Resumo: Jacó sai de Berseba rumo a Harã carregando as consequências de seus próprios enganos: família em ruínas, ameaça à vista, solidão no deserto e uma pedra por travesseiro (Gn 28.1–10). Enquanto ele foge tentando sobreviver, o texto mostra algo ainda mais profundo: o Deus do pacto não abandona pecadores, mas os alcança com fidelidade e promessa — muitas vezes quando eles menos pensam nele. Ao lado da rebeldia de Esaú e das meias-verdades que marcaram a casa de Isaque, o sonho da escada expõe a gravidade do pecado e, ao mesmo tempo, a insistência da misericórdia divina que começa a reunir um povo para si. Leia abaixo o artigo deste excelente e criativo escritor, Emílio Garofalo Neto, ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear, em Brasília, DF. Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, completou seu Ph.D. no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.
Leia Gênesis 28.1-22
Vamos à primeira parte da história.
Isaque chamou a Jacó e, dando-lhe a sua bênção, lhe ordenou, dizendo: Não tomarás esposa dentre as filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Padã-Arã, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma lá por esposa uma das filhas de Labão, irmão de tua mãe. Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça fecundo, e te multiplique para que venhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que possuas a terra de tuas peregrinações, concedida por Deus a Abraão. Assim, despediu Isaque a Jacó, que se foi a Padã-Arã, à casa de Labão, filho de Betuel, o arameu, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e de Esaú.
Vendo, pois, Esaú que Isaque abençoara a Jacó e o enviara a Padã-Arã, para tomar de lá esposa para si; e vendo que, ao abençoá-lo, lhe ordenara, dizendo: Não tomarás mulher dentre as filhas de Canaã; e vendo, ainda, que Jacó, obedecendo a seu pai e a sua mãe, fora a Padã-Arã; sabedor também de que Isaque, seu pai, não via com bons olhos as filhas de Canaã, foi Esaú à casa de Ismael e, além das mulheres que já possuía, tomou por mulher a Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, e irmã de Nebaiote.
Partiu Jacó de Berseba e seguiu para Harã. Tendo chegado a certo lugar, ali passou a noite, pois já era sol-posto; tomou uma das pedras do lugar, fê-la seu travesseiro e se deitou ali mesmo para dormir. (Gn 28.1-10)
Sonhos e mais sonhos
Você já teve um sonho tão ruim que o manteve acordado por horas a fio? Um pesadelo recorrente que tenho é que chego para pregar e esqueci minhas notas. Sempre a mesma coisa! Alguns sonhos dificultam a volta ao sono. Você já teve sonhos assim, imagino. Ou o contrário: já teve um sonho tão bom que ficou louco para voltar a dormir e continuá-lo? Sonhos têm fascinado a humanidade por muito tempo.
Em certos momentos da história — raros momentos —, Deus usou sonhos para revelar pontos importantes da história da redenção. Vale notar que, em geral, são pessoas de pouca vitalidade espiritual que recebem sonhos do Senhor. Gente para quem a Palavra do Senhor não bastava. Foi assim com reis pagãos como Faraó (no contexto de José) e Nabucodonosor, e com pessoas como Jacó.
O sonho de Jacó e sua escada nos ajudarão a entender as consequências do pecado e como Deus lida conosco. Deus lida com pecadores como Jacó em fidelidade a seu pacto e por meio de um mediador. Deus é insistente em amar seu povo.
Após as confusões do capítulo anterior, a família estava em polvorosa. Esaú, cheio de homicídio no olhar. Rebeca, temendo pela vida de seu querido Jacó, foi a Isaque com a ideia de enviá-lo para longe, a fim de buscar esposa e não se casar com uma mulher cananeia. Isaque aceitou e tudo foi arranjado para que ele fugisse para a terra de Harã. Uma família destroçada pelo pecado.
Nisso tudo, Rebeca foi incapaz de trazer a verdade. Não seria hora de admitir o que se passara, expondo a situação e pedindo que o patriarca Isaque interviesse para proteger Jacó? Ou, no mínimo, que reconhecesse o perigo e enviasse um dos filhos para longe? Mas não. Lá foi Rebeca com outro plano para acobertar e resolver a situação — e ela se valeu da tradição pecaminosa da família: meias-verdades. Ela usou o fato de Esaú ter se casado com uma cananeia e que isso causara amargura em seus pais, para lançar a ideia de que tal coisa não deveria se repetir com Jacó. Isso era verdade? Sim. Era toda a verdade? Não. Rebeca estava, de novo, enrolando Isaque. Eles ainda pensam que é necessário usar de subterfúgio para lidar com a vida.
