Na Bíblia, descanso não é apenas uma pausa na rotina, mas um dom santo que revela quem Deus é e como ele cuida do seu povo. Desde o sétimo dia da criação, quando o Senhor abençoou e santificou o descanso como padrão para a vida humana, até o mandamento do sábado, fundamentado na criação e na redenção, a Escritura apresenta o descanso como adoração, confiança e fidelidade à aliança. Contudo, seu sentido mais pleno não está em regras, mas em Cristo, o Senhor do sábado, que restaura o propósito compassivo de Deus e livra seu povo de fardos impostos. E essa promessa aponta além do presente: permanece um repouso definitivo para o povo de Deus. Nestes 10 versículos-chave, acompanharemos esse fio bíblico — um descanso que começa em Deus, é cumprido em Cristo e culmina na esperança eterna.
Confira 10 versículos bíblicos sobre descanso, acompanhados de comentários da nossa Bíblia de Estudo da Fé Reformada com Concordância, que ajudam a perceber como essa temática percorre toda a Escritura:
Gênesis 2.2-3
E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.
O ciclo da criação foi completado no sexto dia, e Deus repousa no sétimo, munindo as pessoas com um modelo para o ciclo de trabalho e descanso.
Não se faz menção alguma a “tarde e manhã”, talvez porque a ordenança do sábado continue e as pessoas são exortadas a participar dela (Êx 31.17), e a anelar pelo eterno repouso sabático e redentor (Hb 4.3-10).
O sétimo dia é a primeira coisa na Torá pela qual Deus comunica sua santidade, separando-o para si (Êx 20.11) e ordenando à humanidade que imite o modelo do Rei e, assim, confesse o senhorio de Deus e sua consagração a ele. Esse sinal da aliança com Deus (Êx 31.13, 17) é também um tipo de Cristo (Cl 2.16, 17) e dá a promessa de descanso divino tanto agora como na eternidade (Mt 11.28).
Êxodo 20.8-11
Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.
A palavra hebraica (shabbat) aparentemente deriva do verbo que significa “cessar” — o sábado era o dia em que cessava o trabalho regular. Êxodo cita a obra de Deus na criação como a base para esse mandamento (v. 11), enquanto Deuteronômio baseia a ordenança do sábado no livramento do Egito (Dt 5.12 e nota). A ordenança do sábado está baseada, respectivamente, na criação e na redenção — retrocede à boa criação de Deus (Gn 2.2, 3) e olha para o descanso sabático na redenção final do povo de Deus (Hb 4.1-11). Assim como a circuncisão é o sinal da aliança abraâmica (Gn 17), também o sábado torna-se o sinal da aliança sinaítica (31.13), lembrando ao povo de Deus seu lugar dentro dos propósitos de Deus para a criação e sua salvação da servidão física no Egito. Enfim, o sábado aponta para Cristo, nosso Criador e Redentor, que traz repouso ao povo de Deus (Mt 11.28; Cl 2.16, 17).
O sábado não é designado como um fardo, mas, sim, como uma liberação bendita do trabalho árduo (Mc 2.27). A santidade desse dia o separa para o Senhor, a fim de que seja desfrutado por meio da participação no descanso do Senhor, celebrando a obra da criação e da redenção (Dt 5.15).
Salmo 92.1-4
Bom é render graças ao Senhor
e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo,
anunciar de manhã a tua misericórdia
e, durante as noites, a tua fidelidade,
com instrumentos de dez cordas, com saltério
e com a solenidade da harpa.
Pois me alegraste, Senhor, com os teus feitos;
exultarei nas obras das tuas mãos.
Salmo 92: Um hino que tem a exaltação do Senhor em seu cerne (v. 8). O versículo central é precedido por sete linhas com palavras que louvam a Deus (vv. 1-4) e afirmam a natureza fugaz da prosperidade dos perversos (vv. 5-7), sendo seguido por sete linhas que afirmam a ruína dos perversos (vv. 9-11) e a prosperidade final dos santos, os quais louvam a Deus (vv. 12-15).
Os versículos 1-4 estão focados no louvor de Deus.
