quarta-feira, 24 de abril

Por que o trabalho se tornou algo tão frustrante?

Os efeitos da Queda no trabalho

Sabemos que a narrativa bíblica está apenas começando quando, já no terceiro capítulo, o primeiro casal, criado para refletir o Criador, escolhe rivalizar com ele:

Ora, a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu (Gn 3.1-6).

O pecado entrou no mundo a partir desse trágico acontecimento e, desde então, nada mais funcionou como deveria. Nossa relação com Deus foi quebrada e nos tornamos incapazes de refletir a sua imagem, da forma que deveríamos fazer. A imagem de Deus em Adão e Eva — a imagem de justiça, santidade e conhecimento — foi manchada de tal modo que eles se tornaram corrompidos, imundos e tolos. Eles ainda carregavam a imagem de Deus, mas essa imagem tornara-se distorcida.1 Nossa relação com o outro foi manchada, pois agora o alvo de refletirmos um Deus amoroso, justo, paciente e compassivo não é mais atingível. Voltamo-nos aos nossos próprios interesses, totalmente incapazes de amar da forma que convém. Nossa relação com a criação também foi deturpada, e o trabalho agora passa a ser vivenciado de forma corrompida e manchada, para homens e mulheres. E o que era para ser prazeroso e frutífero tem-se tornado árduo e cansativo.

Quando perguntamos a um grupo de mulheres brasileiras, todas cristãs, sobre seus trabalhos dentro e fora do lar, como citamos no capítulo inicial deste livro, menos da metade (48,43%) respondeu que está satisfeita com a forma que trabalha hoje.

Quando perguntamos o que elas mudariam, as respostas mais frequentes foram: mudariam de emprego, reduziriam o turno de trabalho e buscariam alternativas de muita coisa. No Brasil, os turnos de trabalho não favorecem as mulheres. Muitas trabalham distante dos seus lares e ficam arrasadas de não ter tanto tempo com seus filhos, maridos ou pais. Outras sentem que não atingiram seu potencial em seu ofício atual. Outras ainda trabalham em áreas tão distantes daquilo para o qual se especializaram que isso as deixa constantemente frustradas.

E por que tudo isso acontece? Por que o trabalho se tornou algo tão frustrante, com tanta frequência?

Enquanto a humanidade procura respostas olhando para si mesma, ou buscando em si mesma alguma solução que possa resolver esse problema, o cristão que tem a Bíblia como autoridade não deveria titubear na resposta: isso tudo acontece e nos aflige hoje porque vivemos em um mundo caído e manchado pelo pecado.

A queda da humanidade, quando o pecado entrou no mundo, trouxe três grandes problemas com os quais convivemos até hoje. E todas nós, em alguma medida, lutamos com esses problemas.

Antes da Queda, havia um relacionamento perfeito entre Deus e o casal, Adão e Eva. Havia também perfeição no relacionamento entre Adão e Eva. Tudo era perfeito, o trabalho era perfeito e não havia intriga nos relacionamentos. No entanto, com a Queda, vemos em Eva, a primeira mulher e nossa representante, a evidência de três grandes pecados. Dois deles são a causa de sua desobediência: orgulho e egoísmo. E o terceiro é uma consequência devastadora: medo (que caminha abraçado com a culpa).

Vamos falar um pouco sobre um desses pecados, o orgulho.

Orgulho

Vejamos Gênesis 3.6:

Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.

Esse curto versículo nos evidencia o orgulho de Eva. Observe que Eva quis decidir seu próprio destino! Ela mostrou orgulho clara- mente quando quis ser “dona do seu próprio nariz”.

Eu, Claudia, falo para as mães da minha igreja que a primeira coisa que elas vão observar em seus filhos e filhas pequenos é o desejo de autonomia. Desde bebês, as crianças querem tomar suas próprias decisões. Quando damos uma ordem a um bebê de 11 meses: “Não coloque o dedo na tomada”, ele vai rapidamente em direção à tomada, e ainda se volta para a mãe com um olhar desafiador enquanto, lentamente, vai direcionando seus dedinhos gorduchos ao buraquinho tentador da tomada. Como pode? Acabamos de dar a ordem para que isso não fosse feito!

O coraçãozinho rebelde dos nossos pequenos, mesmo antes de saberem expressar suas falas, mostra desejo por autonomia! Eles têm orgulho, fruto do pecado, e acham que a ideia deles é bem melhor que a nossa.

