quarta-feira, 24 de abril

Confiando em Deus, não em si mesma

O temor de homens

Eu realmente consigo me identificar com o medo de Moisés. Você também não consegue? “Eu não posso fazer isso… eu não sou boa em falar em público… mas, e se eles não acreditarem em mim.” Você não consegue imaginar isso perfeitamente? Eu consigo. Na verdade, eu acho que já tive esse tipo de conversa com o Senhor. Durante todo o tempo, Deus estava encorajando Moisés. Ele o assegurou de sua presença e de seu poder para realizar a sua vontade. Mas tudo o que Moisés conseguia ver era a sua própria inadequação, medo e incredulidade.

Note que Deus não gastou tempo tentando aumentar a auto-confiança de Moisés. Pelo contrário, Deus continuou lembrando-o de que ele deveria colocar a sua confiança nele. Sempre que gastamos tempo tentando nos convencer de que somos muito melhores, mais fortes ou mais sábias do que sabemos que somos, estamos fadadas ao fracasso. Deus não quer que cresçamos em autoconfiança. Ele deseja que coloquemos toda a nossa confiança nele. Afinal, ele é o único que é poderoso o suficiente para vencer os faraós em nossas vidas.

Quando Moisés cresceu em sua confiança no Senhor, Deus o usou para realizar uma grande libertação. Na verdade, Moisés é conhecido hoje como um dos maiores líderes da história bíblica. Mas isso não se deve ao fato de ele ter sido um homem muito corajoso em si mesmo, não é? Foi apenas por causa do grande poder e determinação de Deus em cumprir o seu propósito. E, o que Deus fez por Moisés, ele pode fazer por você. Você pode descansar no conhecimento de que se Deus está chamando você para fazer alguma coisa, mesmo que seja apenas para ser corajosa o suficiente para ir à igreja e falar com as pessoas, então a sua graça será eficaz em sua vida também.

O tipo errado de temor de Deus

Os filhos de Israel haviam sido escravos no Egito por cerca de 400 anos, quando Moisés os conduziu para fora do cativeiro em uma viagem pelo deserto que os levaria para a Terra Prometida. Três meses depois, Deus disse para Moisés avisar ao povo que se encontraria com eles. Moisés falou-lhes sobre os limites que tinham que respeitar porque a grandiosa presença de Deus se aproximaria deles. Eles alegremente concordaram em se encontrar com Deus. Mas quando realmente viram a manifestação de Deus tão próxima, eles ficaram aterrorizados.

Todo o povo presenciou os trovões, e os relâmpagos, e o clangor da trombeta, e o monte fumegante; e o povo, observando, se estremeceu e ficou de longe. Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. Respondeu Moisés ao povo: Não temais; Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis (Êxodo 20.18-21).

Não é interessante que Moisés é aquele que diz ao povo para não ter medo? A graça de Deus havia trabalhado poderosamente em seu coração, não é mesmo? Se você usar a sua imaginação, não terá muita dificuldade para entender por que os israelitas reagiram da forma como o fizeram. Seus sentidos estavam sendo sobrecarregados pelos trovões, relâmpagos, trombetas, fumaça e o chão estremecendo sob os seus pés. Se eu tivesse sido um deles, eu provavelmente teria saído dali bem depressa também. As pessoas tinham medo de Deus e decidiram que seria melhor deixar Moisés lidar com ele sozinho. Então Moisés poderia simplesmente fazer um relato para eles depois. Esse Deus, Jeová, era um pouco assustador e incontrolável demais para eles. Como o escritor C. S. Lewis disse sobre o leão Aslam, que representa Jesus Cristo na série de livros As Crônicas de Nárnia: “Ele não é um leão domesticado”.  Esse temor servil que eles sentiram em relação a Deus só geraria mais medo, pecado e afastamento dele. Seria a fonte de sofrimentos e fracassos multiplicados.

