Com o aumento da população cristã e de seu reconhecimento, a Igreja teve de se tornar mais organizada, e os bispos assumiram mais autoridade. Os problemas começaram quando alguns homens quiseram se tornar bispos com o objetivo de obterem influência, riquezas e poder.
Durante os primeiros dois séculos, nenhum bispo teve maior influência do que qualquer outro. Era comum que um bispo ou um grupo de bispos corrigissem uns aos outros. Com o tempo, os bispos das maiores cidades começaram a reivindicar maior autoridade.
Pelo que sabemos, o primeiro bispo a reivindicar abertamente um poder supremo sobre os outros foi Estêvão I (m. 257), de Roma. Para apoiar sua afirmação, ele alegou que a sua autoridade vinha do apóstolo Pedro, seguindo uma longa linhagem de bispos. Estêvão interpretou as palavras de Jesus registradas em Mateus 16.18 — “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” — como uma afirmação de que Pedro seria o líder supremo da Igreja, embora a Igreja Primitiva fosse liderada por um conselho de apóstolos. Além do mais, Paulo teve de corrigir Pedro fortemente por sua atitude para com os cristãos que não nasceram judeus (Gl 2.11-14).
No quinto século, Leão I (c. 400–461) levou essa afirmação um passo adiante. Ele disse que, quando o bispo de Roma fala, é Pedro quem fala diretamente por meio dele.
Muitos se opuseram a essa reivindicação. Para piorar, às vezes diferentes homens diziam ser sucessores de Pedro. Por exemplo, em 366, dois rivais — Ursino (m. c. 385) e Dâmaso (c. 304–384) — foram eleitos bispos de Roma ao mesmo tempo. A competição produziu uma onda de violências, até que a maioria dos apoiadores de Ursino foi morta.
Inicialmente, a palavra “papa”, que significa simplesmente “pai”, era usada como outra forma para se referir ao bispo, principalmente nas grandes cidades. Depois de um tempo, o título passou a ser atribuído ao bispo mais importante da região. Foi somente no século 11 que “papa” começou a ser empregado como título exclusivo para o bispo de Roma. Hoje, o mesmo título é dado ao patriarca copta de Alexandria e a todos os sacerdotes da Igreja Ortodoxa Grega.
Os papas de hoje ainda dizem que são sucessores diretos do apóstolo Pedro. Não há nenhuma prova histórica de que Pedro tenha sido bispo de Roma (essa informação não é mencionada no livro de Atos, nas cartas de Paulo nem nas próprias cartas de Pedro), tampouco de que uma linhagem de papas tenha advindo dele. Essa ideia faz parte das crenças e tradições católico-romanas.
O artista que criou esta estátua no século 14 vestiu São Pedro como papa para encorajar as pessoas a enxergá-lo como o primeiro papa. Como Pedro é tradicionalmente representado segurando as chaves do céu, alguns acreditam que ele realmente se encontra posicionado nos portões celestiais para controlar os que podem entrar.
Você sabia?
Inicialmente, os papas mantinham os nomes que receberam ao nascer. O primeiro papa a mudar de nome foi João II (m. 535), que pensava que o seu nome de nascimento, Mercúrio (um mensageiro dos deuses romanos), não era adequado a um papa. Em contrapartida, um papa chamado Formoso (c. 816–896) não fez objeções ao seu nome de nascimento, cujo significado é “belo”.
Bispos e imperadores
Embora os imperadores tivessem muitas formas de fazer cumprir o seu poder por meio de leis, impostos e força militar, os bispos tinham algumas vantagens: normalmente viviam mais tempo (a maioria dos imperadores era morta pelos seus inimigos), conheciam suas áreas locais e podiam ajudar o seu povo de forma mais eficaz. Muitos bispos executavam programas para alimentar os pobres e prestavam assistência rápida em emergências. No ano de 378, por exemplo, o bispo Ambrósio de Milão resgatou os prisioneiros da desastrosa batalha de Adrianópolis com o dinheiro arrecadado em suas igrejas. Em 452, Leão I, bispo de Roma, convenceu Átila, o Huno (c. 406–453), a não invadir a sua cidade. Esses atos os tornavam populares entre o povo, ao contrário dos imperadores, que alistavam jovens e cobravam impostos.
Além disso, imperadores frequentemente se ocupavam com emergências, de modo que um bispo persistente conseguia, não raramente, vencer uma disputa. Em 385, por exemplo, o Imperador Valentiniano II (371–392) e sua mãe, Justina (m. 388) — ambos seguidores de Ário —, exigiram o uso de duas igrejas em Milão (ainda a capital do Império Romano Ocidental) para que adorassem de uma forma que não reconhecesse Jesus como plena e eternamente Deus. Quando o bispo Ambrósio recusou a solicitação, o imperador lhe pediu que entregasse pelo menos uma igreja. Ambrósio não moveu um dedo sequer. Quando o imperador enviou suas tropas para tomar a igreja à força, Ambrósio e todos os membros dela se barricaram dentro do prédio e cantaram em alta voz, até que os soldados não tivessem outra opção senão sair.
O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro História da Igreja, de Simonetta Carr, que será lançado em breve pela Editora Fiel.