O título ‘Altíssimo’ se assemelha àquele comumente dado a Baal nos textos religiosos cananeus. Aplicá-lo ao Deus de Israel é uma espécie de zombaria dirigida a alguém que se sente tentado a adorar Baal (83.18).
Na aliança com seu povo, Deus garante amá-los fielmente – misericórdia… fidelidade. Ele é o autor dos termos da aliança que o obriga a eles e vice-versa (136.1 e nota).
O salmista se concentra nos atos de Deus – teus feitos… obras das tuas mãos – no tempo e no espaço. Deus não está fora de alcance da realidade criada, mas age por meio dessa realidade para demonstrar seu amor pelo povo.
Isaías 56.2
Bem-aventurado o homem que faz isto, e o filho do homem que nisto se firma, que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de cometer algum mal.
As profecias de 56.1-66.24 são dirigidas aos exilados que retornaram da Babilônia, antes da reedificação do templo em 520 a.C. (64.8-12). Eles ainda sofrem de idolatria, hipocrisia e indiferença. Isaías profetiza a respeito da responsabilidade deles para com o glorioso reino vindouro e a certeza de sua chegada.
Guardar o sábado como dia santo (Êx 31.13-17) significa ser leal ao Senhor e à sua aliança (58.13; Ez 20.20). Fracasso em guardar o sábado foi um dos pecados que resultou no exílio (2Cr 36.21).
Romanos 14.5-6
Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus.
Um padrão de dias santos caracteriza o ano judaico; é a esses dias que Paulo se refere (um faz diferença entre dia e dia), e não ao sábado semanal. Se o sábado estivesse em vista, teria sido mais natural dizer: “Um considera o sábado acima dos outros dias”.
“Cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente” – quanto à outra ocorrência desse termo, ver 4.21. É espiritualmente perigoso agir contra a consciência de alguém, ainda que a consciência seja fraca e proíba o que Deus permite (vv. 14, 15; 1Co 8.9-13).
Um apelo ao que é compartilhado por ambos os grupos (v. 3), ou seja, o desejo de honrar o mesmo Senhor. O fato de ambos pertencerem a ele coloca as divisões insignificantes em sua perspectiva correta.
Ver nota teológica “O Reino de Deus”, na p. 1823.
Mateus 12.5-8
Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu vos digo: daqui está quem é maior que o templo. Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes. Porque o Filho do Homem é senhor do sábado.
O sábado é um símbolo da soberania de Deus sobre todo o universo criado (Êx 20.8). É um lembrete da redenção que ele exerce sobre seu povo (Dt 5.12) e é uma representação da esperança do repouso eterno na consumação (Hb 4.9). Como Senhor do sábado, Jesus preenche todos os aspectos do significado do sábado (Cl 2.16, 17) e define como seus seguidores devem observar esse dia.
Regulamentações que violam os propósitos do sábado que sustentam e restauram a vida estão na contramão do desígnio de Deus para esse dia (Mt 12.9-13).
Em sua resposta às acusações dos fariseus, Jesus usa dois argumentos, do menor para o maior, ambos com foco em sua própria pessoa e autoridade. Em um momento de necessidade, Davi, o ungido de Deus, transgrediu a lei cerimonial no tocante aos pães da proposição no tabernáculo. Agora, está presente alguém com autoridade muito maior. De modo semelhante, as exigências do culto no templo impõem que os sacerdotes trabalhem nos sábados e agora se encontra presente “quem é maior que o templo” (v. 6).
Aquele em quem Deus habita pessoalmente é maior que a habitação de Deus em Israel que prefigurava o Filho encarnado. Jesus, Emanuel (“Deus conosco”), é o verdadeiro templo para quem o símbolo aponta (Jo 1.14; 2.21). Os discípulos, encontrando-se na presença de Jesus, têm um serviço muito maior que os sacerdotes que serviam no templo de Jerusalém.
Jesus é maior não só do que o templo (associado aos sacerdotes), mas também do que os antigos profetas, tais como Jonas (Mt 12.41), e do que o grande e sábio rei Salomão (12.42).