No capítulo 9, falarei sobre o tipo certo de temor de Deus – o tipo de temor que nos atrai para ele em vez de nos afastar dele. O que chamaremos de temor piedoso é ordenado na Bíblia em muitas passagens, como veremos. O temor piedoso é também um dos principais passos para se vencer o que chamaremos, a partir de agora, de temor pecaminoso. Por favor, lembre-se de que ao chamarmos o nosso temor de pecaminoso, eu não estou condenando você. Em vez disso, eu estou tentando ajudá-la a ver claramente o plano de Deus para mudá-la e libertá-la. Essa mudança começa com o reconhecimento da sua necessidade por um Salvador… e nenhum de nós realmente faz isso até vermos que somos pecadores, necessitados de perdão e graça.

Ajudá-la a enxergar o pecado do seu medo pode parecer uma coisa cruel a se fazer. Afinal, você provavelmente não acha que precisa de algo mais para ter medo! Será que agora você deveria temer a ira ou a desaprovação de Deus, além de todos os seus outros medos? Um dos objetivos deste livro é ajudá-la a diferenciar entre o temor que é bom ou piedoso e o temor que é ruim ou pecaminoso. Eu quero encorajar o bom tipo de temor em você – você aprenderá que é esse tipo de temor, juntamente com amor e graça, que desatará as amarras que a prendem tão fortemente hoje. Então, por favor, não tenha medo de olhar para o seu temor pecaminoso, porque é fazendo assim que você encontrará a forte e amorosa ajuda de que precisa.

“Temi o povo” – Saul

Durante o período inicial da história da nação de Israel, um homem chamado Saul se tornou o primeiro rei. Desde o início, a vida de Saul foi marcada pelo medo. Quando Samuel, o sacerdote, foi pela primeira vez ungir Saul como rei, você consegue adivinhar onde ele estava? Será que Saul estava em oração, humilhando-se diante de Deus? Será que ele estava servindo o povo que ele lideraria? Não, Samuel encontrou Saul escondendo-se, com medo, entre alguns carros e carroças.

Saul estava com medo de fazer o que Deus o havia chamado para fazer. Ele não se sentia à altura da tarefa. Certamente, assumir uma posição de grande responsabilidade pode ser intimidador. Mas Saul havia se encontrado com Deus. Samuel também havia dito a Saul que essa era a vontade de Deus… e, ainda assim, Saul se escondeu. Talvez, como Adão, ele pensou tolamente que poderia se esconder de Deus e ignorar o seu plano.

Mais tarde, quando Saul foi para a guerra contra os inimigos de Deus, ele cedeu novamente ao seu temor pecaminoso. Em uma ocasião, ele ficou ansioso quando Samuel não chegou para oferecer orações e sacrifícios pela vitória do povo na batalha, então ele quebrou a lei de Deus e ofereceu ele mesmo os sacrifícios. Em outra ocasião, quando ele deveria matar todos os inimigos de Deus, incluindo o gado, ele desobedeceu a Deus porque ele temia o descontentamento dos israelitas. Aqui está como ele justificou a si mesmo quando Samuel o confrontou:

“Vendo que o povo se ia espalhando daqui… forçado pelas circunstâncias, ofereci holocaustos” (1 Samuel 13.11-12).

“Pequei, pois transgredi o mandamento do SENHOR e as tuas palavras; porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz” (1 Samuel 15.24, grifo da autora).

Saul desobedeceu duas vezes às ordens de Deus porque estava com medo do povo. Ao ceder aos seus medos, Saul estava revelando os seus verdadeiros pensamentos sobre Deus – se poderia confiar nele, obedecê-lo e depender dele. Saul nunca teria dito que achava Deus mentiroso ou não confiável; não, ele apenas agiu assim. O relato da vida de Saul é uma das histórias mais tristes de toda a Bíblia. No final, ele se suicidou porque temia o que os seus inimigos poderiam fazer contra ele.

Saul lutou contra muitos medos diferentes, mas principalmente contra o temor de homem. Esse medo é um problema muito comum a quase todos. É a razão pela qual nós temos um frio na barriga quando precisamos falar na frente de uma multidão. É por isso que nossas mãos suam e nossa boca fica seca. É por isso que eu esqueci minhas falas e envergonhei meus colegas. O temor de homem é um problema comum enfrentado por muitos, inclusive muitas pessoas na Bíblia. Vamos tomar um momento para vermos outro exemplo, que envolve o apóstolo Pedro.

