quinta-feira, 3 de abril
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Quando uma família e igreja se únem em prol de um não-convertido

A luta de um pai pela conversão de sua filha

Ângelo se colocou de pé, limpou os olhos e parecia que iria dizer algo. Em vez disso, ele andou até a porta da frente, ficou sozinho por alguns minutos na varanda, tendo momentaneamente deixado o café da manhã de despedida para Barbara e ele. Nós estávamos também homenageando Barbara por ter recebido uma bolsa para trabalhar no seu PhD em Stanford. Nossa sala de estar estava lotada de amigos, parentes e líderes da New Life Church.

Por que Ângelo havia saído? Tinha algo a ver com um presente que eles haviam acabado de receber.

Pouco tempo antes dessa celebração, soubemos que Barb precisava de mais 500 dólares para a mudança para o outro lado do país, em Palo Alto, e ela simplesmente não tinha. Nem Ângelo. Eles estavam sentindo o aperto. O que fariam?

Como resultado, Pat House, um dos nossos diáconos, havia preenchido a lacuna. “Por que não fazer uma vaquinha?”, perguntou ele. Para começar, ele fez uma contribuição, como também vários dos presbíteros da igreja, bem como Ângelo e Mary Juliani, pais do Ângelo. O presente ultrapassou os 500 dólares.

Eu havia acabado de entregar o envelope com o dinheiro para Barbara. Levou um tempinho para que ela o abrisse. Ela parecia não ter qualquer ideia do que estava por vir. Quando ela viu, não sabia o que dizer. Ângelo ficou tão impressionado pelo amor que motivou o presente que ele simplesmente se sentou em nosso sofá — impressionado. Ele estava tão chocado que precisou sair da sala para se recompor.

Esse foi um momento especialmente feliz para Barbara. Tanto a reunião quanto o presente foram nossa maneira de homenageá-la pelo trabalho duro que a havia trazido até esse ponto. Sua realização era impressionante. No ensino médio, ela era talentosa, mas ficava satisfeita apenas em passar de ano. No Dickinson College, ela não fora uma aluna excelente. Mas agora ela havia alcançado sucesso notável: trabalhava quase em tempo integral em um emprego exigente, enquanto estudava em tempo integral na Temple, e se formou com altas distinções. Em seguida, foi aceita em escolas de pós-graduação de várias das principais universidades no país.

Em resposta, Barbara simplesmente disse com prazer: “Estou maravilhada”.

Mais tarde, Ângelo disse a ela: “Nunca ouvi falar de uma igreja com esse tipo de amor. Fiquei chocado. Foi por isso que eu nem consegui ficar na sala”.

Aquela noite foi repleta de gratidão a Deus. Eu sabia que ele havia motivado os cristãos em nossa igreja a ter esse tipo de interesse por Barbara. Eu senti que nossa “ofensiva do amor” estava chegando à sua fase final, porque agora não era mais amor proveniente só de nós. Dick Kaufmann, na época um presbítero ativo na New Life Church e agora pastor na Califórnia, e sua esposa, Liz, haviam demonstrado interesse especial por Barbara. Eles a visitaram, foram apresentados a Ângelo e procuraram ser amigos dela.

Dick havia assumido a liderança na organização da vaquinha. E cada presbítero e respectiva esposa que estava lá naquela manhã haviam demonstrado interesse genuíno em Barbara e em Ângelo. Tal espírito de bondade havia tocado os dois profundamente. Eu fiquei emocionado também e sabia que Barbara e Ângelo tinham alguma percepção de que o amor de Cristo os estava alcançando por nosso intermédio. Suas barreiras e preconceitos contra os cristãos e a igreja estavam caindo — com estrondo!

Em nosso encontro na ponte em Melrose Park dois anos antes, Barbara disse que queria que eu a amasse incondicionalmente. Ela estava experimentando esse amor agora — de mim e de muitos outros. Barbara e Ângelo suspeitavam de que nosso cuidado não vinha de nosso próprio poder ou bondade, mas de Jesus, o Rei, que nos havia ensinado como amar outros por meio de seu amor incondicional. O amor desta manhã foi um sinal visível da graça do Pai. Saber que o Pai estava agora buscando Barbara e Ângelo, da mesma forma como certa vez buscou a mim e a muitos outros cristãos, me deu grande paz. Deus sempre estivera no encalço deles, mas agora estava notavelmente evidente que ele era o Grande Perseguidor deles. Usando o imaginário do poema de Francis Thompson, O cão de caça do céu, você agora podia ouvir “o compasso” dos pés perseguidores que chegavam mais perto ainda.

