segunda-feira, 15 de julho
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Negar a substituição penal é negar a dignidade divina

A ideia “penal” na doutrina da substituição penal, estando ligada à ira de Deus, tem sido há tempos fonte de controvérsia dentro e fora da igreja. É criticada como exageradamente “legal” ou “forense”. As pessoas querem olhar para a cruz e falar sobre o amor de Cristo, mas não dele ter sofrido a punição divina.

No entanto, é válido parar por um momento e meditar a respeito do que está por trás da penalidade. O que é que está por trás da ira? A resposta é: a dignidade de Deus. A ira de Deus equivale a dignidade de Deus, e mencionar a palavra “penal” dentro de “substituição penal” consequentemente revela esse mesmo valor.

Ira e dignidade são perfeita e mutuamente correspondentes. O primeiro toma a medida do segundo e expressa-se em conformidade. Um é tão valioso quanto o outro.

Assim, ao retirar a ideia “penal” da substituição penal, você diminui dramaticamente a Deus. Despreze a sua ira e você desprezará a sua dignidade.

Para enxergarmos isso, vale a pena meditar por um momento no propósito da lei. Os Reformadores se referiam à lei em sua capacidade de restringir o pecado, condenar o pecado e revelar o caráter de Deus. Filósofos políticos e jurídicos apontam para o papel da lei de manter da ordem, proteger os indefesos ou garantir a liberdade. Cada uma dessas ideias contribuem de alguma forma.

Contudo, o que permeia cada uma dessas explicações é a ideia de que protegermos algo precioso e digno.

É contra a lei matar alguém pois a vida é preciosa. É contra a lei roubar pois propriedades são valiosas para as pessoas. É contra a lei de Deus mentir pois a verdade é preciosa. Qualquer criança de cinco anos valoriza os seus brinquedos, e qualquer rei que valorize o seu ouro entende a importância de uma lei assun. Essa é a razão pela qual ambos dirão: “Não encoste nas minhas coisas, ou você vai se ver comigo!” Alguém poderia dizer que a lei funciona como a muralha de um castelo ou um sistema de segurança. Pessoas erguem muralhas e instalam alarmes quando querem guardar algo precioso.

É por essa razão que quebrar a lei resulta em penalidade. Penas são cuidadosamente calculadas para equivaler a importância da violação, ou seja, a preciosidade daquilo que é protegido pela lei. Quanto mais precioso o item a ser protegido, mais severa é a lei. Quando não há pena após a quebra de uma lei, as pessoas assumem que tal questão não deve ser tão importante ou preciosa.

Penalidades instruem. Elas declaram o valor de algo.

Meus irmãos e eu descobrimos ainda jovens que mentir para os nossos pais gerava uma penalidade mais severa do que disputar por causa de um brinquedo. A lição que aprendemos dessa diferença? A verdade é mais preciosa do que brinquedos.

Ninguém ama a ideia por trás das penalidades, obviamente, mas a penalidade é o principal componente que torna a lei significativa como guardiã de algo de valor. Se a lei é a sentinela guardiã daquilo que é precioso, a penalidade é a lança pontiaguda da baioneta. Ela dá à lei aguilhão, essência e significado.

Olhando desse ângulo para a lei de Deus, nós vemos que a lei de Deus é uma muralha infinitamente alta que protege a sua infinita dignidade e glória. Ela é a guardiã e a reveladora da sua glória. Violar a sua lei é desrespeitar a sua infinita dignidade. Quando você diz “não” para Deus, você efetivamente diz: “Deus, aquilo que você pensa não significa muito para mim, porque você não significa muito para mim”.

Ainda que a teoria da satisfação na expiação de Anselmo não diga tudo o que precisava ser dito sobre o que aconteceu na cruz, o que ele diz, acho eu, captura um elemento na obra de Cristo que outras formulações da substituição penal se esquecem às vezes de mencionar: a honra de Deus é questionada pelo pecado. E tal honra necessariamente precisa ser vindicada ou satisfeita. E tal satisfação necessariamente precisa ser infinita. A doutrina da substituição penal complementa os detalhes da teoria de Anselmo observando que a ofensa contra a sua honra se torna manifesta, como se fosse, através da transgressão da lei de Deus. A lei requer uma penalidade. A penalidade é a ira de Deus. A ira de Deus, acima de tudo, é a zelosa guardiã da glória de Deus. A glória de Deus foi então demonstrada na cruz – dentre outros modos – ao demonstrar que a lei de Deus realmente requeria a penalidade pelas transgressões contra ela (Rm 3.25-26).

Por que desejamos preservar um entendimento “legal” ou “forense” da expiação e um alto conceito da ira? Porque, a menos que queiramos continuar idólatras, nós devemos conceber que a coisa mais preciosa no universo é Deus e a sua glória. A infinita dignidade e preciosidade de Deus produzirá intrinsicamente uma contraparte – a lei de Deus. A lei de Deus é o perfeito e apropriado protetor correspondente à dignidade infinita de Deus. Depreciar a lei de Deus é depreciar a dignidade de Deus, plena e simplesmente.

O termo “penal” na substituição penal, da mesma forma, corresponde à infinita preciosidade e dignidade de Deus. A sua ira é uma indicação do quão infinitamente glorioso e precioso ele é.

Dizer que o pecado de Adão não devia ter resultado em morte; dizer que os nossos pecados não deviam resultar na ira de Deus; acanhar-se em mencionar a ira de Deus privadamente ou publicamente; dizer que a substituição penal é exagerar obsessivamente em categorias legais ou em demasiada ênfase no papel da lei de Deus; dizer que a significância da morte de Cristo é reduzida ao ser trazida ao âmbito judicial; dizer que as demandas da lei de Deus não devem ser satisfeitas; afirmar que a declaração forense de “justo” é meramente uma “ficção legal”; caricaturar a propiciação da ira de Deus pelo Filho de Deus como “abuso infantil divino” – tudo isso é omitir o papel da lei de Deus em proteger e declarar a dignidade de Deus; e, consequentemente, isso acaba diminuindo a sua inefável dignidade e glória.

Deixe-me frisar mais um ponto: se o mundo, a carne e o diabo desejam sobretudo reduzir a noção da bondade de Deus e levar-nos enganosamente a pensar que podemos ser “como Deus”, não existirá mentira mais perigosa no universo do que negar a ira de Deus e redefinir o evangelho de um modo que imperceptivelmente desloque o “penal” fora da substituição penal – tipo o que alguém disse para Eva: “Certamente você não morrerá”.

Porém, em um mundo de autojustificadores e de aspirantes a deuses, a ideia da ira de Deus será sempre a primeira peça de dominó que o diabo tentará derrubar. “Certamente você não morrerá. Jamais. Você é precioso de mais!”

 

Tradução: Paulo Santos
Revisão: Vinicius Musselman


Autor: Jonathan Leeman

Jonathan Leeman é graduado em Jornalismo, possui mestrado em Divindade pelo Southern Baptist Seminary (EUA) e Ph.D. em Eclesiologia. É diretor de comunicação do Ministério 9Marks.

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