quarta-feira, 18 de março

A identidade de Jesus em Marcos

Da confissão de Pedro à cura do cego Bartimeu

Uma vez que Jesus e os discípulos se voltam para Jerusalém, a identidade de Jesus começa a ficar mais clara. Em Marcos 8.29, Pedro declara: “Tu és o Cristo [Messias]”. Marcos 8.27–10.52 compreende a “estrada para Jerusalém”. É um tempo de preparação e revelação adicional da identidade de Jesus. A narrativa progride para um nível elevado: o Messias realmente sofrerá e morrerá. Isso é evidente na segunda e terceira previsões da paixão em 9.31 e 10.33. À medida que Jesus se aproxima de Jerusalém, a oposição judaica se intensificará e culminará em sua morte.

A confissão de Pedro e a transfiguração (Mc 8.27–9.13).

O Evangelho de Marcos chega a um de seus pontos mais elevados com a confissão de Pedro de que Jesus é, de fato, o Messias há muito esperado: “Ele [Jesus] perguntou a seus discípulos: Quem dizem os homens que sou eu?” (8.27). Depois que os discípulos oferecem sua lista de candidatos principais, Jesus incisivamente pergunta a Pedro: “Mas vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro acerta em cheio quando diz: “Tu és o Cristo” (8.29). Conforme observado acima, a palavra para “Cristo” é o termo grego Χριστός, que significa “ungido” ou “Messias”. Pedro está, portanto, afirmando que Jesus é, de fato, o mui aguardado Messias, que veio para libertar Israel. Contudo, a natureza messiânica de Jesus foge ao padrão, pois ele é um Messias sofredor, o qual inaugura um reino cheio de perseguição e sofrimento (8.31-9.1). Então, Jesus é, notavelmente, transformado ou “transfigurado” diante dos olhos dos discípulos. Esse evento demonstra, acima de tudo, que Jesus é o Messias há muito esperado e o divino Filho de Deus. Os discípulos, portanto, devem obedecer ao rei Jesus (9.2-13).

Instrução sobre o reino e outras curas (Mc 9.14–10.52).

Imediatamente após a transfiguração, Jesus faz a preparação final antes de entrar em Jerusalém. Muitos dos temas de Marcos continuam a progredir, particularmente a frustração de Jesus com os discípulos, a falta de      entendimento deles (9.18-19; 10.35-45) e sua morte iminente (9.30-32; 10.32-34). A cura do cego Bartimeu, porém, recebe destaque no drama de Marcos (10.46-52). A cura precede imediatamente a marcha de Jesus para Jerusalém (11.1), e as palavras de Bartimeu são especialmente perspicazes quando ele declara: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (10.48). Mesmo antes de Bartimeu ser curado, ele afirma o que vem entrando e saindo do pano de fundo por vários capítulos — Jesus é o Messias tão esperado. A declaração de Bartimeu prepara o cenário para a entrada de Jesus em Jerusalém no capítulo seguinte.

Ao contrário dos outros três Evangelhos, apenas Marcos descreve a cura de dois cegos: Bartimeu, em Marcos 10, e um cego cujo nome não é mencionado, em Marcos 8. No capítulo 8, o cego desempenha um papel importante na narrativa de Marcos, pois simboliza a cura em dois estágios da cegueira dos discípulos. A inclusão de Marcos (e de Mateus) da cura de Bartimeu é extremamente importante para sua narrativa. Esse é o evento final antes da entrada de Jesus em Jerusalém. Então, por que Marcos usaria um episódio de cura antes da Entrada Triunfal? E por que ele usaria a cura de um cego? Por que não de um coxo ou mudo? A resposta provavelmente está em seu valor simbólico.

Muitas vezes, o Antigo Testamento usa a cegueira para descrever a incapacidade de Israel de discernir a revelação de Deus. Ou seja, os israelitas foram incapazes de compreender as ações de Deus e a revelação verbal. Por exemplo, Deuteronômio 29.4 diz: “porém o Senhor não vos deu coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje”. Israel ficou cego porque se transformou nos próprios objetos que adorava      (Sl 115.5-8; 135.16-18).

