sexta-feira, 1 de julho

O sabá puritano

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Desde o tempo da Reforma até meados do século XX, a grande maioria dos cristãos protestantes mantinha uma visão bem estrita acerca da observância do domingo. Com a intromissão do liberalismo, o surgimento do dispensacionalismo e a presença ubíqua da televisão, essa prática declinou de tal modo que, hoje, apenas uma pequena minoria de cristãos no Ocidente mantém essa posição.

A maioria dos cristãos sustenta que o domingo é um dia de adoração, mas, uma vez que o mandamento do sabá [1] servia como sinal da aliança apenas para Israel (Êxodo 31.13ss.), o cristão não está obrigado a observá-lo.

O papel do sabá, contudo, não era peculiar à experiência de Israel; ele fora instituído por Deus antes da queda, em Gênesis 2.1-3. Ao lado do trabalho (Gênesis 1.28; 2.15) e do casamento (Gênesis 2.18-25), Deus instituiu o sabá para governar a vida de toda a humanidade. Assim como as ordenanças do trabalho e do casamento são permanentes (e estão incorporadas aos Dez Mandamentos), assim também acontece com a ordenança do sabá. Com efeito, observe que Deus fundamentou o mandamento do sabá na ordenança criacional do sabá (Êxodo 20.11).

Deus instituiu a celebração do sabá tanto por seu exemplo como por suas palavras de instituição. Primeiro, ele estabeleceu o princípio da guarda do sabá ao descansar no sétimo dia: “E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito” (Gênesis 2.2). O termo sabá é derivado da palavra “descansou” no versículo 2. Ao descansar no sétimo dia, o próprio Deus estabeleceu o princípio e a prática da observância do sabá. A fim de compreender a ordenança do sabá, é preciso primeiro considerar por que Deus descansou.

Primeiro, ao descansar, Deus declarava que a sua obra como criador estava completa: Assim, pois, foram acabados os céus e a terra e todo o seu exército” (Gênesis 2.1). As palavras céus, terra e exército incluem todos os resultados da obra criativa de Deus entre os dias primeiro e sexto.

O descanso de Deus, contudo, não era uma cessação de todo trabalho (João 5.17), pois ele continua a trabalhar enquanto governa os processos da vida e todos os aspectos da sua ordem criada. Ele também trabalhou ao efetuar a redenção e continua a trabalhar ao chamar o seu povo para si mesmo e santificá-los. Uma vez que ele continua a trabalhar, por que essa ênfase no descanso? Quando Deus descansou da obra da criação, ele declarou que havia completado perfeitamente a obra da criação e ordenou que a humanidade o adorasse como Criador dos céus e da terra.

Segundo, o descanso de Deus expressava o seu deleite na criação. Moisés amplificou esse conceito em Êxodo 31.17: “Entre mim e os filhos de Israel [o sabá] é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento”. (Observe a relação entre a observância do sabá por Israel e a ordenança criacional.) O que significa dizer que Deus “tomou alento”? Certamente Deus não precisava de descanso. O alento de Deus no sétimo dia era uma expressão da sua alegria ao contemplar a beleza e perfeição de toda a criação terminada no sexto dia (Gênesis 1.31). Assim como alguém recua para contemplar com prazer alguma coisa construída ou realizada, Deus “recuou” para contemplar a sua obra com prazer. Ao descansar no sabá, Deus refletiu acerca da beleza e glória de sua obra completa, alegrando-se nela.

Terceiro, ao descansar no sétimo dia, Deus ilustrava o descanso prometido (vida eterna) que ele providenciaria para o seu povo. Ele ofereceu vida (descanso eterno) a Adão e aos seus descendentes. Se Adão não houvesse caído em pecado, ele haveria entrado naquele descanso sem passar pela morte. Deus graciosamente não cancelou a oferta de descanso após a queda; em vez disso, ele renovou a promessa de vida, não por meio da obediência de Adão, mas por meio de um Redentor. Conforme o eterno propósito de Deus, o dia do descanso se tornou uma promessa e um lembrete semanal aos pecadores de que ele providenciaria redenção e descanso.

Ao descansar, portanto, Deus declarou que havia acabado a sua atividade criadora, assim mostrando ser ele o Criador todo-poderoso que tem autoridade e poder para governar a sua criação. Ele contemplou com alegria a obra terminada da criação. Ele chama as pessoas a buscarem o seu descanso nele, à medida que elas contemplam a sua bondade na beleza da criação e a sua misericórdia na oferta graciosa de redenção. Ele concede um antegozo do descanso eterno que pertence ao seu povo e promete a realidade da entrada em seu descanso eterno. Ao guardarem o sabá, os cristãos celebram que as obras de Deus na criação e na redenção foram acabadas. Eles contemplam a complexa beleza de suas obras, tomam alento na comunhão com Deus e antecipam a vida eterna com ele.

Havendo demonstrado essas verdades por seu próprio descanso, Deus explicitamente consagrou o sétimo dia para que o homem guardasse o sabá: “E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera” (Gênesis 2.3). Nessa dupla ação de abençoar e santificar o dia, Deus instituiu o padrão de seis dias de trabalho e um sétimo dia de descanso.

