Durante os primeiros 300 anos depois de Cristo ter ascendido ao Céu, o número de seguidores continuou a crescer, embora fossem muitas vezes incompreendidos, provocados e perseguidos. Eles eram organizados em igrejas e unidos por crenças comuns, expressas em declarações oficiais curtas, conhecidas como credos. Essas declarações constituíram uma das primeiras formas do Credo dos Apóstolos, que algumas igrejas recitam ainda hoje. Os costumes e tradições das igrejas, entretanto, variavam de lugar para lugar.
Ásia Menor, Armênia, Monte Ararate, Esmirna, Antioquia, Síria, Damasco, Judeia, Jerusalém
30–312
• c. 30: Autoridades romanas crucificam Jesus. Seus amigos o sepultam, e, depois de três dias, ele ressuscita. Então, Jesus comissiona seus discípulos a pregarem o Evangelho e a estabelecerem igrejas. Esses discípulos especialmente comissionados são chamados de apóstolos.
• c. 33: Uma luz ofuscante impede Saulo de Tarso, o líder religioso judeu que estava a caminho de Damasco, onde prenderia cristãos. Jesus o comissiona a levar o Evangelho a outras nações fora de Israel. Saulo muda seu nome para Paulo.
• 49: Os apóstolos realizam um concílio eclesiástico em Jerusalém. Discutem como Deus cumpriu sua promessa de criar para si um povo de todas as nações, não apenas dentre os judeus.
• 64: Nero culpa os cristãos pelo incêndio que queimou grande parte de Roma e persegue cruelmente os cristãos da cidade.
• 177: Pressionado pelo povo de Lyon, localizada na atual França, o governo romano prende, tortura e mata muitos cristãos.
• 249: Ocorre a primeira perseguição geral aos cristãos no Império Romano, sob o imperador Décio.
• 301: O rei Tirídates III, da Armênia, proclama o cristianismo como religião oficial, tornando a Armênia o primeiro país cristão do mundo.
• 303: A pior perseguição contra os cristãos começa durante o reinado de Diocleciano.
Perseguição por quê?
“Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”, disse Jesus aos discípulos (Jo 15.20). Suas palavras se confirmaram logo depois de ele retornar ao Céu, ao fim de sua missão terrena, conforme lemos no livro de Atos. Os primeiros cristãos foram perseguidos por líderes judeus que não reconheceram Jesus como o Messias (Salvador) predito por suas Escrituras (conhecidas pelos cristãos como o Antigo Testamento).
Muitos judeus pensavam que Jesus estava mentindo quanto a ser o Filho de Deus. Também achavam ultrajante e ofensiva a ideia de o Deus criador do céu e da terra morrer em uma cruz romana, o castigo mais humilhante e cruel da época. Esse não era o Messias que eles esperavam. Os judeus queriam um homem forte, capaz de libertá-los dos romanos, sob cujo controle estava a terra de Israel.
Gregos e romanos estavam acostumados com histórias de homens como Hércules, os quais se tornaram deuses por meio de atos de coragem e força. Contudo, a história do Deus que se tornou homem e teve uma morte vergonhosa como um criminoso comum parecia tão tola, que a transformaram em tema de grafites em muros.
Na maioria das vezes, porém, tanto os gregos quanto os romanos permitiam que as pessoas praticassem outras religiões, pois eles mesmos tinham muitos deuses diferentes e adotavam deuses de outras nações. Os judeus eram até respeitados por sua religião antiga. O cristianismo, em vez disso, parecia uma nova religião, com ensinamentos estranhos e cerimônias incomuns, facilmente mal compreendidos. Por exemplo, quando os cristãos repetiam as palavras de Jesus na Última Ceia — de que o pão é o seu corpo, e o vinho, o seu sangue —, os romanos os chamavam de canibais.
Os romanos ficavam particularmente preocupados quando os cristãos se recusavam a adorar outros deuses. Com frequência, se um desastre acontecia, os cristãos eram culpados por irritarem os deuses; e, quando os romanos exigiam que as pessoas adorassem o espírito da casa do imperador como um deus, os cristãos, por se recusarem a fazê-lo, eram tidos como rebeldes contra o governo.
A mais antiga perseguição contra os cristãos em Roma foi iniciada no ano 64 d.C. pelo imperador Nero, que os culpou por um incêndio que destruiu grande parte da cidade. Na maioria das vezes, porém, eram as pessoas comuns que se queixavam dos cristãos às autoridades. Foi o que aconteceu em Lyon, na atual França, em 177, onde os habitantes locais, atormentados por guerras e doenças, culparam os cristãos por irritarem os deuses e os arrastaram às autoridades para serem punidos. A maioria dos cristãos foi presa. Alguns foram torturados, e cerca de 48, mortos.
Outras vezes, a perseguição vinha diretamente dos imperadores. Mesmo as piores perseguições, no entanto, não conseguiam deter os cristãos, que acreditavam que morrer por sua fé era uma honra. Aqueles que morriam por causa de sua fé foram chamados de mártires, palavra grega que significa “testemunhas”. A coragem e a devoção dos cristãos eram um testemunho de sua fé e atraíam outros para o Evangelho.
A primeira perseguição geral aos cristãos do Império Romano aconteceu em 249, sob o imperador Décio, que exigia a participação de todos os cidadãos nos sacrifícios aos deuses, mesmo que fossem apenas para comer a carne de animais sacrificados. Os que obedeciam recebiam um certificado, chamado libellus. Pessoas sem um libellus eram presas, torturadas e, às vezes, mortas.
Uma perseguição ainda pior foi lançada em 303, durante o reinado de Diocleciano. Igrejas foram queimadas, Bíblias foram destruídas, e milhares de cristãos foram mortos. A essa altura, porém, os cristãos já se tinham tornado tão numerosos e queridos em suas comunidades, que muitos romanos os defenderam.