Outra vez citando Oseias 6.6 (cf. 9.13), Jesus condena os fariseus por perverterem o sábado, multiplicando as restrições regulamentares e minimizando o propósito compassivo de Deus de conceder descanso ao seu povo (Mt 11.29; cf. Mc 2.27).
O Filho do Homem recebeu o domínio sobre a Criação (8.20, nota) e a Redenção (20.28). Assim também ele exerce domínio sobre o sábado, sinal da soberania de Deus na Criação e na Redenção (v. 2, nota). Sem dúvida, as reivindicações que Jesus faz aqui (bem como sua desconsideração quanto à tradição rabínica em sua prática) chocaram os fariseus, fomentando, assim, sua decisão de matá-lo (v. 14).
Marcos 2.27-28
E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e anão o homem por causa do sábado; de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado.
Jesus declara sua autoridade como o Filho do Homem que traz bênçãos, dessa vez como o Mediador da lei do AT concernente ao sábado. Tal reivindicação é feita contra as tradições que vinham convertendo o quarto mandamento, que promove a vida (Êx 20.8-11) em um fardo. Visto que o sábado foi instituído na Criação, e não só sob Moisés, o Senhor do Sábado é também o Senhor da Criação.
João 5.16-17
E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado. Mas ele lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Jesus discute com os judeus acerca de sua relação com o sábado e com Deus. Ele não argumenta com seus oponentes no sentido de eles entenderem ou não corretamente a legislação do sábado. Seu interesse é se entendem quem ele é. Jesus declara ser Deus, apontando para algumas de suas prerrogativas divinas (vv. 17-30), e exibe a base para sua reivindicação (vv. 31-47).
5.17 Meu Pai trabalha… e eu também trabalho. Jesus não discute com os judeus se eles estão certos em criticar o aleijado. Ele nega que possam criticá-lo, pois ele está apenas fazendo o que seu Pai faz. Embora Deus tenha descansado no sétimo dia de sua obra de Criação (Gn 2.2, 3), ele sustenta constantemente o universo por meio de sua providência ativa. Os judeus entendem corretamente que Jesus está afirmando igualdade com Deus ao falar de Deus como seu Pai, porém rejeitam sua reivindicação como sendo blasfema (v. 18; 8.56-59; 10.30-38).
Colossenses 2.16-17
Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.
Em Colossos, a observância dos dias de festas judaicos (a “lua nova” mensal e as festas anuais) estava aparentemente sendo defendida como um meio de aplacar os poderes sobrenaturais ou os anjos, que, imaginava-se, dirigiam o curso das estrelas, regulavam o calendário e determinavam o destino da humanidade. Isso, diz Paulo, é uma forma de escravidão da qual Cristo veio libertar homens e mulheres. Paulo não está falando aqui da observância de um dia de descanso ou de culto semanal, que está fundamentado na Criação e faz parte da lei moral (Êx 20.8-11). Ver Introdução: Assuntos Especiais.
Hebreus 4.8-10
Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia. Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas.
Outra indicação (cf. vv. 3-5) de que a terra física de Canaã não cumpria a promessa do descanso de Deus. Quando Davi escreveu, Israel havia entrado vários séculos antes em Canaã sob a liderança de Josué. Se a terra em que entraram, sob a liderança de Josué, tivesse cumprido a promessa de descanso divino, a advertência do salmo para a geração de Davi não teria sentido. Portanto, a esperança de Josué e dos patriarcas estava numa pátria melhor, celestial (11.16). Existem argumentos semelhantes do Antigo Testamento em 7.11; 8.7.
A celebração final do sábado de descanso aguarda o povo de Deus no futuro.
O destaque “descansou de suas obras” a referência provavelmente não é à conversão, por meio da qual transferimos a confiança de nossas obras para Cristo, e sim ao nosso livramento final do sofrimento, provações e esforços (v. 11). Aqueles que morrem no Senhor descansam “das suas fadigas” (Ap 14.13).
Edição por Renata Gandolfo.

Este artigo faz parte da série Versículos-chave.
Todas as seções de comentários adaptadas da Bíblia de Estudo da Fé Reformada com Concordância, Editora Fiel.