Mesmo assim, eu estava agitado. Eu estava satisfeito por nós, como líderes da igreja e família, termos demonstrado nosso amor por Barbara e Ângelo. Porém, algo estava faltando. Por que eu sentia que a última batalha ainda não fora travada, que ela ainda estava por vir? O que ainda faltava?

Depois daquela celebração no café da manhã, eu sabia que havia algo doloroso que Cristo queria que eu fizesse. Uma vez que tantas orações haviam sido feitas por Barbara e por nós, eu tinha confiança de que Cristo me guardaria da minha inclinação natural de agir por minha vontade própria. Assim, quando um pensamento específico surgiu em minha mente, tive certeza de que o próximo passo estava sendo revelado a mim por Cristo.

Era um pensamento amedrontador — o fato de que Barbara ainda estava perdida. Três anos antes, havia ficado claro para ela mesma e a todos em geral que ela estava perdida; moralmente e espiritualmente, era como se Barbara estivesse dirigindo seu Jaguar verde em alta velocidade, na pista expressa, sem qualquer freio. Mas agora ela era uma alma moderada e disciplinada. A ordem tocava cada parte da vida dela. Ela e Ângelo até se casariam em breve! Parecia que o pródigo havia voltado ao lar.

Mas, a reforma moral — e responsabilidade social — é o mesmo que retornar ao lar do Pai? Obviamente, não. Barbara ainda estava perdida, e sem Cristo ela iria para o inferno para sempre. Essa convicção veio a mim como uma compulsão quase irresistível. Eu sabia que, como seu pai, eu poderia ajudá-la a ver que mudar de proscrita para membro social ainda deixava sua vida em risco mortal. Mas, como eu falaria a ela sobre minha preocupação? Como eu a alcançaria?

Essa preocupação, na verdade, não me atingiu do nada. Ela tinha raízes mais profundas. Por algum tempo antes da ocasião do café da manhã de celebração, eu estava orando por um amigo cristão. Seu irmão não convertido havia entrado em coma e, até onde se sabia, havia morrido sem conhecer a Cristo. Esse amigo cristão e eu compartilhamos dessa tristeza juntos. O que tudo aquilo significava? Era possível se tornar um cristão em coma? Ou, citando um amigo cristão: “Eu levarei meu irmão comigo para o céu apenas como uma linda lembrança?”.

Nós estávamos profundamente tristes com esse pensamento e expressamos nossa esperança de que, de alguma maneira, Cristo houvesse alcançado o irmão dele de um modo que ninguém sabia. Mas suas palavras me assombravam enquanto eu pensava sobre a minha própria situação. Apesar de tudo, isso seria o fim de Barbara também? Esses pensamentos me fizeram estremecer. Que tragédia isso seria!

Se meu amor era genuíno, era para eu estar disposto a confrontá-la com essa questão vital. Seria doloroso, e ela poderia ficar irada e magoada. Mas concluí que, se Cristo estava trabalhando na vida dela, então sua reação inicial passaria. Se ele não estivesse trabalhando na vida dela, então não havia nada que eu pudesse fazer, de qualquer maneira. Entretanto, eu estava convencido de que ele a estava buscando e que agora o cão de caça do céu morderia nós dois. Minha fé era que, por intermédio da dor de tal encontro, Cristo revelasse seu amor por ela e quebrasse o orgulho que a deixou refém de seus próprios enganos.

Assim, no final de agosto de 1979, me preparei para a última batalha. Comprometi-me a falar com ela dizendo, de forma simples e direta, como eu me sentia porque ela não estaria comigo no céu. Eu humilhei o meu orgulho e pedi a ela que se encontrasse comigo em nossa sala de estar.