Jacó e Esaú cresceram assim, infelizmente. Não quer dizer que Isaque e Rebeca fossem descrentes; eles eram, sim, crentes na promessa de Deus. Mas eram pais tolos, que guiavam mal seus filhos. Pais crentes precisam aprender sobre guiar seus filhos no caminho do Senhor. Não é automático! Nem necessariamente consiste em apenas replicar o que seus próprios pais fizeram! Todos nós precisamos, à luz da Escritura, redimir nossa maneira de criar os filhos: interrompendo maus padrões, abandonando a tolice dos nossos pais e prolongando a sabedoria deles.
E assim Jacó se foi com a bênção de seu pai, Isaque, apontando para a bênção de Abraão (v. 3 e 4). Veja que Isaque agora confirma o que fez, se conforma e abençoa Jacó. Ele parte em uma missão parecida com a que o servo de Abraão fizera em favor de Isaque — ir buscar uma esposa. Mas ele está sozinho, lidando com as consequências de quem ele é e do que fez. Ele vai com as bênçãos advindas de seu avô Abraão, não por ser bom, pois ele, obviamente, não é. Mas por Deus ser misericordioso e insistir em seu povo.
A expressão que Isaque usa — “multidão de povos” (v. 3) — é muito importante. Faz referência a mais do que meramente ser muita gente. Mas uma reunião, um ajuntamento de povos. Seria no hebraico o equivalente ao termo ekklesia, que é a palavra grega para “igreja”. Iain Duguid explica: “O que Deus prometeu a Jacó por meio da bênção de Isaque é nada menos que o começo de Israel: uma verdadeira comunidade de irmãos vivendo juntos em unidade”.
Depois Israel se ampliaria para incluir inúmeros povos. E começa com esse malandro fugindo sob falsos motivos. Mas nem distância, nem pecado, nem a tolice, nem a rebelião, iriam separá-lo da presença ou do amor do Deus do pacto.
Lá se foi Jacó fugindo, provavelmente sem nem pensar em Deus e no que fizera, apenas no risco. Será que ele voltaria um dia? Será que ele simplesmente abandonaria a terra que fora prometida a seu avô?
Precisamos falar um pouco sobre Esaú. Perceba-o mostrando quem de fato é: um rebelde. E Deus vai deixar que ele siga no caminho da rebeldia. O que ele faz? Percebendo tudo o que se passou, ele vai atrás de outra esposa, dessa vez uma filha de Ismael, o meio-irmão de Isaque. O que isso significa? Ele já tinha suas esposas e, agora, em tom de desafio, vai à casa de Ismael, filho de Abraão com Agar, a egípcia, e escolhe para si uma mulher de fora do pacto, novamente. Eu sou Esaú. Eu faço o que eu quero. Rebelde, tolo. Autodestrutivo.
Ninguém está bem. Jacó fez seu plano para conseguir posses, bênçãos e segurança, mas qual é o resultado de sua busca feita por meios ímpios? Jacó está no ermo, sozinho, no escuro. Pecados têm consequências. Deus perdoa, sim, e Deus por vezes nos livra de certas consequências, mas certas coisas podem não mudar nunca e nós temos de conviver com elas.
O sol se pôs e Jacó decidiu descansar. Pegou uma pedra para fazer de travesseiro, tinha o céu como teto e dormiu. Jacó, morador da casa de Isaque, cheio de grandes riquezas. Agora dorme com pedra de travesseiro.
Será que ele vai se ausentar para longe da face de Deus, para onde Deus não será capaz de encontrá-lo? Será que Deus será capaz de localizar um enganador dormindo no escuro com a cabeça na pedra? E, se encontrar, o que Deus fará com ele? O hino já diz: “Mesmo vagando aqui na solidão/De noite a descansar, dormindo no chão”.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Jacó e a graça transformadora, de Emilio Garofalo Neto, em breve pela Editora Fiel.
