Resumo: Neste artigo expositivo sobre Gênesis 32.1–21, acompanhamos Jacó no retorno à terra prometida, encurralado entre o passado (Labão) e o acerto de contas com Esaú — e, sobretudo, confrontado pela pergunta decisiva: “Quem é você diante de Deus?”. Mesmo vendo sinais da presença divina em Maanaim, Jacó volta aos seus esquemas por medo e culpa, revelando como uma consciência inquieta enfraquece a fé. Ainda assim, o texto destaca a graça pactual do Senhor: Jacó ora agarrado às promessas e confessa sua indignidade, aprendendo que transformação real começa quando paramos de fugir, encaramos nossa condição e nos rendemos ao Deus que salva e sustenta. Leia abaixo o artigo deste excelente e criativo escritor, Emílio Garofalo Neto, ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear, em Brasília, DF. Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, completou seu Ph.D. no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.
Neste capítulo, veremos Jacó tendo de responder acerca de quem ele é, e consideramos quem nós somos diante de Deus. Vamos nos ver diante dele. Não fuja, pode ser transformador. Devemos reconhecer quem somos diante de Deus, que, em sua graça, nos transformará. Vamos ao texto:
Também Jacó seguiu o seu caminho, e anjos de Deus lhe saíram a encontrá-lo. Quando os viu, disse: Este é o acampamento de Deus. E chamou àquele lugar Maanaim. Então, Jacó enviou mensageiros adiante de si a Esaú, seu irmão, à terra de Seir, território de Edom, e lhes ordenou: Assim falareis a meu senhor Esaú: Teu servo Jacó manda dizer isto: Como peregrino morei com Labão, em cuja companhia fiquei até agora. Tenho bois, jumentos, rebanhos, servos e servas; mando comunicá-lo a meu senhor, para lograr mercê à sua presença. Voltaram os mensageiros a Jacó, dizendo: Fomos a teu irmão Esaú; também ele vem de caminho para se encontrar contigo, e quatrocentos homens com ele. Então, Jacó teve medo e se perturbou; dividiu em dois bandos o povo que com ele estava, e os rebanhos, e os bois, e os camelos. Pois disse: Se vier Esaú a um bando e o ferir, o outro bando escapará. E orou Jacó: Deus de meu pai Abraão e Deus de meu pai Isaque, ó Senhor, que me disseste: Torna à tua terra e à tua parentela, e te farei bem; sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo; pois com apenas o meu cajado atravessei este Jordão; já agora sou dois bandos. Livra-me das mãos de meu irmão Esaú, porque eu o temo, para que não venha ele matar-me e as mães com os filhos. E disseste: Certamente eu te farei bem e dar-te-ei a descendência como a areia do mar, que, pela multidão, não se pode contar. E, tendo passado ali aquela noite, separou do que tinha um presente para seu irmão Esaú: duzentas cabras e vinte bodes; duzentas ovelhas e vinte carneiros; trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez touros; vinte jumentas e dez jumentinhos. Entregou-os às mãos dos seus servos, cada rebanho à parte, e disse aos servos: Passai adiante de mim e deixai espaço entre rebanho e rebanho. Ordenou ao primeiro, dizendo: Quando Esaú, meu irmão, te encontrar e te perguntar: De quem és, para onde vais, de quem são estes diante de ti? Responderás: São de teu servo Jacó; é presente que ele envia a meu senhor Esaú; e eis que ele mesmo vem vindo atrás de nós. Ordenou também ao segundo, ao terceiro e a todos os que vinham conduzindo os rebanhos: Falareis desta maneira a Esaú, quando vos encontrardes com ele. Direis assim: Eis que o teu servo Jacó vem vindo atrás de nós. Porque dizia consigo mesmo: Eu o aplacarei com o presente que me antecede, depois o verei; porventura me aceitará a presença. Assim, passou o presente para diante dele; ele, porém, ficou aquela noite no acampamento. (Gn 32.1-21)
Pronto. Jacó pegou sua grande família e foi embora das terras complicadas e sofridas de Padã-Arã. Deixou seu sogro, Labão, com um pacto de não agressão e respeito mútuo. Mas o que o espera adiante na terra prometida?
A história segue com Jacó avançando rumo à terra de seus pais. Jacó segue em uma situação muito difícil. Esaú está adiante. Aquele de quem ele tomou o direito de primogenitura com um engodo, cerca de vinte anos antes. E o que fazer diante das novas dificuldades? Ele não vai voltar para Padã-Arã à primeira dificuldade. Imagine: “Oi, sogrão, olha só quem voltou!”. E aquele sorriso amarelo.
