quarta-feira, 14 de janeiro
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A clareza da Escritura e a ética cristã

Deus fala com clareza

Clareza: Deus nos deu uma Bíblia que pode ser compreendida.[i] De maneira resumida, a doutrina da clareza da Escritura significa que Deus nos deu uma Bíblia que pode ser compreendida. Contudo, essa declaração precisa ser explicada e elucidada com cuidado. No que diz respeito a ética, isso é importante porque significa que a Bíblia pode ser compreendida quanto ao que ela ensina sobre o que é moralmente certo e errado. Isso deve nos dar esperança no estudo da ética.

  1. Apoio bíblico para a clareza da Escritura. Há muitas passagens que mostram que a Escritura pode ser compreendida. Acerca das palavras contidas no livro de Deuteronômio, Moises disse o seguinte ao povo de Israel:

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falaras assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. (Dt 6.6-7).

Se todos os pais em Israel deveriam ensinar as palavras da Escritura para seus filhos, segue-se que pessoas comuns eram capazes de entender essas palavras corretamente, pelo menos a maior parte delas. Isso também significa que, em alguma medida, as crianças eram capazes de compreendê-las e aprender com elas.

As palavras de Deus não foram dadas para que somente as pessoas muito sabias e eruditas de Israel fossem capazes de entender, pois “a lei do Senhor e perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor e fiel e da sabedoria aos símplices” (Sl 19.7; 119.130).

O Novo Testamento tem uma ênfase parecida. Jesus nunca responde qualquer pergunta dando a entender que as Escrituras do Antigo Testamento não eram claras.

Pelo contrário, as respostas de Jesus sempre pressupõem que a culpa por qualquer má compreensão do ensino das Escrituras não era da própria Escritura, mas daqueles que se recusavam a entender ou aceitar o que estava escrito:

Não lestes o que fez Davi…? (Mt 12.3)

Ou não lestes na Lei…? (Mt 12.5)

Nunca lestes nas Escrituras…? (Mt 21.42; veja também 19.4; 22.29; 22.31; Jo 3.10)

Além disso, a maioria das epistolas do Novo Testamento não foram escritas para os líderes das igrejas, mas para as pessoas comuns de todas as igrejas:

A igreja de Deus que esta em Corinto… (1Co 1.2)

As igrejas da Galácia… (Gl 1.2; veja também Fp 1.1; Cl 4.16; 1Tm 4.13)

Algumas partes das epistolas chegam a pressupor que as crianças ouviriam as cartas de Paulo sendo lidas em voz alta, sendo capazes de entender pelo menos uma parte do que estava escrito:

Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto e justo. (Ef 6.1; cf. Cl 3.20).

A conclusão a que devemos chegar, com base nessas passagens, é que a Escritura repetidamente afirma que ela pode ser compreendida — não somente algumas de suas passagens ou declarações e não somente o que ela ensina sobre alguns assuntos (como o caminho básico da salvação), mas o significado de toda a Escritura sobre muitos assuntos diferentes.[ii] Essas são declarações sobre a natureza da Escritura de forma geral, as quais, aparentemente, estão profundamente fundamentadas na pressuposição de que a Escritura e o meio de comunicação de Deus, que deseja e é capaz de se comunicar com seu povo com clareza.

b. Qualificações importantes sobre a clareza. A Bíblia é uma vasta e complexa coletânea de escritos que são o produto da infinita sabedoria e conhecimento de Deus. Como esse e o tipo de comunicação que encontramos na Bíblia, algumas qualificações necessárias devem ser aplicadas as afirmações da clareza da Escritura.

(1) A Escritura pode ser compreendida, mas não toda de uma vez. A compreensão da Escritura é um processo. Aqueles que são abençoados por Deus seguem o homem justo do Salmo 1, que “medita de dia e de noite” na Lei de Deus (Sl 1.2; veja também Js 1.8; Sl 119.15, 23, 48, 78; cf. 1Co 2.6-7; 2Co 1.13; Hb 5.14).