Quando chegamos aos Evangelhos, aprendemos que Israel ainda está em estado de cegueira. Já discernimos esse princípio em Marcos 4.11,12. Por que Israel estaria em um estado de cegueira? Ele ainda está se curvando aos ídolos? Fisicamente, não. Por volta do primeiro século, os judeus sabiam fazer coisas melhores do que fabricar e adorar ídolos. Eles haviam pagado caro por esse erro. Porém, em vez de fabricar ídolos físicos, eles fabricaram ídolos figurativos. Eles se curvam não às imagens de ouro, mas à tradição oral, de maneira que se tornam culpados de adorar, em vez do Legislador, as tradições e leis humanas.

A identidade de Jesus como Rei é central para nossa passagem, já que Bartimeu exclama duas vezes: “Filho de Davi” (10.47-48). No entanto, por que o reino de Jesus está em destaque aqui? Colocando a pergunta de outra maneira, qual é a relação entre a cura de cegos e o irrompimento do reino? Mateus 11.2-5 é particularmente útil a esse respeito:

Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho.

Aqui, Jesus revela sua identidade real ou messiânica ao curar os deficientes. Jesus cita parcialmente dois textos do Antigo Testamento — Isaías 35.5-6 e 61.1-2. Em 35.5-6, os cegos, os surdos e os coxos são restaurados porque agora são cidadãos do reino divino do fim dos tempos; eles foram tirados do cativeiro babilônico e restaurados através de um segundo êxodo. É importante ressaltar que somente aqueles que são restaurados fisicamente são capazes de viajar para a Terra Prometida (Is 35.8). O povo restaurado de Deus será espiritual e fisicamente íntegro. Eles serão seres da nova criação, aptos para os novos céus e a nova terra.

Ao curar Bartimeu, Jesus demonstra a abertura dos novos céus e da nova terra. Jesus, o Rei do fim dos tempos, cura um dos cidadãos de seu reino! Todavia, a restauração de Bartimeu tem significado não apenas para ele mesmo, mas também para uma corporação. O cego Bartimeu encarna o Israel cego e endurecido. Lembre-se de que, em Marcos 8, a cura do cego em dois estágios realizada por Jesus simbolizava a cura da cegueira dos discípulos (8.18, 21, 29). Da mesma forma, a cegueira de Bartimeu em Marcos 10 provavelmente simboliza a cegueira de Israel. Por que, porém, o evento é colocado antes da Semana da Paixão? Aparentemente, a crucificação e a ressurreição são os meios pelos quais Jesus curará o remanescente cego de Israel. Na crucificação, vemos palavras praticamente idênticas às de Bartimeu, mas nos lábios de um centurião romano: “O centurião que estava em frente dele, vendo que assim expirara, disse: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (15.39).

No Antigo Testamento, um dos atributos centrais de Yahweh é sua capacidade de curar e restaurar (Êx 4.11; Sl 146.8; Os 6.1-2 etc.). Ele criou Israel e promete restaurá-lo. É importante que tenhamos em mente os textos do Antigo Testamento quando vemos Jesus curando cegos, coxos e mudos. Jesus age não como os profetas do Antigo Testamento — os quais, ocasionalmente, foram capazes de mediar o poder de cura de Deus (veja, por exemplo, 2Rs 5) —, mas como o próprio Yahweh. Jesus é a própria fonte de cura porque ele é Deus encarnado.[1]


[1] Note a explicação bíblico-teológica desse tema por Michael L. Brown, Israel’s Divine Healer. (Grand Rapids: Zondervan, 1995).


Autor: Guy Prentiss Waters

Dr. Guy Prentiss Waters é professor de Novo Testamento no Reformed Theological Seminary em Jackson, Mississippi. Ele é autor do livro How Jesus Runs the Church.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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