sexta-feira, 14 de junho
homens

Onde estão os homens?

O problema sobre de onde viriam os homens necessários

Uma das características da vida nos vilarejos do sul da Índia era o Festival do Carro. O Carro, ou a jamanta, era uma estrutura de madeira que se erguia sobre rodas e carregava o ídolo hindu. Seus lados exteriores escuros e entalhados, com representações de vários aspectos da adoração, eram cobertos com bandeirolas, lantejoulas e grinaldas de flores. Um dia, em 1909, Amy estava de pé no calor ofuscante e na poeira asfixiante, quando, “com gritos e arremessos de braços ao ar, a torrente marrom passou”. Milhares de homens, despidos até à cintura em honra ao deus, se esforçavam e suavam puxando as cordas. “A torrente se tornou mais densa, os gritos se tornaram desvairados, o Carro se moveu para virar a esquina, balançando por um momento vertiginoso, e parou.” Havia policiais ao redor, para que nenhum devoto tentasse se atirar sob as rodas enormes. Mas não foi o Carro, nem a multidão, nem o calor, nem qualquer outro aspecto do festival que prendeu a atenção da missionária — foram os meninos, acólitos, que serviam ao deus, um deles no deque mais elevado do Carro, engrinaldado de flores cor-de-rosa.

Amy não podia suportar isso. Acreditava que os deuses da Índia, retratados por sua agressividade ou imagens sedutoras, eram satânicos, e aqueles que os faziam eram “semelhantes a eles”. O que aprendera a respeito do caráter da adoração hindu, em anos de estudo do idioma e da mente dos hindus, era para ela, muito literalmente, indizível e quase impensável. Era “imundície, lama, pecado”, Amy escreveu, mas “os livros que têm camuflado o hinduísmo estão aparecendo em grande número agora, e é terrivelmente fora de moda pensar como pensamos”.

Essas coisas moldavam e influenciavam a maneira de pensar dos indianos. Havia exceções. “A Índia tem homens para os quais esses males não têm nenhum apelo. A ‘luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem’ tem iluminado a mente e alma de alguns que nunca ouviram da Luz do mundo. Não apagaram essa Luz, e certamente os poderes do Calvário chegaram até eles”, Amy escreveu, “porém nunca um só raio de luz procede dos ídolos das pessoas, somente trevas que corrompem a mente de milhões da Índia.”

Ela não podia suportar a visão daqueles amáveis rapazinhos capturados por tal sistema. Também não podia esquecê-la.

John Donne escreveu: “A ignorância é não somente a sonolência, a insensatez, mas também a impiedade da alma.” Amy teria preferido muito mais permanecer na ignorância desse tipo de idolatria. A irritação à sua alma vitoriana era nada em comparação ao ultraje contra sua consciência cristã. Enegrecia o sol. Ela se recusou a ficar de olhos fechados. Começou a investigar.

Como antes, Amy se deparou com indiferença e negação insípidas. Mas havia indianos que conheciam e, como ela, deploravam esse tráfico de meninos, semelhante ao de meninas. Muitos eram vendidos ou dados às casas de templos onde se tornavam músicos e professores de dança e poesia para as moças. Outros eram adotados pelos hindus ou muçulmanos, às vezes para atender a propósitos que Amy só pôde descrever como “infames”, significando homossexuais. Outros se tornavam propriedade de sociedades dramáticas conectadas com os templos e aprendiam a atuar em peças que eram “totalmente impuras e destruidoras da alma”.

Ela recebeu um telegrama de Simla instando-a a prover o governo com fatos. Ela fez isso, pedindo que a informação e sua fonte fossem mantidas confidenciais, para que seu próprio trabalho não fosse obstruído pela publicidade. O resultado foi “muita movimentação sincera” tanto entre indianos quanto entre ingleses para acabar com aquela “iniquidade obscura contra a infância”. Por fim, leis foram aprovadas, “graças a Deus, que pelo menos se destinam a ajudar, mas a Índia sabe como evadir-se das leis. […] Por isso, continuamos trabalhando.”

Certa ocasião, um amigo indiano, conhecedor dos caminhos do sub-mundo, levou-a a uma casa que tinha janelas com barras de ferro, varandas e uma porta grossa e trancada. Não era diferente das outras casas na rua, mas ele sabia o que acontecia no interior. Em resposta a baterem à porta, uma mulher velha e feia abriu-a apenas um pouquinho. Depois das apresentações usuais, o indiano perguntou se as crianças estavam bem.

“Quais crianças? Não há nenhuma criança aqui.”

“Os meninos, ó irmã mais velha, os meninos que aprendem aqui.” “Nenhum menino aprende aqui”, e a porta quase fechada.

“Oh! não diga isso, irmã. Eles não aprendem canções?” “Nenhum menino aprende canções aqui.” E a porta foi fechada.

