segunda-feira, 1 de junho
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Deus ou o acaso?

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Após a partida de Israel do Egito, Deus ordenou que seu povo construísse um tabernáculo, uma grande tenda que funcionaria como o centro de sua adoração. A parte mais interior do tabernáculo, que era separada por cortinas, era o Santo dos Santos, no qual somente o sumo sacerdote poderia entrar, apenas uma vez por ano, no Dia da Expiação. Ali, no Santo dos Santos, era guardada a arca da aliança. A arca não era um barco, como na história da arca de Noé, e sim uma grande caixa coberta de ouro. Dentro desta caixa, eram guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos, a vara de Arão que florescera e um vaso que continha o maná com o qual Deus alimentou, miraculosamente, o povo no deserto (Hb 9.4). A tampa da arca, que era adornada com dois querubins de ouro, era considerada como o trono de Deus. Em palavras simples, a arca era o utensílio mais sagrado em toda a história religiosa dos judeus.

Além disso, a arca tinha um significado militar para os judeus. Quando Moisés e Josué lideraram os israelitas em sua jornada para a Terra Prometida, e na conquista de Canaã, quando entravam em batalha contra seus inimigos, os sacerdotes levavam a arca da aliança. Quando o trono de Deus acompanhava os exércitos de Israel, eles eram vitoriosos. Deus estava com eles na batalha e lutava por eles.

Infelizmente, as pessoas começaram a associar a vitória na batalha com a própria arca e não com Deus. Vemos isto em 1 Samuel 4, que relata uma ocasião em que os israelitas foram à batalha contra os filisteus (mas não acompanhados da arca) e sofreram derrota, com a perda de 4.000 homens. Em seguida, lemos: “Voltando o povo ao arraial, disseram os anciãos de Israel: Por que nos feriu o SENHOR, hoje, diante dos filisteus? Tragamos de Siló a arca da Aliança do SENHOR, para que venha no meio de nós e nos livre das mãos de nossos inimigos” (v. 3). O povo atribuiu sua derrota a Deus, mas buscou a arca para salvá-los.

Assim, a arca foi trazida ao acampamento dos israelitas. Quando os soldados viram a chegada do trono de Deus, deram brados grandes e estridentes. Através do vale, os filisteus ouviram os brados e, quando descobriram a razão para os brados, souberam que estavam num grave problema, porque lembraram como Deus ferira os egípcios durante o êxodo (vv. 5-8).

Nesse tempo, Israel era liderado por Eli, um sacerdote e juiz. Ele era um homem piedoso, que havia servido ao povo durante várias décadas, mas tinha um defeito sério. Ele tinha dois filhos, Hofni e Fineias, que também eram sacerdotes, mas não compartilhavam da piedade de Elias e cometiam todos os tipos de profanação de sua vocação sagrada. No entanto, Eli nunca os disciplinou. Por isso, Deus lhe falou, por meio de um profeta, advertindo-o de que o julgamento cairia sobre a sua casa, porque Hofni e Fineias morreriam no mesmo dia (2.30-34).

Esta profecia se cumpriu quando os israelitas, jubilosos por terem consigo a arca de Deus, voltaram à batalha contra os filisteus, e Hofni e Fineias acompanharam a arca. O impensável aconteceu – os israelitas não prevaleceram, embora a arca estivesse presente. Nesta vez, 30.000 homens israelitas caíram (4.10). Hofni e Fineias também morreram, mas o pior de tudo foi que os filisteus pagãos capturaram a arca da aliança (v. 11).

Depois da batalha, um mensageiro retornou a Siló com as más notícias. Eli estava com 98 anos de idade, cego e muito pesado (vv. 15, 18). Estava sentado junto ao portão onde proferia julgamentos, porque esperava ansiosamente por notícias da batalha. Quando o mensageiro chegou e lhe contou que Israel fora derrotado, seus filhos foram mortos e a arca capturada, Eli caiu para trás, quebrou o pescoço e morreu (v. 18).

A nora de Eli, a esposa de Fineias, estava grávida e prestes a dar à luz. Quando ouviu as notícias da derrota e da morte de seu marido, ela entrou em trabalho de parto. Deu à luz um filho, mas morreu como resultado de seu parto. Contudo, antes de morrer, ela chamou o menino de Icabô, um nome que significa “a glória se foi” (vv. 19-22). O menino nasceu no dia em que a maior glória de Israel, o trono de Deus, foi levada ao cativeiro pelos filisteus pagãos.

Aflições para os filisteus

O relato nos diz que os filisteus levaram a arca para Asdode, uma de suas cinco cidades-estados. Levaram-na para seu templo mais sagrado, que era dedicado a Dagom, sua principal divindade. No templo, colocaram a arca aos pés de Dagom, um lugar de humilhação e subordinação (5.1-2). Entretanto, na manhã seguinte, eles acharam a estátua de Dagom caída com o rosto em terra; era como se Dagom estivesse prostrado diante do trono de Jeová. Os sacerdotes pegaram a estátua e colocaram-na de volta em seu lugar. Mas na manhã do dia seguinte, a estátua não somente caíra com o rosto em terra, mas também estava com a cabeça e as mãos cortadas (vv. 3-4).

