quarta-feira, 24 de abril

O casamento que você foi criado para desfrutar

Um noivo mais fiel do que Adão

No princípio, Deus trouxe uma noiva para seu filho Adão. Esse foi um casamento cheio de promessas. Foi um casamento com uma missão. Eles deviam encher a terra e subjugá-la, ampliando os limites do Éden, de modo que toda a terra se tornasse um jardim paradisíaco e repleto de portadores da imagem de Deus. Duas pessoas sem pecado, sem nada a esconder e com tudo a compartilhar. Porém, quando o pecado entrou em cena, a alegria de ser presenteado com uma noiva transformou-se em uma acusação contra ela: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). O impacto da maldição fez com que o casamento deles fosse contaminado por disputas de poder e decepções.

Era necessário um noivo mais fiel do que Adão, um que, em vez de se rebelar, obedecesse, que conduzisse fielmente sua noiva para comerem juntos da árvore da vida, em lugar de causar o impedimento de acesso a ela. Quando Jesus apareceu em cena, João o identificou em seu Evangelho como o noivo fiel. O apóstolo registra as seguintes palavras de João Batista: “O que tem a noiva é o noivo” (Jo 3.29). Paulo também apresenta Jesus com esses termos, escrevendo que, desde o primeiro casamento no Éden, os casamentos sempre estiveram profundamente relacionados ao grande casamento eterno de Cristo com sua noiva (Ef 5.32). Em 5.31, ele cita Moisés, que escreveu: “Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne” (Gn 2.24). Então, ele acrescenta: “Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (5.32). O casamento humano sempre teve a intenção de nos dizer algo sobre o relacionamento que Deus deseja compartilhar com seu povo.

É claro que, até agora, enquanto aguardamos esse casamento eterno com Cristo, esse noivado tem se mostrado muito longo. E Apocalipse parece reconhecer que pode ser muito difícil permanecer fiel em um noivado à distância. O livro de Apocalipse tem sido um chamado à perseverança paciente, um chamado para que a noiva de Cristo aguarde com paciência e expectativa a chegada do noivo. Em Apocalipse 21, João tem uma visão do dia em que a espera finalmente terminará:

Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. (Ap 21.2)

É a bela noiva de Cristo. Pronta para o casamento, pronta para a consumação de um matrimônio eterno com seu noivo. A separação terá fim. Finalmente, noiva e noivo estarão juntos no lar:

Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. (Ap 21.3-4)

Essa habitação com o homem é o que Deus sempre quis. E, se pensarmos bem, não é mesmo incrível que Deus deseje morar conosco? Ele quer. E é claro que ele quer ficar tão perto, tão perto, a ponto de ser capaz de enxugar as lágrimas de nossos olhos, todas as lágrimas que derramamos por causa do sofrimento e das perdas desta vida. A perseverança paciente nesta vida não significa que o que experimentamos enquanto esperamos não vá doer. Viver neste mundo traz muita dor. No entanto, podemos ter certeza de que nosso noivo viu as mágoas, os sacrifícios e as ofensas. Ele sabe como é viver neste mundo, já que entrou neste mundo para nele viver e experimentou a pior das dores aqui. Um dia, ele virá novamente para nós. Ele chegará como um Rei guerreiro em um cavalo branco para acabar com tudo o que nos trouxe dor e tristeza. Então, ele virá até nós como um noivo, para que nosso casamento eterno possa começar. Finalmente, teremos a intimidade com ele que sempre desejamos, mas que nunca conseguimos alcançar ou manter. Amaremos aquele que nos amou primeiro.

Talvez você tenha sido abençoado nesta vida com um casamento longo e feliz. Se assim for, você teve uma amostra do céu. Ou é possível que você tenha passado muitos anos desejando casar-se, ou muitos anos decepcionado com um casamento, ou tenha chegado ao ponto de desistir completamente do casamento. A verdade é que, por melhor que o casamento humano seja, nenhum casamento pode estar à altura de nossos desejos, pois somente o casamento eterno com nosso noivo divino pode e vai proporcionar isso.

Um dia, Deus nos apresentará como uma noiva ao seu Filho, aquele que nos amou e deu a si mesmo por nós, para que nos santificasse, tendo nos purificado por meio da lavagem de água pela Palavra, para nos apresentar a si mesmo como noiva gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito (veja Ef 5.25-27). A face dele estará radiante e estampará uma alegria que será refletida em nossa face. Ele nos dará as boas-vindas ao seu lar para que o casamento eterno possa começar.

