto; os homens, no trabalho da terra, pois ela produziria cardos e abrolhos. Agora o homem teria de suar para conseguir o pão.

O encontro da resistência no fluxo do nosso trabalho deu ocasião à procrastinação. Isso acontece porque nos tornamos pessoas autocentradas (lembra-se do capítulo sobre orgulho?), e focalizadas em nosso prazer e gratificação imediatos. 

Os trabalhos mais valiosos demandarão esforço e paciência — coisas que não gostamos de exercitar. Desse modo, para evitar a fadiga, procuramos pequenas distrações ou tarefas adicionais que nos desviem daquilo que precisa ser feito.

Uma promessa falsa

Costumamos procrastinar confiando em uma promessa: “em vez de gastar tempo e energia em algo difícil, aproveite uma atividade que traga recompensa imediata e você se sentirá descansado e feliz”.

Quem não gostaria que isso fosse realidade? Confiando na promessa, em vez de arrumar a casa, abrimos o WhatsApp para conversar amenidades; em vez de estudar para o ENEM, abrimos o TikTok para conferir novas trends; em vez de prepararmos aquele relatório difícil o ou sermão que deve ser pregado, abrimos o portal de notícias para nos atualizar sobre o mundo.

Em um primeiro momento, a recompensa aparece. Ficar rolando indefinidamente sua timeline trará alguma dose de dopamina. Envolver-se em conversas intermináveis no WhatsApp poderá fazê-lo sorrir das frivolidades e explorar as novas figurinhas que você sonhava em usar. Clicar em matéria após matéria do portal de notícias trará a sensação de que você é um ser humano responsável, que acompanha o que acontece em seu país.

Mas isso é tudo que a procrastinação pode oferecer. A promessa de realização não pode ser cumprida. E, após a efêmera felicidade, vem o peso.

Os resultados da procrastinação

A procrastinação vende a falsa noção de que você está se livrando de um peso. Ela promete que você encontrará uma atividade leve, que trará prazer e o livrará do tedioso e cansativo trabalho que tem de realizar. Ela promete distração, alívio e descanso rápido e barato.

Mas o que é vendido como prazer e descanso é ilusório.

O que acontece realmente como resultado da procrastinação é que você não descansou nem produziu. Não descansou porque a mera distração não é descanso. Continuar com a estimulação mental por meio de redes sociais ou portais de notícias não é descansar. Até mesmo a “procrastinação produtiva”, em que você decide realizar tarefas menores em vez de cumprir sua responsabilidade principal, aponta claramente para o fato de que não se trata de descanso real. Se não houve descanso, não houve propriamente uma recarga de energia e ânimo.

Ao mesmo tempo, não houve realização. Gastamos nosso tempo e nossa energia em trivialidades, e agora estamos mais cansados e sem qualquer senso de realização. Por isso, o resultado da procrastinação é a mistura de cansaço com ressaca moral — a culpa por não termos atendido ao nosso chamado.

Em muitos casos, teremos criado uma péssima circunstância, e a pressão da urgência nos fará voltar à nossa responsabilidade com níveis altos de estresse e tensão emocional, que poderiam ter sido evitados por completo.

Desse modo, o buraco que criamos para nós mesmos é fundo.

As causas da procrastinação

O buraco é mais fundo do que imaginamos. É hora de olharmos para o coração e percebermos o que está envolvido nas profundezas da alma quando escolhemos mexer no celular em vez de lavar a louça ou estudar para a prova.

Por que procrastinamos? Por que fugimos das nossas responsabilidades, ou do trabalho difícil?

Há muitas respostas a essas questões. Certamente, no âmbito externo, problemas de organização e metodologia tornam mais difícil o cumprimento de nosso chamado. Quando não há clareza, sentimo-nos perdidos e confusos, e não temos foco. E, quando não há um foco definido, transitamos entre tarefas e distrações sem direção. Mas falaremos sobre clareza e foco posteriormente. Existe algo ainda mais profundo que nos move para a fuga de nossas responsabilidades. Para os propósitos deste livro, basta mencionar três causas da procrastinação: preguiça, perfeccionismo e ira.


O artigo acima é um trecho adaptado com permissão do livro Produtividade redimida, de Allen Porto, Editora Fiel (em breve).


Autor: Allen Porto

Allen Porto é pastor efetivo na Primeira Igreja Presbiteriana de Barretos (SP). É graduado em teologia pelo Instituto Superior de Teologia Reformada), especialista em história da igreja pela Faculdade Internacional de Teologia Reformada (FITRef) e mestre em teologia, com concentração em teologia filosófica, pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ).

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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