segunda-feira, 27 de maio
famílias

A providência de Deus sobre o pecado e seus efeitos nas famílias

O trecho abaixo foi retirado com permissão do livro Providência, de John Piper, Editora Fiel.

Famílias arruinadas

As tristezas nas famílias são as mais dolorosas. É possível ter grande compaixão quando a família de outra pessoa sofre um colapso. Podemos chorar com os que choram. Essa é uma forma bela e cristã de refletir o coração semelhante ao de Cristo (Mc 8.2; Lc 7.13). Mas o colapso físico e, em especial, o colapso espiritual de nossa própria família abalam fortemente nosso coração, como se uma grande rocha atingisse nosso peito. Há muitos que não veem a todo-abrangente providência de Deus sobre essas infelicidades como um consolo ou um encorajamento, mas, sim, como um fardo acrescentado. Mas, para outros, embora a providência que governa a família seja algo sério (como o é toda realidade suprema), apesar disso, ela lhes dá mais esperança do que o pensamento de que Satanás, o homem pecaminoso ou o destino irracional tem o controle.

O que Jesus diria 

Jesus foi incrivelmente franco com seus seguidores ao adverti-los de que haverá divisões familiares: Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão. Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. Estarão divididos: pai contra filho, filho contra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra contra nora, e nora contra sogra (Lc 12.51-53).

Um irmão entregará à morte outro irmão, e o pai, ao filho; filhos haverá que se levantarão contra os progenitores e os matarão. Se- reis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo (Mc 13.12-13).

A todo-abrangente providência de Deus exerce seu governo sobre a vida de filhos desobedientes? Há uma história bíblica ocorrida perto do fim da época dos juízes, quando Deus estava prestes a levantar o profeta Samuel, que nos oferece essa resposta. Naqueles dias, Eli era um sacerdote diante de Deus e, para sua tristeza, seus filhos Hofni e Fineias estavam profanando o tabernáculo de Deus por meio de imoralidade flagrante.

Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação. E disse-lhes: Por que fazeis tais coisas? Pois de todo este povo ouço constantemente falar do vosso mau procedimento. Não, filhos meus, porque não é boa fama esta que ouço; estais fazendo transgredir o povo do SENHOR. Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro; pecando, porém, contra o SENHOR, quem intercederá por ele? Entretanto, não ouviram a voz de seu pai, porque o SENHOR OS queria matar (1Sm 2.22-25; cf. Js 11.20).

Por que os filhos de Eli não ouviram?

Não há dúvida de que os filhos de Eli eram ímpios. Eles não mereciam qualquer ajuda da parte do Senhor para mudar seus caminhos e obedecer às advertências de seu pai para que não pecassem “contra o SENHOR”. De fato, quando o pai os exortou a mudar de atitude, eles “não ouviram a voz de seu pai”. O escritor inspirado nos diz por quê: “porque o SENHOR os queria matar” (1Sm 2.25). A palavra hebraica traduzida como “porque” (יכּׅ ) nos mostra a razão pela qual os filhos não obedeceram. Foi porque Deus tencionava matá-los. E Deus fez realmente isso, matando os irmãos no mesmo dia (1Sm 2.34; 4.11).

A questão aqui não é se esses filhos já eram culpados de pecado obstinado contra Deus e dignos dessa punição da parte do Senhor. Eles eram. Em vez disso, o autor diligenciou por colocar a recalcitração e a desobediência final deles nas mãos do Senhor. Deus sabia o que seria necessário para levar esses filhos ao arrependimento e à obediência, e escolheu não permitir que isso acontecesse. Eles “não ouviram a voz de seu pai, porque o SENHOR os queria matar” (2.25). Eles não ouviram. Continuaram a desobedecer. Por quê? Porque Deus havia decidido que não haveria arrependimento e perdão, mas apenas punição por morte imediata.

Por que o rei jovem não ouviu?

A indisposição pecaminosa dos filhos de Eli para ouvir o conselho de seu pai é semelhante à indisposição de Roboão para ouvir a sabedoria dos anciãos de Israel que o aconselharam —depois da morte de seu pai, Salomão — a tratar amavelmente o povo (2Cr 10.7). Em vez disso, Roboão seguiu o conselho dos jovens; e isso resultou em que o reino fosse dividido com Jeroboão, afastando dez tribos de Roboão.