Esaú, por outro lado, é quem o espera em sua terra. Lembre-se de que o que motivou a fuga de Jacó foi o episódio da bênção, em que Jacó e sua mãe, Rebeca, armaram uma cilada para Isaque, com fantasia de peludo e guisado gourmet, para que Jacó se saísse bem. Esaú jurou matar seu irmão gêmeo, e Rebeca armou mais um esquema para seu filho amado fugir, à guisa de conseguir uma esposa.
Rebeca, tinha dito que, quando passasse a ira de Esaú, daria um jeito para Jacó regressar (Gn 27.45). Mas nunca chegou a notícia de Rebeca sobre a ira ser aplacada. Pelo que Jacó sabe, Esaú continua furioso com ele. James Boice nota bem que, pelo jeito, ele ouviu notícias de Esaú, pois sabe que o irmão está pela terra de Seir, território de Edom.
Labão atrás, Esaú pela frente.
E agora? Como vai agir Jacó? Quem é você
Não se esqueça de que, graciosamente, Deus reassegurou Jacó sobre sua presença, bem como a de seus anjos. A última vez que Jacó havia visto anjos fora em Betel, quando teve o sonho da escada que subia até o céu, com anjos descendo e subindo. E agora, em seu regresso, o Senhor, graciosamente, se mostra presente. Mostra seus anjos, não somente um ou dois, mas um exército. E Jacó dá àquele lugar o nome de Maanaim. Jacó viu o exército do Senhor dos Exércitos. O Deus de Abraão, o Temor de Isaque, está com Jacó. Ele não precisa ter medo. Assim como fora com Labão, quando Deus protegeu Jacó da fúria de seu sogro ao intervir em sonho. Como Eliseu, ao ver as hostes celestiais, Jacó deveria ter dito: “Os que estão conosco são mais do que os que são contra nós”.
Jacó não está corajoso, como anteriormente. Ele não age com fé nas coisas que não vê, em obediência ao que Deus mandou. No confronto com Labão, vimos Jacó se erguendo corajosamente, limpando seu nome, confrontando o sogro. Um homem de consciência limpa falando a verdade.
Mas agora, mesmo com a clara demonstração da presença de Deus, Jacó não age ousadamente. Não há nada contra sermos precavidos, contra planejarmos. Mas Jacó volta chamado pelo Senhor, com proteção garantida pelos anjos do Senhor. Infelizmente, ele começa com seus esquemas mais uma vez. Por quê? James Boice bem lembra que, em Hamlet, de Shakespeare, no famoso discurso que começa com “Ser ou não ser, eis a questão”, Hamlet diz: “A consciência faz de todos nós covardes”. Ou como ensina Provérbios 28.1: “Fogem os perversos, sem que ninguém os persiga; mas o justo é intrépido como o leão”. A coragem de Jacó não é mais a mesma. Nessa situação, ele sabe que é culpado. Uma coisa é crermos que Deus estará conosco quando somos justos; difícil mesmo é entender que, na sua graça, Deus pode nos amparar mesmo quando estamos em erro. Ah, que diferença faz uma consciência intranquila!
Jacó armou um esquema para tentar acalmar a ira de Esaú e salvar sua pele e suas coisas. Um plano para aplacar seu irmão. Vinte anos se passaram, mas ele se lembra bem do que aprontou.
Primeiro, ele manda mensageiros para que encontrem Esaú e falem que ele está voltando — e voltando com posses. É um teste da água: será que está quente? Será que está gelada? Seus emissários retornam. Imagine a ansiedade de Jacó. Será que ficou ensaiando a conversa? Terá ele se posto a imaginar mil cenários e possibilidades? Como estavam suas palmas, geladas e suadas? E seu estômago, será que doía?
Eles voltaram: “E aí encontraram Esaú?”.
Sim, encontramos. Ele está vindo ao seu encontro. Com quatrocentos homens. Não está simplesmente vindo com um pequeno grupo de apoio, ou uma escolta armada. Centenas de pessoas! Certamente armadas. Eles não falam nada sobre as intenções de Esaú, mas Jacó já assume o pior. É o que eu assumiria também. E você? Quem é você, Jacó? Ele sabe muito bem.