A terra que você foi feito para herdar

Embora a imagem de noiva e noivo capture a intimidade que compartilharemos na eternidade com Cristo, a imagem de um pai e de um filho captura a herança que será nossa em Cristo:

O vencedor herdará estas coisas, e eu lhe serei Deus, e ele me será filho. Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte. (Ap 21.7-8)

No princípio, Adão e Eva receberam o domínio e a ordem de serem fecundos, de se multiplicarem e de encherem a terra. Se eles tivessem obedecido, toda a terra teria sido deles. Porém, quando Adão e Eva desobedeceram, eles foram expulsos do jardim e perderam o acesso à terra e a concessão dela. Assim, Deus começou a trabalhar em seu povo para dar-lhe uma herança de uma terra, chamando Abraão para deixar sua família, seu país, e ir a uma terra que lhe seria dada. Os descendentes de Abraão ficaram exilados no Egito durante 400 anos, mas Moisés os conduziu para fora do Egito. Então, Josué os conduziu de volta à Terra Prometida e deu a cada tribo, clã e família uma herança de terra. Ter um pedaço de chão na Terra Prometida era ter uma parcela em todas as promessas de Deus ao seu povo, todas as suas bênçãos prometidas.

É claro que Abraão sempre entendeu que a terra que Deus dera a ele e aos seus descendentes estava, na verdade, apontando para uma herança muito maior. O escritor de Hebreus diz:

Pela fé, [Abraão] peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador. (Hb 11.9-10)

Abraão evidentemente enxergou a promessa da terra de Canaã em sua realidade mais profunda. Paulo escreve que “a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo” e que todos os que vivem pela fé são “sua descendência” (Rm 4.13, 16). Isso significa que, se você está em Cristo, você, junto com o restante de seus irmãos e irmãs, pode herdar… o mundo. Um dia, nosso Josué maior nos conduzirá à terra da qual a Terra Prometida de Canaã sempre foi uma mera sombra. Finalmente tomaremos posse total de nossa herança na verdadeira terra que mana leite e mel. Essa será a terra pela qual sempre ansiamos, a terra para a qual Canaã sempre apontou, a terra onde finalmente nos sentiremos em casa.

Porém, para que essa grande herança se tornasse possível, Jesus teve de ser extirpado da terra. Isaías escreve que o Servo do Senhor “foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo” (Is 53.8). Jesus foi exilado da terra de bênçãos e desceu ao reino dos mortos para que eu e você pudéssemos antecipar a vida na terra da promessa para sempre. É possível que você seja abençoado com uma tremenda herança por parte de sua família terrena. Talvez você esteja prestes a herdar uma quantidade significativa de riqueza ou alguma propriedade valiosa. Talvez você tenha recebido um nome que lhe transmita respeito e um grande senso de pertencimento. Ou talvez você não tenha nenhuma dessas coisas. Talvez tenha se afastado de sua família ou nunca tenha tido um lar ou um lugar ao qual se sinta pertencente. Não obstante o que seu pai e sua mãe terrenos lhe tenham ou não providenciado ou passado, se você está em Cristo, pode ter certeza de que seu Pai celestial pretende lhe dar uma vasta herança. Ele já lhe deu o nome dele. Seu irmão foi à frente para preparar um lugar para você. Um tesouro está sendo armazenado para você à medida que o ama e serve. Os braços estão sendo abertos para você. Uma mesa está sendo posta para você. Portanto, você deve recusar-se a morar neste mundo, recusar-se a acreditar em suas falsas promessas, recusar-se a entregar-se aos seus pecados contaminantes. Aqueles que amam este mundo também terão uma herança — ou, como João descreve, uma “porção” (Ap 21.8) —, mas não será em uma criação purificada, em uma terra celestial. Será num lago de fogo.

Ser abençoado é viver esta vida sem medo de receber essa porção, mas, em vez disso, viver esta vida antecipando que, um dia, você será recebido na Nova Criação, onde receberá uma herança que compensará toda a falta em sua vida. Você será abençoado por uma herança imerecida, insondável e impossível de perder.


O casamento humano sempre teve a intenção de nos dizer algo sobre o relacionamento que Deus deseja compartilhar com seu povo.

Este artigo é um trecho adaptado do livro As bençãos do Apocalipse, de Nancy Guthrie, Editora Fiel.

Para ler mais artigos que são trechos deste livro, clique aqui.


Autor: Nancy Guthrie

Nancy Guthrie ensina na Christ Presbyterian Church, em Nashville, TN, EUA. É palestrante ativa em conferências teológicas e autora de diversos livros.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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