Nós somos como bebês ousados, e vivemos com o desejo de controlar nosso próprio futuro e nossas próprias decisões. Eva viu que a árvore era boa e bonita, e que dava entendimento!!! Deus dera a ordem clara de que ela não poderia comer daquele fruto (Gn 2.16), mas a ideia dela “era melhor do que a de Deus”.

Orgulho é isto: a percepção de ser digno e honrado, e de achar que você tem as ideias mais brilhantes. Nenhuma de nós escapa, em alguma medida, do orgulho e da ousadia de achar que sabe o que é melhor para o futuro.

Perceba outra demonstração clara do orgulho de Eva, alguns versículos após, em Gênesis 3.12-13:

Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi. Disse o Senhor Deus à mulher: Que é isso que fizeste? Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.

Toda mulher, ao ler Gênesis, já se lembrou de, durante uma briga com a mãe, o marido ou os filhos, apontar o dedo para o indivíduo que é alvo de sua insatisfação e acusá-lo de algum pecado. Em seguida, passa em sua cabeça: “Eu jamais faria isso!”. Todas nós, em alguma medida, já nos sentimos mais honradas ou mais justas do que alguém que fez algo terrível aos nossos olhos. E também já apontamos o dedo com um senso de autojustiça.

Que seria autojustiça? Auto vem “de si mesmo” e justiça significa retidão, limpeza de caráter. Esse termo, muito falado em aconselhamento, diz respeito a orgulho, diz respeito a você achar que, de alguma forma, é um pouquinho melhor do que outra pessoa, achar que você nunca cometeria o mesmo erro que ela.

Nesse texto de Gênesis 3.12-13, Adão fala para Deus que não foi ele o culpado por seu pecado. Foi ela… como se dissesse: “Eu? Imagina? Eu não seria capaz disso! Foi ela! A mulher que tu me deste!”. Em última instância, o orgulho de Adão é tão grande que ele culpa Deus por seu pecado. “Foi a mulher que TU me deste!”, como se dissesse: “Eu jamais faria isso!”. Quanta afronta! E Eva faz o mesmo, como se dissesse: “Não fui eu! Imagina se, por mim mesma, tão santa e tão pura, eu faria isso! Foi tudo culpa da serpente! Aquele animal que o Senhor criou!”.

É claro que essas paráfrases são minhas (Claudia), mas dá para perceber no texto que eles não assumiram o pecado diante de Deus por orgulho, por um senso de autojustiça, além do medo que os afligia.

Também vemos claramente o orgulho de Eva quando ela inverteu a liderança familiar estabelecida por Deus e tomou decisões como essa em favor de sua família: Eva decidiu quebrar a lei de Deus e dar o fruto ao seu marido. Ela sabia que estava desobedecendo e, com seu orgulho, tomou a decisão por sua família. Eva foi a “cabeça” do seu lar para o pecado. Uma líder que levou sua família para longe de Deus.

Nós compartilhamos do orgulho de Eva, sim… lutamos com esse problema grave todos os dias. Na briga com os familiares, achamos que somos mais dignas ou justas e, no trabalho fora do lar, achamos que ninguém valoriza nosso maravilhoso empenho ou nossa performance. Costumo ver mulheres cristãs que competem com colegas no trabalho e querem sempre ser as melhores em tudo!

Mas, Claudia, não devemos tentar ser as melhores profissionais em nosso trabalho?

Como mulheres cristãs que somos, fazer o melhor, com o maior empenho possível, significa sermos mais parecidas com nosso Criador.

Afinal, nós somos a imagem de Deus, que coloca seu coração nas cria- turas. Tudo o que ele faz é bom! Todas as suas ações de trabalho para com a criação são de exímia excelência. Sem dúvida, nós temos de tentar trabalhar como ele!

A diferença é que, em geral, trabalhamos dando tudo de nós por motivos de orgulho. Queremos que os outros vejam e louvem nosso trabalho. Deus trabalha para que sua criação desfrute seu trabalho. Deus transborda em amor. Nós queremos ser inundadas de elogios. Deus trabalha e nós vemos seu movimento de amor e serviço em direção às outras pessoas (suas criaturas). Com frequência, trabalhamos com o desejo de que o amor e o prestígio sejam direcionados a nós mesmas. Percebe a diferença?

Então, sim! O crente precisa fazer seu melhor em tudo, mas deve agir assim para que vejam quão incrível é o Deus desse crente, por meio do seu trabalho. Não é sobre nosso ego inflado; é sobre servir sem vaidade.

Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento. Aquilo que é torto não se pode endireitar; e o que falta não se pode calcular. Disse comigo: eis que me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que antes de mim existiram em Jerusalém; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento. Apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a saber o que é loucura e o que é estultícia; e vim a saber que também isto é correr atrás do vento (Ec 1.14-17).

Se o orgulho é sua motivação para fazer o melhor, seu trabalho perde o valor. Ele se tornou algo que serve a você.

Na história da torre de Babel foi assim: eles desejavam fazer para si um nome, elevar a própria imagem, e não agir como imagem de Deus (Gn 11.4).

O orgulho traz inveja, disputa e mau relacionamento com os colegas. Por mais que nos envergonhemos de dizer, o orgulho nos leva a desejar fazer o melhor para que nossa imagem seja vista, e não a glória de Deus. E, nesse processo, somos capazes de diminuir o feito ou as habilidades da outra pessoa.

Oito por cento das mulheres que entrevistamos confessaram lidar com a inveja em seus trabalhos, mas nós cremos que essa porcentagem é bem maior do que reconhecemos. Um dos pecados mais evidentes nas histórias bíblicas é a inveja. Começa por Caim (Gn 4.5- 11), depois, os irmãos de José (Gn 37.4-11) e o rei Saul (1Sm 18.7- 12), em todos esses casos vemos exemplos da inveja que chegou ao extremo. Raquel invejou tanto sua irmã que pediu a seu marido que lhe desse filhos; caso contrário, morreria (Gn 30.1)!

Quando lemos Números 11, lembramos como o povo de Israel reclamava, já que eles não tinham mais as iguarias do Egito. Reclamavam e reclamavam no ouvido de Moisés. Esse homem fadigado, então, pede socorro ao Senhor, que designa anciões para ajudá-lo na tarefa de conduzir o povo “reclamão”. Deus mandou as codornizes e depois puniu os que tanto desejavam, com saudade, as comidas egípcias.

Nesse contexto, a Bíblia também fala da inveja de Arão e Miriã, irmãos de Moisés. Vemos os dois irmãos falando mal de Moisés por causa da mulher com quem ele se casara, por ela não ser do povo deles. Ela era da linhagem de Ismael, portanto era, sim, descendente de Abraão. Após falarem mal de seu casamento, ambos falam contra Moisés, com clara inveja.

E disseram: Porventura, tem falado o Senhor somente por Moisés? Não tem falado também por nós? O Senhor o ouviu (Nm 12.2).

Miriã foi enviada por Deus, junto com seus irmãos (Mq 6.4). Nós a vemos liderando mulheres em louvor a Deus (ÊX 15.20-21). Ela deveria servir em amor ao seu povo, para que obedecessem ao Deus verdadeiro e o adorassem. Deus lhe deu um trabalho importante, mas o orgulho tomou conta dela. Não só ela se queixa da lide- rança do irmão — pois queria, como ele, ser uma líder reconhecida por todos —, como também faz questão de colocar o irmão “para baixo”. Ela fala mal de seu casamento e o critica (com o propósito de se colocar acima dele), em seu ofício.

Facilmente, nós, mulheres cristãs, agimos como Miriã, não só no trabalho remunerado, mas também nas atividades da igreja. Colocando “para baixo” o esforço de uma irmã, para que nosso belo trabalho seja visto por outras pessoas. Não à toa as maiores críticas direcionadas às mulheres cristãs quanto a seus respectivos ofícios são feitas pelas irmãs da igreja (o que, inclusive, está evidenciado em nossa pesquisa). Como se alguém pudesse ser elevado ao diminuir outro alguém! Triste verdade.

Isso mostra que tanto Miriã como nós esquecemos a razão pela qual fomos chamadas. Esquecemos que o nome de Deus — e só de Deus — deve ser adorado por nosso empenho. E esquecemos que devemos direcionar nossos trabalhos para abençoar outras mulheres, nunca para derrubá-las.



Autor: Naná Castillo e Claudia Lotti

Naná Castilho é casada com Luiz Castilho, mãe da Ester e do João, e a família congrega na Igreja Batista Maranata, em São José dos Campos (SP). Ela é enfermeira, doutora em Ciências e professora livre-docente em saúde da criança. É a criadora do ministério Filipenses Quatro Oito. Cláudia Lotti é casada com Rinaldo Lotti Filho, mãe do Henrique, da Rachel e do Benjamin. Ela é neurologista, mestre em Neurociências e professora. Pós-graduanda em Educação Cristã, ela dá aula de EBD e aconselha mulheres na Igreja Presbiteriana Paulistana (SP).

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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