Para tornar as coisas piores, uma praga de tumores irrompeu em Asdode (v. 6) e, aparentemente, uma praga de ratos (6.5). Os homens de Asdode suspeitaram que as aflições vinham da mão de Deus, por isso, reuniram um conselho para discutir o que deveriam fazer. Chegaram à decisão de enviar a arca para Gate, outra das cidades-estados dos filisteus (5.7-8). No entanto, as mesmas aflições começaram em Gate, por isso, os habitantes de Gate decidiram enviar a arca a Ecrom. Mas as notícias das aflições precederam a arca, e as pessoas de Ecrom recusaram recebê-la. Depois de sete meses de aflições, os filisteus compreenderam, finalmente, que a arca tinha de ser mandada de volta a Israel (5.9-6.1).

Devolver esse objeto sagrado a Israel não era uma tarefa simples. Os filisteus reuniram seus sacerdotes e adivinhadores para orientá-los, a respeito de como proceder. Os sacerdotes e adivinhadores recomendaram que eles mandassem a arca de volta com uma “oferta pela culpa” – cinco tumores de ouro e cinco ratos de ouro (6.2-6).

Agora, a história se torna interessante. Os sacerdotes e adivinhadores disseram aos príncipes dos filisteus que preparassem um carro novo para colocarem a arca, os tumores e os ratos de ouro. Depois, eles deveriam achar duas vacas de leite que nunca haviam recebido jugo e atá-las ao carro. Por fim, deveriam separar os bezerros das vacas. Depois que tudo isso estivesse feito, deveriam deixar o carro seguir sozinho, mas observar onde as vacas o levariam. Eles disseram: “Se subir pelo caminho rumo do seu território a Bete-Semes, foi ele que nos fez este grande mal; e, se não, saberemos que não foi a sua mão que nos feriu; foi casual o que nos sucedeu” (v. 9). Em essência, isso era um experimento elaborado para ver se Deus estivera por trás das aflições, ou se tinham acontecido por “acaso”.

É vital entendermos como os filisteus “manipularam as coisas”, por assim dizer, para determinar, conclusivamente, se havia sido o Deus de Israel que causara aquelas aflições.

Eles acharam vacas que tinham acabado de dar cria. Qual é a inclinação natural de uma vaca que acabou de dar cria? Se você separa a vaca de seu bezerro e, depois, a deixa ir livremente, ela tomará o caminho mais curto para chegar ao seu bezerro. De modo semelhante, os filisteus tomaram uma vaca que nunca levara jugo ou fora treinada a puxar um carro em um jugo. Nesse caso, uma vaca, provavelmente, lutará contra o jugo e, dificilmente, trabalhará bem com a outra vaca no jugo. Com estas coisas unidas no experimento, era muito improvável que o carro chegaria a algum lugar e muito menos que se dirigiria para a terra de Israel. Se as vacas fossem, de algum modo, capazes de puxar o carro, desejariam retornar aos seus bezerros. Portanto, se o carro seguisse em direção a Israel, isso seria um sinal de que Deus estava guiando as vacas – e, por conseguinte, que ele havia orquestrado as aflições que sobrevieram aos filisteus, desde a captura da arca.

Um experimento de ateístas

Este experimento parece primitivo. Aconteceu na era pré-científica. Aquelas pessoas não eram sofisticadas. Elas não tinham PhDs em física. Sua ingenuidade, quando tentaram descobrir a causa de sua aflição, é hilariante. Mas há algo sobre esta história que acho extremamente contemporânea – aquelas pessoas eram ateístas. Talvez, você se surpreenda com essa afirmação, porque a Bíblia nos diz que os filisteus tinham um templo, um sacerdócio e uma religião. Por que, então, faço a afirmação de que eles eram ateístas?

Anos atrás, quando eu dava aulas em um seminário, era responsável por ensinar um curso sobre a teologia da Confissão de Westminster, que é um documento teológico do século XVII e, também, o alicerce confessional do presbiterianismo histórico. Os primeiros dois capítulos da confissão tratam das Escrituras e do Deus trino, enquanto o terceiro capítulo é intitulado “Do Decreto Eterno de Deus”. Os presbiterianos sabem, exatamente, o que isso significa – predestinação. Os alunos de seminário gostam de considerar, em profundidade, questões doutrinárias difíceis e gostam, especialmente, de debater sobre a predestinação; por isso, havia uma empolgação quanto à minha futura palestra sobre esta doutrina. A maioria de meus alunos até convidava amigos que não criam na predestinação; por conseguinte, quando a classe se reunia para considerar esta doutrina difícil, quase o dobro do número habitual de pessoas estava presente.

