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Artigo

E se o filho de um presbítero for incrédulo?

Justin Taylor 19 de Setembro de 2016 - Igreja e Ministério

“E que governe bem a própria casa,

criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito 

(pois, se alguém não sabe governar a própria casa,

 como cuidará da igreja de Deus?)”

– 1Timóteo 3.4-5

 

“Alguém que seja irrepreensível,

marido de uma só mulher,

que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução,

 nem são insubordinados.”

– Tito 1.6

 

Pode um homem que tem filhos descrentes ser apontado ou continuar como um presbítero? 1Timóteo 3.4-5 e Tito 1.6 evocam essa pergunta.

Há duas interpretações primárias. Douglas Wilson resume a primeira visão de forma bastante sucinta: “Se os filhos de um homem se afastarem da fé (quer doutrinariamente ou moralmente), ele está, nesse ponto, desqualificado do ministério formal da igreja”#1. Alexander Strauch sugere a segunda opção de interpretação: “O contraste que é feito não é entre filhos descrentes e crentes, mas entre filhos respeitosos e obedientes com filhos sem controle e desobedientes à lei”. O que deve ser destacado, Strauch sugere é “ o comportamento dos filhos, não seu estado eterno”#2.

Uma liderança fiel na igreja e em casa

A lógica básica de Paulo, especialmente em 1Timóteo 3, é bastante clara. A pergunta retórica na segunda metade do versículo 5 (“pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) logicamente fundamenta sua insistência em uma casa ordenada no verso 4 (“que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”). Por que “a casa de um crente deve ser como uma pequena igreja”#3, o resultado é que “aquele que não obtém dos seus filhos qualquer reverência ou sujeição... dificilmente estará apto para conter as pessoas pelo controle da disciplina”#4.  Isso significa que a forma como um presbítero ou presbítero em potencial administra e ordena sua casa são da máxima importância em determinar sua qualificação para o ofício. John Stott cuidadosamente resume o assunto: “O pastor casado é chamado para liderar em duas famílias, a sua e a de Deus, e a primeira deve ser o treinamento para a segunda”#5 (cf. Mateus 25.14-30 – aquele que é fiel no pouco será fiel no muito#6). A análise acima é um pouco controversa entre os exegetas. Desentendimentos surgem, entretanto, quando sondamos mais profundamente a natureza dessa casa bem ordenada.

 

Os filhos de um presbítero devem ser crentes?

A questão mais controversa em volta desses versos é se Paulo está dizendo que os filhos de um presbítero têm que ser crentes, ou se eles somente devem ser fiéis, submissos e obedientes.

O termo pistas pode significar “crente” ou “fiel” nas Epístolas Pastorais (nas duas vezes com um substantivo, cf. 1Timóteo 6.2; 2Timóteo 2.2). Portanto, somente estudos linguísticos não podem resolver a questão.

Entretanto, quero sugerir que a resolução para essa questão pode ser encontrada em comparação com o paralelo ente Tito 1.6 e 1Timóteo 3.4. Podemos estar razoavelmente certos que tekna echonta en hupotagç (“criando filhos sob controle/submissão/obediência”; 1Timóteo 3.4) é praticamente sinônimo de tekna echôn pista (“criar filhos fiéis/crentes”; Tito 1.6)#7. Em outras palavras, ter filhos pista significa ter filhos em hupotagç. Isso significaria que a parte final de Tito 1.6 (“que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados”) é a descrição do que pista significa.

Com isso em mente, aqui vão cinco razões a mais que me inclinam a acreditar que Paulo esteja se referindo à submissão e obediência do filho de um presbítero, e não à sua salvação.

Primeiro, a questão fundamental em 1Timóteo 3.5 conecta explicitamente as qualificações do presbítero com as suas habilidades administrativas no verso 4. De forma geral, um comportamento obediente não requer intervenção miraculosa; até mesmo um bom técnico de laboratório pode fazer um rato seguir um determinado caminho se planejamento suficiente e premeditação forem investidos. Enquanto uma casa piedosa geralmente contribui para que haja crença, ela não a produz. Se insistirmos que a salvação de uma criança está fundamentalmente conectada com habilidade administrativa do seu pai, temos inadvertidamente corroborado para um papel não-bíblico para a ação humana. Isso é claramente o caso de uma aplicação feita por Stott: “Uma extensão do mesmo princípio pode ser que seja menos esperado que presbíteros-bispos ganhem estranhos para Cristo, se tiverem falhado em ganhar aqueles que estão mais expostos à sua influência, seus próprios filhos”#8. O isso poderia significar? Se você é um bom administrador em casa, então podemos esperar que descrentes venham a Cristo através do seu ministério?

Segundo, até mesmo os melhores administradores pastorais possuem descrentes dentro de suas igrejas ou debaixo da sua esfera de influência (cf. Gálatas 1.6). A consequência lógica disso significaria que alguém pode administrar bem uma grande casa (sua igreja), mesmo que nem todos sejam crentes. Se é assim, então parece que alguém pode administrar bem a casa menor (sua família), mesmo que nem todos sejam crentes.