Esquecida estava Betel com sua escada do céu para a terra, onde ele tinha visto anjos pela primeira vez. Esquecidas estavam a proteção e a bênção dos últimos vinte anos em Harã. Esquecido estava o anjo enviado para fortalecer sua mente e enrijecer sua resolução em Jaboque. Tudo que Jacó conseguia pensar era em seu pecado e inadequação.
É o que é necessário para Jacó ficar apavorado. Como diz o texto, ele “teve medo e se perturbou”. Jacó, então, armou um esquema para minimizar as perdas: ele separou as posses e as pessoas em dois grupos, para tentar salvar alguma coisa. É claro, trata-se de um princípio bom de investimento não colocar todos os ovos na mesma cestinha. Prudência. Mas tem mais que isso aqui. Jacó está fazendo isso por temor, por se esquecer, e não por boa prudência. Como assim?
Ao separar o rebanho, ele imagina ser capaz de salvar pelo menos uma parte, caso a ira que ele imagina ainda existir no coração de Esaú não seja arrefecida. Mas, ao mesmo tempo, ele está na prudência aparente, mostrando sua covardia. Ele está voltando a seus esquemas quando a hora pede a audácia do servo do Senhor. James Boice diz: “Quando olhamos para Deus, somos fortalecidos e agrupamos nossas forças. Quando olhamos para longe de Deus, nos percebemos fracos e nos enfraquecemos ainda mais”.
Por vezes, em situações difíceis, em vez de nos voltarmos ao que Deus disse, ficamos tentando encontrar atalhos. Achamos que nosso caminho vai ser o melhor jeito, quando há um caminho dado pelo Senhor que deve ser tomado em fé. Deus lhe deu uma impressionante visão em Maanaim, a qual deveria ter sido o suficiente para ele ir corajosamente encontrar-se com seu irmão. Sim, ele pecou. Mas ele estava do lado do Deus de seu pai.
Somos assim tantas vezes, não é verdade? Cremos na sabedoria de Deus. Cremos que ele é poderoso para mudar situações, mas, na hora H, fraquejamos. Queremos dar nosso jeitinho. Queremos minimizar o dano.
Quando enfrentamos dificuldades, muitas vezes nossa teologia mostra quem realmente somos. Quem é você, Jacó? Em quem você realmente confia?
Quando enfrentamos dificuldades, principalmente se sabemos que temos parcela de culpa, aí nossa teologia nos falha e somos expostos como os crentes de meia-tigela que somos. Somos, muitas vezes, teólogos das obras, e não da graça. Quantas vezes dizemos crer na soberania, na providência, no cuidado, na bondade, na santidade de Deus, mas basta a vida apertar e nossas ações mostram quem somos de fato.
Jacó planejou um esquema dos presentes sucessivos. Ele separa vários presentes de grupos de animais, e dá a ordem para que sejam entregues aos poucos, em ondas sucessivas de agrado ao irmão ofendido. Quem sabe assim ele consiga demolir o castelo de fúria que certamente seu irmão tem contra ele? Quem sabe assim ele consiga demonstrar ser um homem diferente daquele que fugiu, vinte anos antes?
E ele se refere a Esaú como seu senhor. Jacó está de fato mudado. Mas ainda tem seus esquemas. Como fora com o rebanho. Ele teme o Senhor e faz o que ele manda, mas acrescenta o esquema das varas riscadas.
Diante do perigo, felizmente Jacó se volta ao Senhor Deus como seu refúgio. Nos versículos 9 a 12, vemos Jacó pedindo pelas promessas pactuais do Senhor. E isso nos lembra que oração, em muitas ocasiões, é precisamente falar com Deus sobre o que o próprio Deus já nos prometeu. Os salmistas fazem isso com frequência. Jesus nos ensinou a orar pelo pão nosso de cada dia — que ele mesmo disse que nunca faltaria.
E Jacó fala algo que é essencial (v. 10): “Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo”. Ele usa o termo hebraico hesed, que pode ser traduzido como fidelidade, mas que também aparece, aqui e ali, traduzido como amor ou benevolência. É o amor fiel pactual que Deus mostrou. Ao mesmo tempo que a dificuldade faz Jacó fraquejar, serve para que Jacó se lembre de que aquilo que ele tem foi recebido por meio da graça. Que, se não fosse a fidelidade pactual de Deus em seu favor, nem ali ele estaria. Ele faz a oração do publicano em Lucas 18: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”. Senhor, tem misericórdia de mim. Esse é Jacó batendo no peito. Qual é o seu nome, Jacó?

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Jacó e a graça transformadora, de Emilio Garofalo Neto, em breve pela Editora Fiel.
