segunda-feira, 2 de fevereiro

O homem junto ao poço

Aquele que sacia sua alma com “água viva”

RESUMO: Um teste de DNA parecia apenas curiosidade — até revelar um segredo capaz de abalar identidade, família e senso de pertencimento. Quando a verdade vem à tona, surge uma pergunta mais profunda: onde encontrar segurança, perdão e plenitude quando tudo o que era “certo” parece desmoronar? Este artigo conecta esse choque contemporâneo à história de João 4, em que Jesus de Nazaré encontra uma mulher samaritana ferida e isolada, e oferece “água viva”: uma vida nova que não depende de passado, reputação ou aprovação. Aqui você verá como Cristo conhece nossa sede real — e como ele a sacia. Escrito por Alistair Begg, professor de Bíblia no Truth For Life, um programa diário e de fim de semana que leva a exposição das Escrituras a uma audiência global por meio de rádio, podcast e canais digitais populares.


Tudo começou como uma brincadeira. Um teste de DNA. Se fosse honesta, ela esperava que isso a ajudasse a entender melhor a si mesma, a sentir-se conectada a algo maior, a preencher um espaço que ela não conseguia definir bem. Ela sempre fora curiosa quanto à sua ascendência, perguntando-se se aqueles rumores familiares sobre um parente italiano distante eram verdadeiros. Talvez saber mais sobre suas origens a ajudasse a preencher a sensação incômoda de que algo estava em falta. Ela não enviou o teste imediatamente. Continuava adiando, dizendo que não tinha certeza sobre tudo aquilo. Um dia, porém, decidiu que não tinha nada a perder. Estava até bastante animada para descobrir.

Mas, quando os resultados chegaram, a animação deu lugar a outro sentimento. o Primeiro, confusão. Depois, descrença. Em seguida, algo mais profundo, algo instável e incerto — algo que ela não conseguia descrever bem.

Seu pai não era seu pai. 

A realidade se instalou como uma pedra em seu peito. Ela verificou os resultados novamente, procurou explicações online, vasculhou a papelada. Não havia engano, no entanto. A evidência estava lá, preto no branco.

Ela pensou em sua infância, repassando conversas, férias em família, jantares de Natal. Será que ela tinha perdido algo? Será que todos os outros sabiam? Mas, embora as perguntas fervilhassem dentro dela, não contou nada a ninguém. Certamente não à sua mãe. Nem à sua irmã, sua filha ou mesmo à sua amiga mais próxima.

O que tudo isso significava? Ela carregava o segredo sozinha, como uma ferida invisível. Em alguns dias, essa descoberta não incomodava muito. Em outros, porém, doía tão profundamente, que ela mal conseguia respirar. Ela se sentia tão sozinha, tão desconectada — e ainda mais distante da sensação de plenitude que tanto desejava.

Ela não foi a primeira a buscar por algo a mais. Séculos antes, por volta do ano 30 d.C., outra mulher sentiu os mesmos anseios. A maioria das pessoas estava em casa, abrigando-se do calor escaldante do Oriente Médio. Mas, logo fora da aldeia, um homem judeu parou para descansar perto de um antigo poço de pedra. Suas vestes estavam empoeiradas, e seus pés, doloridos da longa jornada.

Uma mulher veio da aldeia, carregando um pesado jarro de água.

Um homem. Uma mulher.

“Você pode me dar pouco de água, por favor?”, o homem perguntou.

Para nós, isso não parece grande coisa. Contudo, naquela época, naquela parte do mundo, isso era enorme. Não era incomum que certos homens daqueles dias fizessem uma oração que dizia algo como: “Deus, estou feliz porque não me fizeste mulher.”

E esse é o primeiro golpe: um homem estava conversando com uma mulher.

E aqui vem o segundo golpe: ela era uma mulher samaritana.

Quando eu era jovem, costumava ouvir sobre os conflitos na Irlanda do Norte, onde protestantes e católicos atiravam uns nos outros e explodiam uns aos outros. Era assim que os judeus e os samaritanos se odiavam. Havia uma profunda desconfiança e uma enorme animosidade. Mas, ainda assim, Jesus, um homem judeu, falou com essa mulher samaritana.

