segunda-feira, 2 de março

Por que um Deus-homem?

A necessidade da encarnação para a salvação

Às vezes, as perguntas de outras pessoas nos ajudam a entender melhor aquilo em que acreditamos. No século 11, um arcebispo chamado Anselmo (1033–1109) ficou intrigado com uma questão levantada pelos judeus: por que era necessário que Deus se tornasse homem?

Alguns cristãos ensinavam que o diabo, depois do primeiro pecado de Adão, tornara-se o dono de todas as almas humanas, de sorte que Jesus teria morrido para recuperá-las das mãos do maligno. Isso realmente não respondia às perguntas dos judeus. Será que Deus, sendo onipotente, não poderia ter salvado o seu povo de outra maneira? Os judeus acreditavam que Deus enviaria um salvador, um Messias, mas o fato de Deus realmente assumir um corpo humano era visto como uma desonra desnecessária, diminuindo a majestade e a glória de Deus.

Até então, a maioria dos cristãos respondia de modo afirmativo — sim, Deus poderia ter feito as coisas de forma diferente, mas ele simplesmente escolheu esse caminho. Anselmo, no entanto, não acreditava que o diabo fosse dono da alma de alguém ou que Deus devesse alguma coisa ao diabo. Na realidade, explicou Anselmo, o pecado cria um problema tanto para o ser humano quanto para Deus. Deus não pode perdoar a humanidade sem algum pagamento, pois  o mal deve sempre ser punido, e o ser humano não tem a capacidade de pagar pelos seus pecados. Mesmo que um pagamento fosse possível, assim que as pessoas pagassem por um pecado, cometeriam outro.

Além disso, mesmo os pecados que consideramos pequenos constituem uma terrível rebelião contra Deus e uma ofensa à sua honra. Essa era uma ideia com a qual as pessoas da época podiam se identificar facilmente, já que uma rebelião contra um rei era sempre uma afronta à sua honra.

Apenas uma pessoa poderia salvar a humanidade desse terrível problema: alguém que fosse totalmente Deus — ou seja, que pudesse viver uma vida perfeita e sofrer o terrível castigo que nenhum ser humano seria capaz de suportar — e, ao mesmo tempo, totalmente humano, uma vez que o homem pecou e deve pagar pelo seu pecado. 

Esta imagem de Anselmo entregando seu livro de meditações e orações a Matilde de Canossa foi originalmente pintada durante sua vida. Isso não significa que seja precisa, pois pode ser que o artista nunca tenha conhecido a condessa ou Anselmo.

Anselmo escreveu sua resposta como uma conversa entre ele e um monge chamado Boso e a intitulou como Cur Deus Homo, cuja tradução literal é “Por que um Deus-Homem?”. Com o tempo, a igreja ocidental adotou a explicação de Anselmo como resposta oficial à razão pela qual Deus se tornou homem. Credos posteriores acrescentaram que Deus não tem de punir o pecado apenas por ofender a sua honra, mas também porque, sem a punição do mal, ele não seria justo.

Nem todos concordaram com Anselmo. Alguns cristãos preferiram a história de que as almas eram de propriedade do diabo. Um estudioso francês chamado Pedro Abelardo (1079–1142) fez uma sugestão diferente: Jesus morreu para nos mostrar o amor de Deus e nos dar um exemplo a seguir. Essa perspectiva criou outros problemas. Um monge francês chamado Bernardo de Claraval (1090–1153) explicou que não seria amoroso da parte de Deus crucificar seu Filho apenas para nos dar um exemplo de amor.

Se só Deus pode fazer esta satisfação [pelo pecado] e só um homem pode oferecê-la, é necessário que um Deus-homem a faça.

A posição de Anselmo sobre as cruzadas

“Aconselho-te, exorto-te, peço-te e suplico-te, como alguém que me é querido, que abandones aquela Jerusalém que agora não é uma visão de paz, mas de tribulação; que deixes de lado os tesouros de Constantinopla e de Babilônia, apropriados por mãos encharcadas de sangue; e que sigas o caminho para a Jerusalém celestial, cuja visão é de paz, onde encontrarás tesouros que somente aqueles que desprezam estes [tesouros terrestres] podem receber”.

Pense nisto

• Embora Jesus certamente nos tenha dado um exemplo de amor sacrificial, por que seria uma má notícia se ele viesse apenas por esse motivo? Você acha que poderíamos realmente igualar seu exemplo? Justifique sua resposta.

• Bernardo de Claraval estava certo ou errado? Por quê? Deus seria amoroso se quisesse que seu Filho fosse crucificado apenas para nos dar um exemplo de amor? Justifique sua resposta.

• A solução de Deus para o problema da rebelião humana é tão surpreendente que alguns se tornaram cristãos apenas por não conseguirem ver como essa solução poderia ter sido inventada por um ser humano. O que você acha? Você consegue ver alguma outra maneira de Deus ser perfeitamente justo e amoroso nesse assunto? Veja Romanos 3.23; 5.12; 1 Coríntios 15.21-22; Hebreus 2.9.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro História da Igreja, de Simonetta Carr, que será lançado em breve pela Editora Fiel.


Autor: Simonetta Carr

A premiada autora Simonetta Carr nasceu na Itália e viveu e trabalhou em diferentes culturas. Ex-professora do ensino fundamental, ela é mãe que educa seus filhos em casa há muitos anos. Como escritora, ela contribuiu para jornais e revistas do mundo todo e traduziu obras de diversos autores cristãos para o italiano. Atualmente, vive em San Diego com o marido, Thomas, e dois de seus oito filhos. Além de escrever e traduzir, ela ensina italiano como segunda língua. Ela é membro da Christ United Reformed Church e colaboradora assídua da revista Modern Reformation . Também escreve uma coluna regular, "Cloud of Witnesses" , para o site Place for Truth (parte da Alliance of Confessing Evangelicals) e dirige o podcast Kids Talk Church History . Simonetta já palestrou em igrejas, escolas e outros locais nos Estados Unidos, Canadá, Indonésia e Itália. Os temas de suas palestras incluem o ensino da história da igreja para crianças, saúde mental e a igreja, e questões relevantes levantadas por mulheres na história da igreja.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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