(2) A Escritura pode ser compreendida, mas não sem esforço. Essa é uma consequência lógica da declaração anterior. Se devemos meditar na Escritura, isso significa que, ao longo de nossa vida, estaremos sempre aprendendo, e isso exige algum esforço. Por exemplo: “Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a Lei do Senhor” (Ed 7.10). E Pedro diz que “há certas coisas” nos escritos de Paulo que são “difíceis de entender” (2Pe 3.15-16). Isso não significa que sejam impossíveis de entender, mas que, para compreendê-las, exige-se algum esforço.

(3) A Escritura pode ser compreendida, mas não sem os meios ordinários. A Confissão de Fé de Westminster (1646) diz que até os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão” de muitas coisas da Escritura.[iii] Esses “meios ordinários” incluem a leitura e o estudo de uma tradução da Bíblia na própria língua e, além disso, ler e ouvir os mestres e comentaristas da Bíblia. Ainda, pode-se incluir o uso de ferramentas como concordâncias bíblicas, dicionários de hebraico e grego e livros que trazem informações sobre o pano de fundo dos escritos

bíblicos.

(4) A Escritura pode ser compreendida, mas não sem uma disposição de ser obedecida. Tiago disse aos seus leitores: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavrae não somente ouvintes, enganando-vos a vos mesmos” (Tg 1.22). É presumível queTiago esteja dizendo que, se uma pessoa ouve a Palavra sem praticar o que ela diz, talouvinte vai se enganar; ele terá um entendimento errado. Outras passagens expressamideia semelhante (leia Sl 119.34; Jo 8.43; 1Co 3.1-3).

(5) A Escritura pode ser compreendida, mas não sem a ajuda do Espírito Santo. Paulo diz que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porquelhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14; leia também 2Co 3.14-16; Cl 4.3-4). Mas, em contraste com esse “homemnatural”, Paulo diz aos coríntios que os cristãos receberam “o Espírito que vem de Deus,para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (1Co 2.12).

Isso implica que precisamos orar pedindo a ajuda do Espírito Santo, a fim de que nos capacite a entender a Escritura corretamente (leia também Sl 119.18, 27, 34, 73; Lc 24.44-45; Jo 14.26).

(6) A Escritura pode ser compreendida, mas não sem cometermos equívocos. A clareza da Escritura é uma propriedade da Escritura, não uma característicae seus leitores.[iv] A doutrina da clareza da Escritura afirma que a Escritura pode sercorretamente compreendida, não que ela sempre o será. Às vezes, os discípulos nãoentendiam coisas que Jesus ensinava, pois Lucas diz: “eles, porém, não entendiamisto” (Lc 9.45). João escreve: “Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, queera necessário que ele ressuscitasse dentre os mortos” (Jo 20.9, NAA). Aliás, existemaqueles que voluntariamente deturpam o que a Escritura diz, pois Pedro fala sobrealguns escritos de Paulo que “os ignorantes e instáveis [os] deturpam… para a própria destruição deles” (2Pe 3.16; leia também 2Pe 3.3-6).

Portanto, a clareza da Escritura faz com que a compreensão da Escritura seja possível, mas isso não significa que ela sempre será compreendida corretamente.

(7) A Escritura pode ser compreendida, mas nunca completamente. Embora a compreensão da Escritura, em alguma medida, seja possível desde a infância, crescemos em nosso entendimento a medida que progredimos na vida crista. O autor de Hebreus menciona que alguns ensinamentos são “alimento solido para os adultos” (Hb 5.14; leia também 1Co 3.1-4). Nunca teremos um conhecimento exaustivo da sabedoria de Deus contida na Escritura, uma vez que os pensamentos de Deus são mais altos do que os nossos pensamentos,  “assim como os céus são mais altos do que a terra” (Is 55.9). Contudo, essas sete qualificações não anulam a doutrina da clareza da Escritura. A Bíblia ainda pode ser compreendida. Algumas partes podem ser compreendidas com mais facilidade e rapidez do que outras, mas essas qualificações são apropriadas para um documento grande e complexo, que tem sua origem em um ser que e infinitamente sábio e quer que passemos a nossa vida inteira aprendendo com ele, em um relacionamento pessoal.