“Você pode me dar um pouco de água, por favor?”

Notemos algo nessa mulher. Era meio-dia; devia fazer um calor escaldante. A maioria das mulheres coletava água cedo pela manhã ou tarde da noite, quando estava fresco. Essa mulher, porém, estava no poço quando não havia mais ninguém por perto — algo semelhante a fazer compras em uma loja que fica aberta até tarde pouco antes do horário de fechamento, ou pegar remédios na farmácia muito depois da hora em que geralmente se dorme. É seguro presumir que ela não queria falar com ninguém, que não queria ser julgada.

Ela não tinha ideia de que o homem que estava prestes a encontrar era a única pessoa que tinha autoridade para julgá-la — e, mesmo assim, era também a pessoa mais amorosa que ela conheceria na vida. Esse homem judeu, Jesus de Nazaré, conhecia suas tristezas e anseios ocultos. Ele via além de seu passado e de seus erros. Em vez de condenação, ele lhe ofereceria o tipo de amor e graça que ela nunca havia conhecido. 

Ele inicia a conversa: “Você pode me dar um pouco de água, por favor?”

Você já se perguntou como seria se Jesus se sentasse ao seu lado e tivesse uma conversa com você? O que ele diria? Você acha que ele começaria a citar grandes trechos da Bíblia? “Não farás isso. Não farás aquilo. Não farás…”

Não, ele apenas pede um copo de água. E esse simples pedido tem um impacto imediato nela. Sem titubear, ela responde: “Isso é realmente estranho. Você é judeu, e eu, samaritana.”

Jesus sabia disso, é claro.

“Se você acha isso surpreendente”, ele diz, “espere até ouvir o que mais tenho para lhe contar.”

Ela assume que pode fazer algo por ele. Afinal, ele quer um copo de água, e ela tem um jarro de água. Mas, na verdade, é ela quem precisa de algo dele. 

A conversa toma um rumo inesperado: “Se você soubesse quem está falando com você”, ele diz, “você lhe teria pedido, e ele teria dado a você água viva.”

Ela está surpresa. Ele não tem um jarro de água, e o poço é fundo. Do que ele está falando? O que é essa água viva a que ele se refere?

“Escute”, diz Jesus. “Quem beber desta água terá sede novamente. Mas quem beber da água que eu der nunca mais terá sede.” Essa água viva não virá de um poço. Jesus está falando sobre algo muito mais profundo. Ele conhece o anseio da mulher por verdade e preenchimento duradouro.

Ela não entende o ponto de jeito nenhum: “Bem, isso parece bom! Dê-me um pouco dessa água viva. Assim, não ficarei com sede e não precisarei continuar a voltar aqui para tirar mais água do poço.” Ela ainda está pensando em água física.

Jesus sabe que ela precisa confrontar sua verdadeira necessidade. Cuidadosamente, ele aponta para sua necessidade de perdão pessoal e salvação. Um verdadeiro encontro com Deus e uma transformação real sempre começam aqui.

E, com bondade e amor, Jesus gentilmente toca na área da vida dela que precisa mudar e aborda sua consciência:

“Por que você não vai chamar seu marido?”

“Eu não tenho marido”, ela murmura.

Aqui vem o próximo golpe. Talvez o maior de todos. Descobrimos que a mulher já tivera cinco maridos diferentes. Ela agora está vivendo com outro homem — e eles sequer são casados. Novamente, lembre-se dos tempos. Isso simplesmente não acontecia naquela época.

Não sabemos se seu passado tinha sido moldado por infortúnio, maus-tratos ou suas próprias escolhas. Mas, seja qual for a razão, parece tê-la deixado isolada, evitando o olhar dos outros. Provavelmente não foi coincidência que ela foi ao poço no meio do dia, quando achava que ninguém mais estaria por perto.

Então, esse é o terceiro golpe. Como esse mestre religioso reagirá a uma mulher como essa?

Jesus não aponta como ela falhou em amar a Deus, como quebrou todos os mandamentos ou como bagunçou tudo. Em vez disso, ele se aproxima dela, e sua mensagem é: “Eu conheço você. Conheço os anseios do seu coração. Estou cheio de amor e compaixão. Apenas venha a mim. Você não precisa expor sua lista de crimes. Você não precisa ensaiar todas essas coisas. Eu sei.”