Terceiro, insistir que ter filhos crentes é um pré-requisito para o presbitério leva a algumas questões desconfortáveis. O que faríamos com um presbítero que tem vários filhos – mas um que não é crente? Se a maioria dos seus filhos são crentes, ele não é um bom administrador da sua casa? Ou, a criança descrente põe em cheque sua habilidade administrativa no geral? Se é assim, então por que qualquer um dos seus filhos se tornou crente? Wilson escreve: “... um homem pode decidir (e penso que deveria decidir) retroceder se um dos seus seis filhos negar a fé. Mas se outro pastor em seu presbitério, na mesma situação, não decidir fazê-lo e seus outros cinco filhos são virtuosos, somente um comportamento estranho expressaria sua divergência através de uma grande luta de uma igreja”#9. Ainda assim, parece ser inconsistente; se Paulo verdadeiramente ensinar que filhos descrentes automaticamente desqualificam um homem para o presbitério, então a pureza do corpo de presbíteros é digna de ser discutida.

Quarto, todos os requerimentos para o presbitério que são listados nessa passagem (ser casado uma vez, ser temperante, sensato, respeitável, hospitaleiro, bom professor, não dado ao vinho, não amante do dinheiro e não neófito) são ações de responsabilidade pessoal. Deveríamos esperar que o requerimento no que diz respeito aos seus filhos esteja na mesma categoria. Requerer que os filhos do presbítero tenham fé genuína é requerer responsabilidade pessoal pela salvação de outro, algo que não vejo ser ensinado nas Escrituras.

Conclusão

Acredito, portanto, que 1Timóteo 3 e Tito 1 estão se referindo à submissão geral e ao comportamento dos filhos do presbítero. Deus designou o universo de tal forma que o papel disciplinador, modelador, autoritativo e de líder-servo dos pais geralmente tenha um profundo impacto sobre o comportamento dos filhos. Paulo não fala como isso se manifesta em cada caso, nem fala todas as especificidades do que desqualificaria um presbítero. O caso geral, entretanto, é claro:

O que não deve ser característica dos filhos de um presbítero é imoralidade e rebeldia indisciplinada, se a criança ainda está em casa e debaixo de sua autoridade#10. Paulo não está pedindo nada mais do presbítero e de seus filhos do que é esperado de todo pai cristão e seus filhos. Entretanto, somente se um homem que exercita tal controle apropriado sobre seus filhos pode ser um presbítero#11.

Que Deus possa dar aos pastores e aos presbíteros de nossas igrejas graça e sabedoria na liderança fiel das suas igrejas e suas casas#12.

Clique aqui para “Descrença na prática dos filhos de um presbítero”, uma entrevista com o diretor executivo do 9 Marcas, Matt Schmucker.

 

 

#1 Douglas Wilson, “The Pastor’s Kid” in Credenda/Agenda, vol. 2, no. 3.

#2 Alexander Strauch, Biblical Eldership: An Urgent Call to Restore Biblical Church Leadership, revised & expanded (Littleton, Col.: Lewis & Roth Publishers, 1995), 229.

#3 John Calvin, Commentaries on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon, translated from Latin (Grand Rapids: Eerdmans, 1948), 83 n. 1.

#4 Ibid., 293.

#5 John Stott, Guard the Truth: The Message of 1 Timothy and Titus, The Bible Speaks Today (Downer’s Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1996), 98.

#6 William D. Mounce, Pastoral Epistles, WCB (Dallas: Word, 2000), 180.

#7 As Andreas Kostenberger comenta, “No contexto mais amplo do ensino bíblico das Epístolas Pastorais, não seria comum se o autor tivesse dois padrões distintos, um mais brando em 1Timóteo 3.4 (obediente) e um mais rigoroso em Tito 1.6 (crente). Isso gera a pressuposição de ler pistos em Tito 1.6 (crente) de forma conveniente no sentido de “fiel” ou “obediente” para continuar com o requerimento iniciado em 1Timóteo 3.4”. Veja http://www.biblicalfoundations.org/?p=36, sobre seu tratamento em 1-2 Timóteo e Tito em Expositor’s Bible Commentary, vol. 12 (rev. ed.; Zondervan, 2007), pp. 606-7, and ch. 12 in God, Marriage, and Family (Crossway, 2004).

#8 Stott, Guard the Truth, 176.

#9 Douglas Wilson, “The Pastor’s Kid, Again” in Credenda/Agenda, vol. 2, no. 5.

#10 Veja Knight, Commentary on the Pastoral Epistles, 161, para seu argumento que Paulo se refere a tekna (“filhos”) que estão sob a autoridade e ainda não são crescidos.

#11 Ibid., 290.

#12 Gostaria de agradecer a Ray Van Neste, Tom Schreiner, e Andreas Kostenberger por oferecerem uma resposta útil ao rascunho desse artigo.

 

Tradução: Matheus Fernandes
Revisão: Yago Martins
Original: Unbelief in an Elder’s Children — Exegesis

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