c. Objeções à clareza da Escritura. Quero rapidamente mencionar que alguns estudiosos da Bíblia que tem uma perspectiva não evangélica serão frequentemente relutantes em afirmar a doutrina da clareza da Escritura. Primeiro, os acadêmicos que falam a partir da perspectiva do liberalismo teológico não acreditam que a Bíblia e a Palavra de Deus ou que ela seja internamente consistente, mas entendem que a Bíblia e “um registro humano falível de ideias e experiencias religiosas, não uma divina revelação da verdade e da realidade”.[v] Segundo essa perspectiva, a Escritura contém inúmeros significados conflitantes, porque foi escrita por diversos autores humanos, que viviam em culturas muito diferentes — a hebraica, a grega e a romana — e que tinham diferentes ideias sobre Deus e diferentes experiencias com ele. Partindo dessa premissa, e impossível sustentar a ideia de que a mensagem da Bíblia como um todo, sobre determinadas questões éticas, seja clara e compreensível. Sem estar convicto da autoria divina da Escritura, não ha razão para presumir que as conclusões dos escritores seriam internamente consistentes e não conflitantes e contraditórias.

Mas essa objeção baseia-se em uma negação do que a própria Escritura frequentemente diz sobre si mesma: que suas palavras não são meramente humanas, mas são as palavras do próprio Deus, como já mencionamos.

Há outra objeção que tem origem na hermenêutica pós-moderna, um ponto de vista que defende que não há verdade absoluta e que não há um sentido único em um texto. Em vez disso, o significado depende das premissas e dos objetivos que o leitor leva para o texto.[vi] Portanto, quando alguém afirma conhecer o significado de qualquer assunto abordado na Escritura, isso e apenas uma tentativa velada de exercer poder sobre outras pessoas. Mark Thompson observou que esse entendimento pós-moderno sobre a natureza da verdade fomentou a suspeita, como já dizia Friedrich Nietzsche (1844–1900), de que, “sempre que alguém afirma saber qual e a verdade, trata-se de uma tentativa velada de manipular as pessoas.”[vii]

Todavia, em última análise, negar que a Escritura pode ser compreendida significa atacar o caráter de Deus — sua bondade, seu poder e sua capacidade de se comunicar com clareza com seu povo —, além de ser uma atitude certamente inconsistente com as muitas passagens que já analisamos sobre como a Escritura pode ser compreendida por pessoas comuns.

Ademais, autores bíblicos frequentemente sustentam um argumento com base na ideia de que um texto da Escritura significa uma coisa e não outra. “Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? N.o no regime da circuncisão, e sim quando incircunciso” (Rm 4.10). As palavras de Genesis “não somente por causa dele estão escritas… mas também por nossa causa” (Rm 4.23-24; leia também Hb 2.5-6; 4.8; 11.3). A doutrina da clareza da Escritura e também diferente do ensino católico romano, o qual afirma que, em relação a correta interpretação da Escritura, “o ofício de interpretar autenticamente… foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”.25 Contudo, os ensinos de Jesus ou do Novo Testamento não dão qualquer indício de que os leitores que cressem precisavam de um intérprete autoritativo da Escritura, como o bispo de Roma (isto e, o papa). Como foi dito, Moises esperava que pessoas comuns ensinassem a Escritura para os filhos; Jesus tratava a necessidade de entender a Escritura corretamente como uma responsabilidade de todos; e Paulo escreveu diversas epistolas para igrejas inteiras, chegando a falar diretamente com as crianças em algumas partes, o que pressupõe que elas estariam ouvindo e entendendo.

d. Implicações positivas da clareza da Escritura. A clareza das Escrituras nos encoraja a ensinar ética bíblica aos cristãos de hoje. Os acadêmicos nas faculdades e nos seminários, bem como os pastores nas igrejas, não estão limitados somente ao estudo da “ética mosaica”, da “ética do Antigo Testamento” ou da “ética paulina” (assuntos que tem o seu valor). Nos também devemos pregar e escrever sobre “o que a Bíblia toda ensina sobre questões éticas”, com uma aplicação clara para a vida das pessoas comuns de nossa época.

