Resumo: Deus salvou o seu povo para restaurar o relacionamento com ele e para cumprir uma missão no mundo. Israel foi chamado para ser um reino de sacerdotes, mediando a presença de Deus às nações, mas falhou por causa do sincretismo e do separatismo. Jesus Cristo cumpre perfeitamente essa vocação, tornando-se o verdadeiro mediador e luz para todos os povos. Artigo escrito por Courtney Doctor, autora, professora bíblica, palestrante frequente em conferências e retiros, e blogueira ocasional. Ela recebeu seu mestrado em Divindade (MDiv) do Covenant Theological Seminary em 2013 e escreveu vários livros e estudos bíblicos. Atualmente, ela atua como Diretora de Iniciativas Femininas da The Gospel Coalition e é co-apresentadora do podcast The Deep Dish.
O objetivo da salvação é a restauração do relacionamento. Deus […] quer ser o nosso Deus, quer estar em relacionamento conosco, quer que sejamos o seu povo e quer habitar conosco.
O que Deus quis dizer quando falou ao povo de Israel que seriam um reino de sacerdotes? Significava que andariam por aí de colarinho branco e túnicas pretas? Não. Para entender essa expressão, é útil considerar o que os sacerdotes fazem. Sacerdotes atuam como intermediários entre Deus e os homens. Falam a Deus sobre as necessidades e falhas do povo, e falam ao povo sobre como adorar e servir a Deus.
Ao chamar os israelitas de sacerdotes, o Senhor estava dizendo que eles deveriam servir ao mundo inteiro como intermediários. Deveriam orar pelas nações vizinhas e falar sobre o seu grande e poderoso Deus. Ele estava convidando o seu povo a participar da sua história. Agora eles tinham um papel a desempenhar nessa grande missão de resgate — não apenas como receptores da misericórdia e da graça divina, mas também como aqueles que podiam convidar outros a participar.
Deus uniu os israelitas à sua missão de redimir para si um povo. Como sempre, o alvo de Deus estava voltado para o mundo inteiro. Poderia ser fácil para essa nação recém-formada pensar que, quando o Senhor afirmou que queria ser o Deus deles, estava rejeitando o resto do mundo. Mas nunca foi esse o caso. O alvo de Deus sempre foram todos os povos da terra — até mesmo antes da queda.
Deus estava dando a essa nova nação, Israel, não apenas um propósito, mas também uma identidade: eles eram o seu povo, tesouro precioso, amados e redimidos. Possuíam uma missão: foram chamados não apenas para receber a grande misericórdia de Deus, mas também para estendê-la. Por meio deles, Deus se daria a conhecer em todo o mundo. E a eles foi dito o que seria exigido para serem parceiros fiéis nesse relacionamento belo: deveriam ser santos. Em outras palavras, Israel não foi salvo apenas para o bem de Israel.
Dando uma espiada adiante em nossa história, quão bem Israel cumpriu sua missão de mediar a presença e a bênção de Deus às nações vizinhas? Nada bem! Houve dois grandes perigos nos quais os israelitas caíram ao tentar cumprir sua vocação: o sincretismo e o separatismo. Sincretismo descreve a fusão de coisas diferentes (pense em síntese ou sintético — a combinação de elementos distintos). E separatismo é exatamente o que parece: o afastamento ou separação dos que estão ao redor.
Grande parte do Antigo Testamento é a história de como o povo de Israel insistiu em sincronizar-se com as nações vizinhas. O livro de Juízes registra os repetidos ciclos de queda de Israel: abandonar a Deus, agir como as nações ao redor, ser levado ao cativeiro, clamar a Deus e ser resgatado por ele. Muitos séculos depois, no livro de Ezequiel, lemos que Israel ainda queria ser “como as nações” (Ez 20.32).
O outro lado dessa moeda é o separatismo. Embora o sincretismo fosse, na maior parte das vezes, o problema de Israel, em outros momentos Israel se afastou tanto do envolvimento com as outras nações, que se tornou completamente ineficaz em seu chamado de ministrar a elas. Esse foi o problema que Jesus abordou na parábola do bom samaritano.
O sacerdote e o levita (ambos líderes religiosos israelitas) não pararam para ajudar o homem espancado na beira da estrada porque não queriam se tornar “impuros”. Eles eram separatistas.
Israel fracassou em cumprir sua missão de ser um reino de sacerdotes para o mundo. Não obstante, a boa notícia é que temos alguém que não falhou; ele foi o israelita perfeito em todos os sentidos. Kevin Vanhoozer afirma:
Parte do que Jesus está realizando na cruz, então, é cumprir a vocação messiânica de Israel de ser um povo da aliança fiel e obediente, um reino de profetas e sacerdotes, uma luz para as nações.[1]
Jesus é o verdadeiro e santo sacerdote que pode ser — e de fato é — um intermediário das bênçãos de Deus ao mundo inteiro, e o verdadeiro Rei do reino que agora funciona como a luz de Deus para um mundo em trevas.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Do jardim à glória: como o enredo da Bíblia transforma a nossa história, de Coutney Doctor (em breve pela Editora Fiel).

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[1] Kevin J. Vanhoozer, The Drama of Doctrine: A Canonical-Linguistic Approachto Christian Theology (Louisville: Westminster John Knox Press, 2005), p. 386. [Edição em português: Kevin J. Vanhoozer, O drama da doutrina: Uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã (São Paulo: Vida Nova, 2016).]