Você sabia?
A morte por crucificação (ser pregado em uma cruz) era uma forma de punição tão horrível, que geralmente era praticada fora da cidade. A visão de pessoas penduradas em cruzes servia de alerta àqueles que entravam na cidade. Na verdade, as crucificações eram uma forma de tortura, visto que alguém podia sofrer horrivelmente por horas — ou até mesmo dias — até morrer. Os romanos, que provavelmente aprenderam o método com os persas ou cartagineses, não o empregavam para punir cidadãos romanos. Porque o apóstolo Paulo era cidadão romano, é provável que ele tenha sido decapitado.
Para evitar a perseguição, os cristãos tinham de apresentar um certificado (libellus) declarando que haviam realizado um sacrifício aos deuses romanos. O libellus foi exigido durante a perseguição sob o imperador Décio. A linha de assinatura diz: “Nós, Aurelii Serenus e Hermas, vimos você sacrificando”.
A propagação do cristianismo
Antes de deixar esta terra, Jesus disse aos seus discípulos:
Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mt 28.18-20)
Seus discípulos levaram esse mandamento a sério, espalhando as boas novas da vida, morte e ressurreição de Jesus, tanto a Israel como a outras nações. Era uma notícia realmente boa, pois dizia às pessoas que, por causa da obediência, do sacrifício e da vitória de Jesus sobre a morte, havia um futuro brilhante reservado para todos aqueles que confiavam nele.
Jesus era realmente o Cristo (palavra grega para Messias) esperado pelos judeus, mas não apenas o Salvador deles. Jesus veio para salvar pessoas de todas as nacionalidades. Além do mais, sua vinda não foi para dar aos judeus liberdade política em relação aos romanos, que estavam lá apenas por um tempo. Cristo veio para libertá-los da escravidão ao pecado — algo que nenhum ser humano poderia fazer.
Acostumados com a ideia de que havia muitos deuses que continuavam lutando entre si e que precisavam ser mantidos pacificados com sacrifícios constantes, as pessoas consideravam a mensagem cristã de um Deus de amor sem fim uma notícia maravilhosa. Essas boas novas são conhecidas como o Evangelho. Aqueles que o receberam o espalharam para outras pessoas, às vezes viajando longas distâncias para fazê-lo.
Isso soava estranho para os povos antigos, que geralmente acreditavam nos deuses de sua região e não se importavam com aquilo em que as pessoas que viviam em outros lugares acreditavam. Na verdade, eles se alegrariam se os deuses dos estrangeiros fossem fracos. Mas os cristãos acreditavam que Cristo morreu para salvar o mundo inteiro e que todos deviam ouvir essa boa nova.
Não temos um registro de todas as primeiras viagens missionárias. Segundo algumas fontes, os apóstolos Tadeu e Bartolomeu levaram o Evangelho à Armênia, enquanto alguns atribuíram a evangelização inicial da Índia ao apóstolo Tomé, e outros, a Bartolomeu. De qualquer forma, segundo o historiador Eusébio de Cesareia (c. 260–339), já existia, no fim do segundo século d.C., uma comunidade de cristãos na Índia que possuía um exemplar do Evangelho de Mateus.
Na maioria das vezes, o Evangelho era difundido por cristãos que falavam com seus vizinhos ou com pessoas que conheciam enquanto viajavam a trabalho, a lazer ou por causa de perseguição. À medida que cresciam novas comunidades cristãs, era comum que pedissem a uma comunidade maior que enviasse um bispo para ajudá-las.
Alguns historiadores antigos ficavam surpresos com o fato de uma religião de seguidores tão perseguidos e desprezados continuar a se espalhar — primeiro, lentamente e, em seguida, de maneira cada vez mais célere. No fim do primeiro século, dos 60 milhões de habitantes do Império Romano, menos de dez mil eram cristãos. No ano 300, na época da perseguição de Diocleciano, pelo menos seis milhões de pessoas se autodenominavam cristãs, apesar dos perigos e do ódio contra elas.
O mosteiro de Khor Virap em Artaxata, na Armênia, foi construído no sétimo século d.C., no local onde Gregório, o Iluminador, ficou preso por 13 anos. A cela da prisão ainda está sob o mosteiro, que foi remodelado várias vezes. A montanha ao fundo é o Monte Ararate.
A primeira nação cristã
Segundo o antigo historiador Agatângelo, a Armênia foi a primeira nação a adotar o cristianismo como religião oficial. Isso aconteceu em 301, durante o reinado de Tirídates III (c. 250–330).
Segundo a história, Tirídates, encantado pela beleza de uma freira cristã, Hripsime, chamou-a ao seu palácio, onde a pediu em casamento. Quando ela recusou, Tirídates tentou tomá-la à força, mas ela lutou e venceu. Desapontado e envergonhado, tentou convencer a abadessa do convento a ordenar a Hripsime que lhe obedecesse. Quando ela também recusou, o rei matou as 33 freiras do convento.
Depois disso, ele foi atingido por uma condição semelhante à do rei bíblico Nabucodonosor (veja Dn 4). Foi então que a irmã de Tirídates, Cosrovidutes, o incentivou a tirar um homem da prisão para orar por ele. O nome do homem era Gregório (c. 240–332), mais tarde conhecido como “o Iluminador”, no sentido de “doador de luz”. Gregório estava preso havia 13 anos por ter se recusado a adorar um dos deuses pagãos da Armênia.
Curado pela oração de Gregório, Tirídates professou a fé em Cristo. Querendo que o seu povo também o fizesse, o rei declarou oficialmente a Armênia como uma nação cristã.
O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro História da Igreja, de Simonetta Carr, que será lançado em breve pela Editora Fiel.