Por que isso aconteceu? Por que Roboão não agiu sabiamente em prol do bem do povo? A resposta, como no caso dos filhos de Eli, é a providência de Deus. “O rei [Roboão], pois, não deu ouvidos ao povo, porque isto vinha de Deus, para que o SENHOR CONFIRMASSE a palavra que tinha dito por intermédio de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate” (2Cr 10.15; cf. 1Rs 12.15, 24). O objetivo de Deus era tirar o reino das mãos do filho de Salomão (1Rs 11.11). Ele fez isso ao cuidar para que Roboão não desse ouvidos à sabedoria de seus anciãos, como os filhos de Eli não quiseram ouvir seu pai. (Veja um caso semelhante em 2Cr 25.20.)

Em ambos os casos (os filhos de Eli e Roboão), a realidade do julgamento de Deus é solene. Em um caso, houve efeitos devastadores por séculos a fio, por causa da divisão de Israel em dois reinos. No outro caso, a questão foi mais pessoal e menos nacional — porém, talvez, mais devastadora — porque Deus havia decidido que não haveria arrependimento e perdão para os filhos de Eli. Desobediência e morte foram decretadas.

Uma história relevante para os cristãos

Essa é uma perspectiva apavorante — em nossa vida pode haver um ponto de pecar depois do qual Deus fala: “Não haverá arrependimento nem perdão para você”. Até hoje, nós, cristãos, devemos entender isso como uma advertência. Vemos isso, por exemplo, em 1 João 5.16: Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue. O ensino não é sobre a existência de um pecado específico que leva à morte — como se um grupo de pecados fosse perdoável e outro não. O ensino aqui é que se pode chegar a um ponto — e somente Deus sabe qual é esse ponto — em que ele pode dizer: “Chega! Eu não lhe darei arrependimento e, portanto, você perdeu o perdão”.

Isso foi o aconteceu no caso de Esaú: Atentando, diligentemente, porque ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado (Hb 12.15-17).

Esaú não pôde achar “lugar de arrependimento” (μετανοίας… τόπον). Ele havia chegado ao ponto de pecar que poderíamos chamar, usando a linguagem de João, “pecado para morte” (1Jo 5.16). Nenhum arrependimento lhe seria dado. E, portanto, nenhum perdão. Veremos na Seção 8 como Deus impede que isso aconteça na vida de seus filhos (veja Jd 24–25). Um dos meios que Deus usa para impedir que isso aconteça é nos fazendo levar a sério as advertências bíblicas. A história dos filhos de Eli, bem como 1 João 5.16 e Hebreus 12.17, serve como advertências dessa natureza.

Nenhuma família está além da obra despertadora da providência

Neste lado da cruz de Cristo, essa confiança é também o modo pelo qual os cristãos suportam as constantes dificuldades e tristezas da vida. Sabemos que, “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). Mas não perseveramos e florescemos por pensar que o homem, Satanás ou o destino têm o controle decisivo sobre o pecado e o mal neste mundo ou em nossa vida. Em vez disso, prosseguimos e nos alegramos por confiar no soberano Deus do universo, que provou seu amor em Jesus Cristo e governa todas as coisas, inclusive desolações familiares como as de Davi. Prosseguimos por crermos que todos os caminhos de Deus são misericórdia e fidelidade para com aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.28-39) e que o impossível para os homens é possível para Deus — incluindo a grande e impossível obra do novo nascimento (Mc 10.27).

De famílias preciosas para a Palavra preciosa

Se as famílias são preciosas para nós, a palavra de Deus é preciosa para ele. Vimos como sua providência reina sobre os fracassos das famílias de sacerdotes e reis. Veremos como a providência de Deus reina sobre a rejeição, a distorção e a supressão de sua palavra. Apesar dos abusos de sua palavra santa, podemos ter certeza de que a todo-abrangente providência de Deus garante esta verdade: “A palavra de Deus não está algemada” (2Tm 2.9).

 

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Autor: John Piper

John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens milhões de pessoas em todo o mundo. Ele exerce seu ministério pastoral na Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, MN, nos EUA desde 1980.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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