Ela se sentou na poltrona próxima à lareira. Eu me sentei do lado oposto a ela. Quando comecei, meus sentimentos eram mistos. Por um lado, estava me apoiando em Deus por causa do medo de que eu pudesse dizer algo tolo. Por outro lado, eu estava repleto de uma compulsão do amor de Deus em alcançar o coração de Barbara com a verdade sobre a vida e a realidade.

— Barbara — disse eu — você sabe que sua mãe e eu estamos realmente contentes com quão bem você tem trabalhado e estudado. Esse é um momento precioso em nossas vidas, vendo você ir para Stanford e estabelecer planos para um bom futuro com Ângelo. Mas há um peso no meu coração que eu sinto que devo compartilhar com você. O que quero dizer é que, no final das contas, esta vida acaba muito depressa. Tenho pensado nisso com respeito à minha própria vida. E quero que você saiba que para mim é muito triste pensar que quando eu for para o céu, eu somente levarei você comigo como uma linda lembrança.

Eu havia planejado dizer um pouco mais, mas quando aquelas últimas palavras foram ditas, Barbara ficou muito irada. Rose Marie, que havia acabado de entrar na sala, saiu rapidamente chorando. Mais tarde ela me disse: “Quando eu ouvi só um pouquinho dessa conversa, eu sabia que não conseguiria me conter. Comecei a chorar e fui para a cozinha”.

Em sua fúria, Barbara me condenou veementemente. Isso continuou por vários minutos. O teor da denúncia era que eu estava sempre brigando com ela, jogando culpa nela e fazendo-a se sentir mal.

Enquanto ela continuava, eu ouvi, nada disse e orei. Orei com confiança de que Deus tocaria sua consciência com seu Espírito, para convencê-la de seu pecado e dar a ela o entendimento de que é insano organizar sua vida como se esse mundo atual fosse eterno.

Finalmente ela parou. Novamente, juntei coragem:

— Por que deve parecer errado que eu te diga o que realmente sinto? E eu realmente sinto isso. Eu não quero ir para o céu e somente levar você como uma lembrança bonita.

Eu nem havia acabado de pronunciar essas últimas palavras quando Barbara estourou novamente, com a mesma intensidade. Novamente eu orei e esperei. Quando ela parou, eu disse:

— Você não está correta. Você e eu não temos brigado nossas vidas inteiras. Isso é falso. Eu só consigo me lembrar de duas ou três brigas quando você era menor, e você ganhou todas elas. Na verdade, nós deveríamos ter tido mais conflitos e resolvido algumas coisas. Parece-me que não há nada de errado com o que eu acabei de dizer. O que há de errado em dizer que quero que você vá para o céu comigo?

A atmosfera estava em chamas, de tanta tensão. Mas, de repente, tudo aquilo foi interrompido. O olhar de Barbara mudou. Ela caiu no choro, atravessou a sala e caiu aos meus pés. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, ela olhou pra mim e disse:

— Papai, nós iremos fazer isso mais vezes. — Ela sorriu. Eu também.

Eu a segurei e disse:

— Eu sei, Barb. Nós precisamos fazer isso mais frequentemente. Por vários minutos, nós apenas ficamos sentados lá. Finalmente eu quebrei o silêncio:

— Barb, eu quero pedir que você faça somente uma coisa. Você pode pedir a Jesus que se revele a você? Só isso. Você pedir a ele para se mostrar a você?

— Farei isso — disse ela. — Eu quero fazer. Eu pedirei a ele que se revele para mim.

— Isso é tudo que peço. Isso é suficiente. Ele ouvirá a sua oração, eu sei que ouvirá. Eu amo você. Deus esteja com você.

Para mim, aquela última batalha com Barbara havia terminado. Eu havia sido impulsionado pelo Senhor a esse estágio final em sua “ofensiva do amor”. A consciência de Barbara agora havia sido confrontada em um nível profundo. Eu não tinha dúvidas de que isso era obra de Deus e que logo ele a completaria.

Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Filhos desviados, de C. John Miller e Barbara Miller Juliani, Editora Fiel (em breve).

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Autor: C. John Miller

C. John "Jack" Miller, PhD., fundou a World Harvest Mission (WHM) e a rede de igrejas New Life Presbyterian. Pastor, professor de seminário e autor. Ele e sua esposa Rose Marie têm cinco filhos e vinte e quatro netos.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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