A mulher olha para Jesus com espanto. “Uau! Posso ver que você é um profeta”, ela diz. Então, tem início uma discussão sobre onde se devia adorar. Ela tinha de ir ao local de adoração dos samaritanos ou ao templo judaico em Jerusalém? Talvez isso pareça um tanto obscuro para nós agora, mas Jesus responde com uma verdade vital.

Ele lhe diz que adorar não se trata de ir a um lugar específico — esta igreja ou aquele templo. Não tem nada a ver com lugar. Trata-se de uma pessoa.

A mulher diz que sabe que um Messias prometido virá um dia. “Tenho certeza de que ele será capaz de nos explicar tudo”, ela comenta.

Que ironia! Ele está bem na frente dela.

“Sou eu”, declara Jesus. “Você não precisa procurar em nenhum outro lugar. A verdade é que Deus veio procurar por você.”

A imagem padrão em nossa cultura é que Deus está brincando de esconde- esconde e não quer ser encontrado. No entanto, o relato que temos na Bíblia é o inverso disso. Fomos nós que nos escondemos.

O passado dessa mulher não era grande demais para Jesus. Ele fez um esforço para encontrá-la e lhe disse: “Eu conheço você. Eu amo você.” Ela estava à procura de algo, ansiando por alguma coisa mais. Ela procurava as respostas em todos os lugares errados. Mas, agora, diante dela estava uma resposta que ela nunca esperara. Agora ela descobre o que é o verdadeiro amor e onde o verdadeiro preenchimento pode ser encontrado.

Essa história tem um toque bastante contemporâneo, não tem?

E você? Está com sede? Talvez você tenha tentado de tudo para saciar essa sede. Você diz: “Eu tentei isso. Tentei aquilo. Tentei o terceiro passo. Eu obtenho um pouco de satisfação aqui. Preencho minha vida com algo ali.” Talvez você tenha tentado de tudo, procurando algo que o faça se sentir completo.

Olhe para a história dessa mulher. Tome-a como exemplo. Ela procurou respostas. Mas, no momento em que encontra Jesus, tudo muda. Ela percebe que encontrou algo — ou alguém — diferente. Ela corre de volta para sua aldeia, não mais se escondendo, não mais envergonhada. “Venham e vejam!”, ela diz aos seus vizinhos. “Venham conhecer o homem que sabe tudo sobre mim — e, mesmo assim, me ama.”

Não nos é contado o resto da história dessa mulher, mas deixe-me imaginar o que pode ter acontecido. Se voltássemos à aldeia alguns anos depois, poderíamos encontrá-la, como de costume, coletando água do poço, mas agora ao mesmo tempo que todas as outras mulheres, e não mais sozinha. Uma delas poderia se aproximar dela e dizer: “Você parece tão contente hoje em dia. Você mudou. Não se esconde mais. O que aconteceu?”. E eu imagino um sorriso suave se espalhando pelo rosto da mulher samaritana. “Eu estava sempre à procura de algo que me satisfizesse, constantemente buscando, mas sempre faltava algo. Eu costumava estar tão sedenta, mas o homem junto ao poço saciou minha sede.”

E quanto à sua história? Você tem segredos dolorosos, tristezas ocultas, sonhos não realizados, feridas profundas pesadas demais para carregar? Jesus vem à procura de cada um de nós — não para nos condenar, mas para nos oferecer água viva, o preenchimento pelo qual cada um de nós anseia.

Se nos voltarmos para ele, também poderemos dizer: “O homem junto ao poço saciou minha sede.”


Este artigo é um trecho adaptado do livro O Homem na cruz do meio, de Alistair Begg, em breve pela Editora Fiel.


Autor: Alistair Begg

Alistair Begg é professor de Bíblia no Truth For Life, um programa diário e de fim de semana que leva a exposição das Escrituras a uma audiência global por meio de rádio, podcast e canais digitais populares. Truth For Life apresenta ensinamentos extraídos das décadas de pregação fiel de Alistair na Parkside Church, onde serviu como pastor sênior de 1983 a 2025. Alistair é autor de vários livros já publicados em muitas línguas.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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