Posteriormente, Amy logrou entrar de imediato numa casa em que os meninos eram ensinados. Uma mulher branca com um vestido europeu e capacete colonial jamais o teria conseguido. Os meninos se aglomeraram ao redor da dama vestida de sári, pegaram em sua mão e imploraram que se sentasse, “amigáveis, amáveis e interessados o suficiente para aproveitarem o máximo dessa bem-vinda interrupção a uma rotina aparente e estritamente imposta”. Depois de 20 minutos iluminadores, a interrupção foi descoberta.

Um homem bravo entrou apressadamente como um turbilhão, mandou os meninos saírem para suas lições e, “muito confuso para falar”, devolveu as mansas saudações de Amy enquanto ela se retirava.

Ela comprou um ingresso para a peça e descobriu que o menino que a havia convidado para a casa era a estrela do show — uma pequena rainha, vestida em manto cor-de-rosa de brilho tremulante e joias de ouro, tocando um instrumento musical, o que exibia com perfeição as delicadas mãos sensíveis. À medida que tocava, girava sua pequena cabeça lentamente de um lado para o outro e a curvava no estilo aprovado de rainhas bonitas.

A multidão, antes ruidosa, silenciou-se de repente, paralisada pela beleza do menino.

Quando Amy falou para suas companheiras de trabalho sobre a triste condição dos meninos, elas mencionaram a impossibilidade de fazer algo a respeito — as mãos de Amy já estavam mais do que cheias. Meninos eram mais difíceis de criar do que meninas. O trabalho com meninos e meninas deveria ser mantido separado na Índia. Onde estavam os homens de que precisavam para ajudá-las? E um médico? Não, era impensável. Por certo Deus levantaria outra pessoa para o trabalho. Ela ouviu educadamente. Não se conformou com esse veredito. Impensável? Não para Deus. E orou, e continuou orando; a face da pequena rainha permaneceu indelével na memória por anos.

Um dia, Amy se ajoelhou perto de uma rocha na floresta. Havia uma piscina tranquila ao lado da rocha, e, no fundo da piscina, folhas encharcadas. Era uma daquelas “figuras do que é verdadeiro”, um sinal visível de uma realidade invisível — vida a partir da morte.

Folhas quebradas, batidas, encharcadas — aquelas que estavam prestes a desaparecer e serem tratadas como nada, com todas as possibilidades acabadas, estavam perto de se tornarem vida para a floresta. “Aprende a obedecer, tu, pó; aprende a humilhar-te, tu, argila e barro.”

Ela pediu a Deus que ou removesse o fardo a respeito dos meninos, ou lhe mostrasse o que fazer quanto a eles.

Presságios que nunca havíamos conhecido quando começáramos a salvar moças nos oprimiam. Agora sabíamos mais do que naquele tempo sobre o caráter intrínseco daquilo com que teríamos de começar a labutar. O fogo provará de que tipo é a obra de cada indivíduo. Estávamos prontos para isso? A nossa reputação eram cinzas para nós? Essa foi a questão curiosa que apareceu repetidas vezes. E se as nossas esperanças ruíssem ao nosso redor como um castelo de cartas feito por crianças?

O problema sobre de onde viriam os homens necessários foi por fim resolvido, de novo na floresta, mas dessa vez não por meio de uma piscina tranquila, e sim de uma cachoeira. Vendo a catarata incessante jorrando de cima, Amy ouviu uma voz do céu, a voz de muitas águas: Posso eu, que faço isto, não fazer aquilo? Espiritualmente, a obra para meninos começou nesse momento.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Amy Carmichael: um legado de renúncia e entrega, de Elisabeth Elliot, Editora Fiel (em breve).

Para ler mais artigos que são trechos deste livro, clique aqui.


Autor: Elisabeth Elliot

Elisabeth Elliot (1926–2015) foi uma das mulheres cristãs mais influentes do século XX. Nascida na Bélgica, filha de missionários, ela inspirou, com sua fé corajosa, seguidoras de Cristo em todo o mundo através de suas experiências como esposa, mãe e missionária. Seu primeiro marido, Jim Elliot (1927–1956), foi morto, com outros quatro missionários, quando buscava dar testemunho de Cristo entre os Auca, atualmente conhecidos como Huaorani, no leste do Equador. Alguns anos depois dessa tragédia, Elisabeth, com sua filha ainda pequena, passou a viver entre os membros dessa mesma tribo, a fim de compartilhar com eles o precioso evangelho. Em seu retorno para os Estados Unidos, Elisabeth deu início ao seu ministério como palestrante e escritora, publicando mais de vinte livros que foram traduzidos para diversas línguas. Seu ministério continua a influenciar gerações de mulheres ao redor do mundo.

Ministério: Ministério Fiel

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.