Eu começava a aula com a leitura das linhas iniciais do capítulo três da Confissão de Westminster: “Deus, desde toda a eternidade, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou, livre e inalteravelmente, tudo quanto acontece”. Depois, eu parava e dizia: a confissão afirma que, desde toda a eternidade, Deus ordenou, livre e inalteravelmente, tudo o que acontece; quantos de vocês creem nisso? Aquele era um seminário presbiteriano, por isso, muitas mãos se levantavam; os bons alunos presbiterianos que estavam na classe se orgulhavam de confessar sua convicção quanto à soberania de Deus.

É claro que nem todos levantavam a mão, por isso, eu perguntava: quantos de vocês não creem nisso? Ninguém anotará seus nomes. Vocês não se envolverão em problemas, não haverá nenhum tribunal de heresia aqui, nem lenha para queimá-los na fogueira; apenas sejam honestos. Por fim, certo número de alunos levantava a mão. Quando eles faziam isso, eu lhes dirigia outra pergunta: quantos de vocês se descrevem, sinceramente, como ateístas? De novo, sejam honestos. Ninguém levantava a mão; por isso, eu dizia: não entendo por que aqueles de vocês que disseram não concordar com a confissão não levantaram a mão, quando lhes perguntei se eram ateístas.

Como você pode imaginar, havia uma gritaria e um clamor da parte dos alunos que não concordavam com a confissão. Estavam prontos a me linchar. Eles diziam: “O que você está falando? Só porque não cremos que Deus ordena tudo que acontece, está nos chamando de ateístas?” Eu respondia: isso é exatamente do que estou lhes chamando. Se não creem que Deus ordena tudo que acontece, vocês não creem em Deus. Em seguida, eu começava a explicar-lhes que a passagem lida da Confissão não diz nada exclusivamente presbiteriano. Não era, nem mesmo, uma afirmação exclusivamente cristã. A afirmação não separava presbiterianos dos metodistas, luteranos ou anglicanos, bem como não distinguia presbiterianos, mulçumanos e judeus. Apenas oferecia uma distinção entre o teísmo e o ateísmo.

O que eu desejava que aqueles alunos percebessem era isto: se Deus não é soberano, ele não é Deus. Se há uma molécula dissidente no universo – uma molécula que corre livremente, fora do escopo da ordenação soberana de Deus – não podemos ter a menor confiança de que qualquer das promessas feitas por Deus sobre o futuro acontecerá.

Portanto, essa é a razão por que digo que os filisteus eram ateístas. Eles levaram em conta a possibilidade de um evento neste mundo ser causado pelo acaso – a possibilidade de que, contra todas as evidências, a aflições que sofreram tinham acontecido por coincidência. Levaram em conta a possibilidade da ação de uma molécula dissidente; por isso, levaram em conta a possibilidade da existência de um Deus que não é soberano, e um Deus que não é soberano, não é Deus.

A grande mensagem do ateísmo é a de que o “acaso” tem poder causal. Repetidas vezes, ouvimos pessoas expressarem a opinião de que não precisamos atribuir a criação do universo a Deus, porque sabemos que o universo é resultado de espaço mais tempo, mais acaso. Isto não faz sentido; não há nada que o acaso possa fazer. Acaso é uma palavra perfeitamente boa para descrever possibilidades matemáticas, mas é apenas uma palavra. Não é uma entidade. O acaso é nada. Não tem poder, porque não tem ser; por isso, não pode exercer nenhuma influência sobre qualquer coisa. Apesar disso, hoje temos cientistas sofisticados que fazem declarações solenes de que todo o universo foi criado por acaso. Isto equivale a dizer que nada causou algo; e não há afirmação mais anticientífica do que essa. Tudo tem uma causa, e a causa suprema, como já vimos, é Deus.

Quando os filisteus deixaram as vacas seguirem seu caminho, elas “se encaminharam diretamente para Bete-Semes e, andando e berrando, seguiam sempre por esse mesmo caminho, sem se desviarem nem para a direita nem para a esquerda” (6.12). As vacas puxavam o carro suavemente, embora nunca houvessem levado jugo. Elas seguiram para longe de seus bezerros, embora desejassem ir ao encontro deles, como é evidenciado por seu berro. E foram diretamente para Israel. Tudo isso aconteceu por acaso? Não, as vacas foram guiadas pela mão invisível do Deus de providência. Assim os filisteus souberam que essa mesma mão os afligira.

Artigo adaptado do livro Deus controla tudo?, de R. C. Sproul — série Questões Cruciais.


Autor: R. C. Sproul

R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. Foi ministro presbiteriano, pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. Foi fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências, autor de mais de sessenta livros, vários deles publicados em português, e editor geral da Reformation Study Bible.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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