domingo, 14 de agosto

Predestinação e ações humanas

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A lenda de Édipo é frequentemente considerada um clássico exemplo de fatalismo grego. Atribulado por dúvidas sobre sua filiação, o protagonista consulta um oráculo que declara que ele está destinado a assassinar seu pai e se casar com sua mãe. Apesar de Édipo repudiar a terrível profecia, os eventos conspiram cruelmente para que ela se cumpra. Todos seus esforços para escapar de seu destino se provaram inúteis.

As doutrinas reformadas e calvinistas da providência e da predestinação são frequentemente acusadas de serem fatalistas. No entanto, essa caracterização se fundamenta em algumas confusões profundas. O calvinismo de fato afirma que todos os eventos na criação são preordenados por Deus. Como a Confissão de Fé de Westminster coloca, “desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece” (3.1). No entanto, a confissão imediatamente acrescenta que essa preordenação divina não torna sem sentido a vontade das criaturas de Deus. Pelo contrário, Deus normalmente opera seus propósitos eternos através de causas secundárias tais como agentes humanos e processos naturais. Exemplos bíblicos de Deus ordenando ações humanas para seus próprios desígnios incluem a história de José (Gn 45.5–8; 50.20), a conquista do reino de Israel pela Assíria (Is 10.5–11), e a crucificação do Senhor Jesus (At 4.27–28).

Como, então, o calvinismo difere do fatalismo? Os calvinistas não deveriam admitir que Judas estava fadado a trair Jesus (João 17.12; Atos 1.16), assim como Édipo estava fadado a assassinar seu pai? Primeiro, devemos notar que, como entendida pelos antigos, fatalidade é uma força ou princípio impessoal que se aplicava igualmente a homens e deuses. Assim como os gregos falharam em reconhecer um Criador transcendente e pessoal, também lhes faltou qualquer noção de um Deus soberano que ordena todas as coisas “para os seus próprios e santos desígnios” (CFW cap. V, IV). Para o pagão fatalista, não há mão divina da providência, nenhum plano abrangente de Deus. Não há explicação lógica para os resultados fatídicos; o universo é um teatro de absurdos e tragédia. Compare isso com a cosmovisão bíblica, de acordo com a qual Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11) e que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Uma segunda grande diferença entre calvinismo e fatalismo já foi mencionada. O Calvinismo defende que Deus determina não apenas os fins — os resultados finais dos acontecimentos —, mas também os meios para esses fins. Em outras palavras, na providência de Deus, os meios são coordenados com os fins de tal forma que os fins dependem dos meios. Portanto, Deus não meramente ordenou que José, em autoridade, só fosse menor que o Faraó; ele ordenou que toda uma série de acontecimentos culminassem nesse resultado, incluindo as ações pecaminosas dos irmãos de José. Não devemos achar que Deus planejou que José se tornasse tão importante para o Faraó independentemente de como seus irmãos o trataram.

Fatalismo, por outro lado, tende a desconectar os fins dos meios, implicando que nossas vidas serão de uma certa forma, não importa o que façamos. Uma ilustração contemporânea é fornecida por uma série recente de filmes nos quais um grupo de pessoas inicialmente engana a Morte, mas a fuga deles sempre acaba sendo de curta duração. O Ceifador eventualmente alcança cada um deles, apesar das tentativas de evitar a foice. O fatalismo sugere que nossas ações são verdadeiramente inúteis; elas não implicam diferença prática para o resultado. No entanto, essa ideia é inteiramente estranha à doutrina reformada da providência. Nosso futuro certamente depende das escolhas que fazemos nessa vida. Não há contradição em afirmar que nosso futuro depende de nossas escolhas e que Deus soberanamente ordena todas as coisas, incluindo o futuro e as escolhas que levaram a ele. Sim, Deus preordena as ações de suas criaturas, mas ele também preordena que as ações delas tenham consequências significativas.

Uma ilustração esportiva pode ajudar a tornar esse ponto mais claro. Imagine que você está jogando golfe com um amigo chamado João, que tem o hábito de misturar calvinismo e fatalismo. No quinto buraco, você dá uma bela tacada que atravessa todo o campo. A bola cai bem próximo do buraco e, triunfante, rola para dentro: no buraco com uma tacada!

Em vez de te parabenizar, João esboça um sorriso amarelo. “Você é um calvinista, não é?”. “Isso mesmo,” você responde, querendo saber onde ele quer chegar. “Então você acredita que Deus preordenou todas as coisas desde a eternidade, incluindo essa tacada. Bem, se Deus a preordenou, não interessa de verdade como você bate na bola. Estava predestinado a terminar dentro do buraco de qualquer forma.”

João não é tão sábio quanto pensa. Pelo seu raciocínio confuso, a bola teria entrado no buraco mesmo se você não tivesse sequer batido nela. Mas isso é claramente absurdo. O sucesso da tacada dependia da sua batida na bola — e em bater bem. Um calvinista consistente dirá que Deus preordenou não apenas o sucesso da tacada, como também que ele aconteceria como resultado da precisão da sua tacada. A intenção dele fez a diferença.

Isso não é minuciosidade filosófica. A distinção entre calvinismo e fatalismo tem enormes implicações significativas para a vida cristã. Significa que nossas orações realmente fazem diferença, pois Deus ordenou que acontecimentos futuros aconteçam em resposta a nossas orações. Significa que o evangelismo é essencial, pois Deus decretou que seus eleitos serão salvos por ouvir e crer no evangelho. Significa que devemos ser diligentes para confirmar nosso chamado e nossa eleição (2 Pedro 1.10), pois, apesar de o Pastor não perder nenhuma de suas ovelhas, as ovelhas serão finalmente salvas apenas se perseverarem na fé até o fim.

Ao entender que Deus ordena tanto os meios como os fins, calvinistas podem verdadeiramente dizer: “Se não tivéssemos orado, não teria acontecido; se não tivéssemos compartilhado o evangelho, pessoas não teriam o escutado; se não nos mantivermos firmes na fé, não iremos receber a coroa da vida.” No entanto, ao mesmo tempo, calvinistas darão crédito irrevogável por tudo isso à graça soberana de Deus.

Publicado originalmente em Ligonier Ministries.

Tradução: Alex Motta. Revisão: Renan A. Monteiro.


Autor: James Anderson

Dr. James Anderson é professor assistente de teologia e filosofia no Reformed Theological Seminary em Charlotte, Carolina do Norte, EUA. Ele é o autor de What’s Your Worldview?: An Interactive Approach to Life’s Big Questions [sem tradução em português].

Parceiro: Ministério Ligonier

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