RESUMO: Este artigo aborda a salvação pela graça a partir do ladrão na cruz, mostrando como Jesus concede perdão sem méritos religiosos. A narrativa pastoral confronta falsas seguranças espirituais, esclarece o fundamento bíblico da justificação e chama leitores ao arrependimento imediato. O foco está na autoridade de Cristo, na suficiência da cruz e na esperança certa do paraíso prometido por ele. Escrito por Alistair Begg, professor de Bíblia no Truth For Life, um programa diário e de fim de semana que leva a exposição das Escrituras a uma audiência global por meio de rádio, podcast e canais digitais populares.
Uma ligação telefônica chegou ao escritório da igreja. Um homem estava solicitando uma visita urgente. Ele estava prestes a ser internado no hospital para uma cirurgia cardíaca e queria conversar com um pastor antes disso. Meu amigo pastor partiu para o apartamento do homem. A porta se abriu para uma cena de completo caos e desordem — pilhas de jornais e revistas, garrafas vazias e cinzeiros transbordando.
O homem, que tinha quase seus 70 anos, afundou em sua poltrona de plástico. Seu corpo mostrava o desgaste de anos difíceis. Suas pernas estavam inchadas e descoloridas; seus cabelos, despenteados; suas roupas, sujas. Ele explicou que, embora tivesse sido criado como cristão, afastou-se de sua fé e passou a vida jogando e bebendo. Porém, as consequências de suas escolhas o alcançaram. Seu coração estava falhando. Esse senhor estava prestes a fazer um transplante de coração na semana seguinte e queria desesperadamente saber se era possível para alguém como ele se reconciliar com Deus depois de ter feito tanta bagunça. Meu amigo pastor abriu sua Bíblia e compartilhou a história de um homem que, em um momento de crise em sua própria vida, tinha perguntas semelhantes. Um homem que também havia feito escolhas ruins e estava colhendo as consequências.
Esse homem em particular tinha entrado em uma vida de crimes sérios. Ele foi condenado à morte por crucificação (uma das punições mais dolorosas já concebidas) e estava pendurado em uma cruz. Perto dele, um segundo criminoso estava sofrendo a mesma punição. E ainda havia um terceiro homem entre eles: Jesus de Nazaré. Acima da cabeça de Jesus, alguém havia pregado uma placa feita à mão: “Este é o Rei dos judeus”.
Soldados e espectadores estavam por perto — alguns gritavam insultos, outros guardavam silêncio. Ali, pendurado em agonia, o segundo criminoso zombou amargamente de Jesus: “Você não é o Messias? Por que não salva a si mesmo — e a nós!”
Todavia, o primeiro criminoso falou calmamente. Suas palavras mal eram mais que um sussurro. “Você não teme a Deus?”, ele disse. “Você e eu merecemos isso. Somos culpados. Mas esse homem não fez nada de errado.”
Virando o rosto o melhor que pôde, disse a Jesus: “Lembre-se de mim quando entrar em seu reino.”
Jesus falou diretamente a ele: “Em verdade, eu lhe digo: hoje você estará comigo no paraíso.”
Eu frequentemente penso naquele ladrão na cruz. Suponhamos que seu nome era Rúben. Estou realmente ansioso pelo dia em que o encontrar no paraíso e lhe perguntar: “Como as coisas acabaram assim para você, Rúben? Você nunca teve tempo de ir a um estudo bíblico. Além disso, você nunca foi batizado. Você não sabia nada sobre ser membro de uma igreja. Mas, ainda assim, Jesus lhe prometeu o paraíso. Você conseguiu! O que aconteceu?”
E eu o imagino entrando hesitante no esplendor do paraíso, ainda atordoado por seus momentos finais na terra. Ele dá um passo incerto. Seus pés não estão mais presos por pregos. Seu corpo agora está inteiro. Sua mente, porém, ainda está se ajustando. Uma figura majestosa se aproxima, com olhos afiados, mas gentis.
“O que você está fazendo aqui?”, o anjo lhe pergunta.
Rúben olha ao redor nervosamente. A confusão toma conta do seu rosto. Seu corpo está tenso e alerta, pronto caso alguém tente agarrá-lo e jogá-lo para fora desse lugar magnífico.
“O que você está fazendo aqui?”, o anjo repete.“Eu… eu não sei,” diz Rúben.
O anjo franze ligeiramente a testa.
“O que você quer dizer com ‘não sei’?”
“Quero dizer… eu não sei.” Sua voz vacila. O que ele pode dizer? Ele não tem nada a oferecer. Nenhuma lista de boas ações, nenhum grande ato de fé.
“Acho melhor chamar o meu supervisor”, diz o anjo. Ele acena para uma figura sênior, cuja presença exala autoridade. “Temos alguém novo”, diz o anjo.
O anjo sênior acena com a cabeça. “Certo, então. É melhor passarmos pela lista de verificação. Primeiro, você tem clareza sobre a doutrina da justificação pela fé?”
O homem coça a cabeça. “Doutrina do quê? Nunca ouvi falar disso na minha vida.”
As asas do anjo se contraem, mas ele permanece paciente. “Não importa.
E quanto ao batismo? Quando e como você foi batizado?”
Rúben se mexe desconfortavelmente. “Eu não fui.”
Há uma pausa. Uma longa pausa. Os anjos trocam olhares. Finalmente, o anjo sênior pergunta: “Então, com base em que você está aqui?”
