quarta-feira, 26 de fevereiro
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A fé é a certeza de coisas que se esperam

Fé como doutrina, dom e confiança

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem … De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” (Hb 11.1, 6)

Fé é um dom, um presente. Ninguém nasce com ela. Em nível natural, podemos, no máximo, desenvolver fé em coisas, em pessoas e até em Deus. No entanto, mesmo essa fé é incapaz de conduzir alguém à salvação. Trata-se apenas de uma crença natural comum a todos. Com essa fé, acreditamos no cuidado de nossos pais, na vitória de nosso time de futebol, na pontualidade do pagamento de nosso salário, no sucesso de nossa viagem de férias.

Temos fé em qualquer coisa, até mesmo em Deus — não, porém, uma fé salvífica, mas uma fé vaga, humana, terrena. Porém, a fé que salva não vem da terra, mas dos céus. Não é humana, mas divina. Não é um esforço natural, mas um presente sobrenatural.

A Bíblia apresenta pelo menos três formas de fé, as quais analisaremos a seguir.

Fé como doutrina

A fé pode ser compreendida como o conjunto de doutrinas em que se crê. Na história, é comum encontrarmos grupos de cristãos unidos em torno de uma confissão de fé, ou seja, um documento que apresenta um conjunto de doutrinas que eles confessam. Com efeito, a Bíblia nos exorta a lutarmos até o fim pela pureza e simplicidade de nossa fé. Veja o que Judas (não o Iscariotes!) escreveu:

Amados, quando empregava toda a diligência em escre- ver-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (Jd 3, destaque nosso)

Havia, sem dúvida, tantos assuntos sobre os quais podia escrever, mas Judas, provável irmão de nosso Senhor Jesus Cristo, responsável por um grupo de igrejas, entendeu que tinha de escrever sobre aquilo em que elas criam, pois a doutrina estava sendo questionada e até mesmo corrompida. Judas se sentiu na obrigação de escrever sobre a fé que foi entregue aos santos. Assim, aquilo em que cremos também é um dom de Deus para nós, de maneira que devemos batalhar até o último de nossos dias pela pureza da doutrina.

Mas não foi somente Judas quem escreveu sobre a necessidade de sermos zelosos pela fé, isto é, pela doutrina. Paulo, de forma semelhante, escrevendo aos filipenses, exortou-os a terem a mesma atitude:

Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica… (Fp 1.27, destaque nosso)

Paulo havia ensinado as doutrinas nas quais os filipenses deviam crer. Agora, porém, era o momento de eles lutarem juntos pela fé evangélica, ou seja, pelo conjunto de doutrinas que lhes fora ensinado.

Erros e heresias sempre existirão. Sempre haverá pessoas, mesmo que bem-intencionadas, ensinando doutrinas estranhas à Bíblia. Falam de Deus e de Jesus, mas não conforme o ensino das Escrituras, mas segundo seu próprio entendimento. Por isso, todos os cristãos têm o dever de conhecer as doutrinas ensinadas pela Escritura Sagrada, a fim de que não sejam enredados por falsos mestres. Ainda que a plena compreensão das doutrinas cristãs seja um processo gradual, não devemos deixar de nos aprofundar nelas.

Fé como um dom

A fé também é apresentada na Bíblia como um dom, um presente de Deus aos homens. Essa é outra verdade preciosa da Palavra de Deus, na medida em que mostra quão mise- ricordioso Deus é. Por ser um dom, a fé não nasce dentro do ser humano nem lhe é natural. A fé não vem do homem, mas de Deus.

Certamente, existe um tipo de fé que é falsa e que não leva ninguém à salvação. Trata-se da fé que todos têm, inclusive o diabo:

Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem. (Tg 2.19)

O verbo grego traduzido como “crer” é πιστεύω (pisteuō, que indica a ação de acreditar que algo é verdadeiro). Os demônios creem que Deus existe e que há um só Deus. No entanto, essa “fé” que há neles não vem de Deus, mas de si mesmos. Trata-se de uma crença natural. É possível que todos os homens também cheguem a essa conclusão, mas

somente a fé que vem de Deus, um dom dos céus, pode real- mente salvar o ser humano da condenação eterna. É isso que Paulo diz aos efésios:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus… (Ef 2.8)

O “isto” não diz respeito apenas à fé e à graça, mas a todo contexto anterior retratado em Efésios 2. Toda a salvação vem de Deus. É por isso que a salvação pela fé é uma graça soberana dada a quem Deus quer. A fé salvífica, portanto, não vem de nós, mas é um dom concedido por Deus.