Alguns sugerem que Deus abençoou o seu descanso eterno, não o sétimo dia. No mandamento do sabá, contudo, Deus especificamente abençoou o sétimo dia no ciclo semanal, estabelecendo a responsabilidade dos crentes de santificarem o sétimo dia na sua bênção do dia do sabá: “por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êxodo 20.11).

Ao abençoar o dia, Deus atribuiu o seu propósito especial. Quando Deus abençoou alguma coisa no relato da criação, ele estabeleceu o seu propósito e dotou a coisa criada da habilidade de cumprir aquele propósito. Por exemplo, quando Deus abençoou os animais em Gênesis 1.22, ele estabeleceu o seu propósito de que eles multiplicassem e enchessem a terra e os dotou da inclinação e da habilidade de procriar, de modo que eles pudessem cumprir tal propósito. A mesma coisa é evidente na bênção de Deus sobre o homem (Gênesis 1.28). Por semelhante modo, quando Deus abençoou o sétimo dia, ele lhe deu propósito e a habilidade de cumprir aquele propósito.

Além disso, ele prometeu àqueles que seguissem o seu exemplo de descanso a cada sétimo dia que os abençoaria. Assim, ao abençoar o dia, ele fez do dia uma bênção para o homem. Certamente Cristo tinha essa bênção em mente ao dizer: “E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2.27). Para uma lista das bênçãos vinculadas ao sabá, veja Isaías 58.13-14.

O propósito de Deus em abençoar o dia fica mais claro quando se entende o significado de ele “santificar” o dia. Quando Deus santifica algo, ele separa aquilo de seu uso ordinário para um uso religioso especial conectado à sua adoração e ao seu serviço. Por exemplo, ele declarou sagrada ou santa a veste do sacerdote, o altar, o santuário, e toda a mobília e os utensílios usados primeiro no tabernáculo e, depois, no templo. Em virtude dessa santificação, essas coisas deveriam ser usadas apenas para os propósitos sagrados da adoração (Êxodo 30.37-38).

Como então os cristãos devem aplicar essa santificação do sétimo dia? A Bíblia requer que os cristãos observem um dia em sete ou são todos os dias iguais? Deve o domingo ser observado de acordo com o mandamento ou estão os cristãos livres para passar o dia como lhes agrade, contanto que cultuem? Eles podem sensatamente assumir que, do mesmo modo como Deus separou certas coisas para o seu uso e serviço especiais, ele separou o sétimo dia para o propósito especial da adoração e do culto. Isso não significa negar que os outros seis dias sejam santos e devam ser usados para a glória de Deus; os cristãos devem glorificar a Deus em tudo na vida. Contudo, ele estabeleceu o sétimo dia como um dia santo, separado para propósitos especiais.

Ao abençoar e santificar o dia, Deus comunicou a Adão e Eva, e por meio da Escritura a toda a humanidade, o princípio da guarda do sabá. Os cristãos devem tratar como santo aquilo que Deus declara santo, concluindo que a observância de um dia em sete é uma obrigação moral perpetuamente em vigor, por causa dessa ordenança criacional. O Novo Testamento demonstra que Deus mudou o dia do sétimo para o primeiro dia da semana (Colossenses 2.16-17; Atos 20.6-7; 1Coríntios 16.1-2; Apocalipse 1.10). Embora Deus tenha mudado o dia, a obrigação e o privilégio permanecem.

Portanto, o mandamento do sabá não é senão a extensão e a aplicação da ordenança criacional. Assim como as responsabilidades morais do casamento e do trabalho permanecem, a responsabilidade moral de guardar santo um dia em sete também permanece.

Nota:

[1] N.E.: Sabá é a transliteração em português do termo em hebraico. Alguns textos usam sábado ou sabbath (transliteração em inglês). Optamos por sabá por ser um termo em português e distinto do dia da semana. Contudo, não se deve confundir com a rainha de Sabá de 1 Reis 10:4.

Observação:

Este artigo é parte da série “Sabá: O Debate Incansável”, na qual serão publicados artigos defendendo diferentes posições para que nosso leitor tenha uma compreensão mais abrangente sobre o assunto. Sendo assim, a postagem de uma posição específica não indica o posicionamento oficial deste ministério. Veja a lista de artigos sobre o assunto:

1) Sabá: Definindo o Debate
2) O Sabá do Sétimo Dia
3) O Sabá Puritano
4) O Sabá Luterano
4) O Sabá Realizado
5) Sabá: um Chamado para Descansar em Cristo


Autor: Joseph A. Pipa Jr.

Dr. Joseph A. Pipa Jr. é presidente e professor de teologia sistemática e histórica no Greenville Presbiteryan Theological Seminary em Greenville, Carolina do Sul, EUA, e é autor do livro The Lord’s Day [N.T.: publicado em português pela Editora Os Puritanos sob o título O Dia do Senhor].

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