O rosto de Rúben suaviza, como se recordasse algo maravilhoso demais par ser expresso em palavras. Com voz agora calma e firme, responde: “O homem na cruz do meio disse que eu poderia vir.”
O homem na cruz do meio disse que eu poderia vir.
E esse é o ponto, não é? É a verdade surpreendente que quebrou as expectativas religiosas naquela época — e ainda quebra hoje. Rúben não teve tempo de ir a estudos bíblicos, de ir à igreja, de ser batizado ou de doar dinheiro para a caridade.
Ele não teve tempo de fazer nenhuma das coisas que a maioria das pessoas associa a ser religioso, mas, mesmo assim, Jesus lhe prometeu um lugar no paraíso.
Sem testes teológicos. Sem conquistas religiosas, pois o paraíso não é adquirido.
Trata-se de um presente. É pura graça do começo ao fim — sem filtros, imerecida, dada livremente.
O outro criminoso era bem parecido com muitas pessoas hoje:
“Se você me tirar do meu dilema, acreditarei em você. Faça algo por mim, Jesus. Eu mereço. Não sou uma pessoa má.”
Que contraste com o pedido humilde do outro criminoso: “Lembre-se de mim, Jesus.”
Há um antigo hino cristão chamado “Rocha Eterna” que expressa isso bem:
Nada em minhas mãos eu trago;
Só à tua cruz me agarro.
Nu me achego a ti, Senhor;
Veste-me com graça e amor.[i]
O primeiro criminoso sabia que não tinha nada a oferecer. Sabia que não merecia nada. Foi com base nisso que fez seu pedido a Jesus. De alguma forma, ele reconheceu a veracidade das palavras que haviam sido zombeteiramente pregadas acima da cabeça de Jesus: “Este é o Rei dos judeus”. Ele sabia que um rei teria um reino. Percebeu que Jesus tinha a autoridade para lhe prometer um lugar no paraíso.
Mas como isso pode ser possível? Por que Jesus tem o direito de decidir quem ganha um lugar no paraíso? No coração da fé cristã, está esta troca incrível: Jesus, o Filho de Deus sem pecado, tomou o castigo que merecemos para que recebêssemos o perdão que nunca poderíamos ganhar. Outra grande escritora de hinos coloca isso da seguinte forma:
O Salvador que não pecou
Me libertou do meu pecado.
O justo Deus pra Cristo olhou;
Fui plenamente perdoado.[ii]
Talvez você já tenha ouvido esta pergunta clássica antes: “Suponha que você morra esta noite, fique diante de Deus e ele lhe diga: ‘Por que eu deveria deixá-lo entrar no meu paraíso?’. O que você diria?”
Se você ou eu respondermos a essa pergunta na primeira pessoa — “porque eu…” —, já começamos errado. “Porque eu acreditei, porque eu tenho fé, porque eu fiz uma oração, porque eu sou uma boa pessoa, porque eu sou isso, porque eu fiz aquilo…”. A única resposta correta é na terceira pessoa. “Porque ele…”. “Porque Jesus…”. “Porque ele disse que eu poderia vir. O homem na cruz do meio disse que eu poderia vir. Ele morreu na cruz em meu lugar.”
Muitos de nós gostamos de pensar que nos voltaremos para Deus em nosso leito de morte, caso ainda não o tenhamos feito. Isso nos dará a oportunidade de nos divertirmos agora e nos arrependermos depois — no último segundo, conforme a nossa conveniência. De fato, um arrependimento no leito de morte foi exatamente o que aconteceu com aquele homem que acabei de mencionar, que estava ansioso e prestes a ser submetido a uma cirurgia cardíaca.
Logo após meu amigo pastor sair, o homem ecoou as palavras do criminoso que estava pendurado em uma cruz ao lado de Jesus e orou: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu paraíso.” Foi realmente uma oração de última hora: ele morreu na mesa de operação, durante a cirurgia.
Mas ele deu aquele passo vital — um passo que moldaria sua eternidade. Ele disse a Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino.”
Nenhum de nós, porém, pode garantir que teremos o tempo ou a clareza de mente para, como aquele homem, tomarmos uma decisão de última hora. O melhor momento para dar esse passo é agora.
Então, quando você estiver diante de Deus no fim da sua vida, qual será sua resposta quando lhe perguntarem por que deveriam deixar você entrar no paraíso?
Você listará suas próprias conquistas, esperando que sejam suficientes?
Porque eu…
Ou você simplesmente dirá: “O homem na cruz do meio disse que eu poderia vir”?
O pintor francês Paul Gauguin foi um grande artista, ainda que sua reputação tenha sido tristemente manchada por sua vida pessoal. Sua maior pintura está em exibição no Museu de Belas Artes de Boston, no estado norte-americano de Massachusetts. De forma bastante incomum para suas obras, ele escreveu três perguntas em um canto:
De onde viemos?
O que somos?
Para onde vamos?
Gauguin não tinha uma resposta para essas perguntas. Mas nós temos condições de respondê-las. O homem na cruz do meio nos dá a resposta. Jesus nos dá perdão. Jesus nos dá esperança, significado e a promessa de vida com ele para sempre.

Este artigo é um trecho adaptado do livro O Homem na cruz do meio, de Alistair Begg, em breve pela Editora Fiel.
[i] Augustus Montague Toplady, “Rock of Ages” (1776), tradução livre.
[ii] Charitie Lees Bancroft, “Before the Throne of God Above” (1863), tradução livre.