O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Roma:

E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Rm 10.17)

A fé vem, ou seja, ela não procede de nós. Devemos clamar e esperar pela fé que vem de Deus. Somente esse tipo de fé salva; apenas ela traz profunda consciência do pecado.

Nessa mesma carta endereçada aos romanos, Paulo con- clui que ninguém será salvo por causa de decisões que tomou, obras que realizou ou qualquer outra ação que lhe pudesse trazer méritos. Somos salvos pelos méritos de Cristo, o qual se colocou debaixo da santa ira de Deus no lugar de pecado- res. Para que um homem seja salvo e abandone seu estado de condenação, sendo declarado justo, é necessário que ele receba a fé que vem de Deus e passe a crer que o sacrifício de Cristo se deu por ele:

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, inde- pendentemente das obras da lei. (Rm 3.28)

Fé como confiança

A fé também pode se referir ao nível de confiança que um salvo tem no Senhor. Nos exemplos abaixo, percebemos que a fé nada tem a ver com as doutrinas em que se acredita ou com um dom que se recebe de Deus. Antes, os trechos a seguir apresentam a fé como a confiança firme ou frágil de que o Senhor pode responder a nossos anseios e petições.

Muita fé

Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, apresentou-se-lhe um centurião, implorando: Senhor, o meu criado jaz em casa, de cama, paralítico, sofrendo horrivelmente. Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tenho soldados às minhas ordens e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta. (Mt 8.5-10)

Aqui, vemos o centurião demonstrando completa confiança de que Jesus, apenas por meio de sua palavra, seria capaz de atender a seu pedido. Ele creu que não era necessário que Jesus estivesse presente em sua casa para que seu servo fosse curado. Bastava uma única palavra para que o milagre solicitado acontecesse. O centurião teve muita fé.

Pouca fé

Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar. E os discípulos, ao verem-no andando sobre as águas, ficaram aterrados e exclamaram: É um fan- tasma! E, tomados de medo, gritaram.

Mas Jesus imediatamente lhes disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! Respondendo-lhe Pedro, disse: Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas. E ele disse: Vem! E Pedro, descendo do barco, andou por sobre as águas e foi ter com Jesus. Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor! E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste? Subindo ambos para o barco, cessou o vento. (Mt 14.25-32)

Nessa passagem, Jesus salva Pedro de se afogar no Mar da Galileia e acusa seu temoroso discípulo de possuir pouca confiança na palavra de Cristo em um momento de aflição. Pedro teve pouca fé, ao contrário do centurião.

Pedido de aumento de fé

E trouxeram-lho; quando ele viu a Jesus, o espírito imediatamente o agitou com violência, e, caindo ele por terra, revolvia-se espumando. Perguntou Jesus ao pai do menino: Há quanto tempo isto lhe sucede? Desde a infância, respondeu; e muitas vezes o tem lançado no fogo e na água, para o matar; mas, se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. Ao que lhe respondeu Jesus: Se podes! Tudo é possível ao que crê. E imediatamente o pai do menino exclamou [com lágrimas]: Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé! (Mc 9.20–24)

Deparamo-nos aqui com um pai aflito. Ele clama a Jesus que o ajude em sua pequena fé (ou falta dela). Ao dizer que tudo é possível ao que crê, Jesus deixa claro que, para a pessoa que confia nele de todo o coração, não há impossibilidades. A vitória que vence o mundo é a nossa fé, como João nos ensina (1Jo 5.4).

Este artigo é um trecho retirado e adaptado com permissão do livro Um guia para a nova vida: doutrinas básicas para o discipulado cristão, de Wilson Porte Jr., Editora Fiel.

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Autor: Wilson Porte

É bacharel em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e mestre em Teologia-histórica pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper. É pastor da Igreja Batista Liberdade (SP) e professor no Seminário Martin Bucer e na Sociedade de Estudos Bíblicos Interdisciplinares. Wilson Porte é casado com Rosana e pai de Natan e Ana.

Ministério: Editora Fiel

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A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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