Aliás, a doutrina da clareza da Escritura e absolutamente essencial para que a Bíblia tenha alguma autoridade real na vida das pessoas. Sem a clareza da Escritura, alguém poderia dizer: “Eu acredito completamente na absoluta autoridade divina da Escritura, mas não faço ideia daquilo em que a Bíblia exige que eu creia ou de como ela exige que eu viva”. Assim, se a Escritura não tem clareza, sua autoridade e efetivamente anulada na vida real.

Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Ética Cristâ, de Wayne Grudem, Editora Fiel (em breve).

CLIQUE AQUI para ler mais artigos que são trechos deste livro.


[i] O material desta seção e uma adaptação de Wayne Grudem, “The Perspicuity of Scripture” (the John Wenham Lecture for the Tyndale Fellowship, Cambridge, julho de 2009), Themelios 34, n. 3 (2009): 288-308, e também de Grudem, Systematic Theology, p. 39-61, com permissão do editores.

[ii] A Confissão de Fé de Westminster (1646) afirma a clareza da Escritura em relação as “coisas que precisam ser conhecidas, cridas e observadas para a salvação” (1.7). A inclusão da palavra “observadas” me faz pensar que talvez “a salvação” deva ser entendida aqui em um sentido mais amplo (“a totalidade da experiencia benção da salvação ao longo de nossas vidas”), e não em um sentido estrito (“fé salvífica inicial”). Porém, não estou certo de que esse realmente seja o caso. Seja como for, não vejo, nas passagens da Escritura que acabamos de mencionar, qualquer justificativa para restringir a clareza da Escritura a um assunto específico ou a determinados tipos de passagens. E a Confissão de Fé de Westminster não nega a clareza da Escritura com respeito a outros assuntos. Frame diz algo interessante: “A Escritura, portanto, e suficientemente clara para nos responsabilizar pelo cumprimento dos nossos deveres para com Deus” (A Doutrina da Vida Crista, p. 150).

[iii] Confissão de Fe de Westminster, 1.7.

[iv] Sou grato a Gregg Allison por ter sido o primeiro a enfatizar para mim que o foco dessa doutrina precisa ser a natureza da Escritura, não a má interpretação de seus vários autores. Confira Gregg Allison, “The Protestant Doctrine of the Perspicuity of Scripture: A Reformulation on the Basis of Biblical Teaching” (tese de doutorado, Trinity Evangelical Divinity School, 1995).

[v] J. I. Packer, “Liberalism and Conservatism in Theology”, New Dictionary of Theology, ed. Sinclair B. Ferguson e David F. Wright (Leicester: Inter-Varsity; Downers Grove: InterVarsity, 1988), p. 385.

[vi] Vejam as extensas discussões sobre hermenêutica pós-moderna em Grant R. Osborne, A Espiral Hermenêutica: Uma Nova Abordagem A Interpretação Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2009); e Kevin J. Vanhoozer, Ha Um Significado Neste Texto? (São Paulo: Editora Vida, 2010).

[vii] Mark D. Thompson, A Clear and Present Word: The Clarity of Scripture, New Studies in Biblical Theology (Nottingham: Apollos; Downers Grove: InterVarsity Press, 2006), p. 33.



Autor: Wayne Grudem

É professor pesquisador de Teologia e Bíblia no Phoenix Seminary. É bacharel em ciências humanas (Harvard), mestre e doutor em teologia (Westminster Seminary, Philadelphia) e PhD em Novo Testamento (University of Cambridge). Foi tradutor da Bíblia English Standard Version, editor geral da ESV Study Bible e presidente da Evangelical Theological Society. Publicou mais de vinte livros, entre eles Ética Cristâ, publicado pela Editora Fiel.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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