“Jesus?… Eu não conheço esse homem!” – Pedro

De todos os personagens do Novo Testamento, Pedro é aquele com quem eu mais me identifico. Sempre pronto para apresentar a sua opinião, falar antes de pensar e confiante sobre a sua fidelidade, eu consigo ver que somos farinha do mesmo saco. Ele cometeu muitos erros, mas houve um incidente em particular que provavelmente nunca tenha deixado de entristecê-lo quando ele o recordava.

Jesus estava se tornando cada vez mais popular entre as multidões. Parecia que elas o amavam tanto que fariam dele seu rei. Por outro lado, os líderes religiosos de Israel estavam se tornando cada vez mais firmes em seu ódio e inveja por ele. Eles estavam determinados a matar Jesus – tudo o que tinham que fazer era encontrar uma maneira.

Na noite em que foi traído, Jesus e seus amigos estavam indo orar no Jardim do Getsêmani. “Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo”, disse ele. Pedro, com seu jeito típico, protestou: “Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim… Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei”, afirmou (Mateus 26.33,35).

Nós todas sabemos como essa história se desenrolou, não é mesmo? Naquela noite, Jesus foi preso e levado para a casa do sumo sacerdote para interrogação. Enquanto Pedro tentava se manter aquecido pelas fogueiras do lado de fora, uma criada o acusou de ser um dos seguidores de Jesus. Tomado pelo medo, Pedro disse: “Não sei o que dizes”. Mais tarde, outra criada disse: “Este também estava com Jesus, o Nazareno”, e dessa vez ele negou com um juramento – “Não conheço tal homem”. Um pouco mais tarde, um grupo de espectadores veio até ele, dizendo: “Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia” (Mateus 26.73). Dessa vez, Pedro estava determinado a parar com o questionamento, então ele “começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem!” (Mateus 26.74). O medo de Pedro foi tão forte que o fez negar o Salvador que amava.

A escuridão daquela noite e o seu fracasso, sem dúvida, espalharam a tristeza como uma mortalha sobre o coração de Pedro por três dias até ele ouvir sobre a ressurreição. Você pode imaginar o tormento de sua alma ao recordar a bondade de seu senhor e a vergonha de seus atos temerosos? Você pode imaginar quantas vezes ele deve ter ensaiado suas palavras covardes em sua mente – Eu não conheço esse homem! Eu não conheço esse homem! E depois houve o olhar entre ele e Jesus após a terceira negação. A Bíblia registra essa troca de olhar expressiva de forma muito simples: “Voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro” (Lucas 22.61). Pedro experimentou toda força das consequências do seu medo e, se não fosse pela ressurreição, perdão e restauração de Jesus, ele nunca teria se recuperado. Mas ele se recuperou, continuou a pregar diante de milhares de pessoas e enfrentou morte de mártir com grande coragem. O que poderia mudar um homem medroso e que pragueja em um homem que podia descansar, confiar e agir com grande heroísmo? Apenas um relacionamento com o Deus vivo.

Você consegue enxergar que nós somos como Pedro e Saul? Por um lado, sabemos que Deus é poderoso e cheio de amor por nós, mas, por outro, frequentemente nos encontramos tomadas pelo medo daqueles que nos rodeiam. Parece que, nessa área em particular, estamos cheias de contradições. Podemos negligenciar oportunidades de testemunhar a outros ou nos tornar mais preocupadas com o que os nossos colegas de trabalho pensam do que com o que Deus pensa. Todo cristão verdadeiro anseia por irradiar luz diante dos outros, mas quando se trata de realmente sermos luz, frequentemente nos escondemos como Saul ou negamos que sequer conhecemos o Senhor, como Pedro. Visto que o temor de homem é uma armadilha tão comum e dolorosa, vamos analisá-lo no capítulo 5.

De covardes relutantes a heróis fiéis

Como você pode ver, até os grandes heróis bíblicos como Abraão, Moisés e Pedro não foram sempre marcados por grande bravura. Mas eu não estou dizendo que todo o povo de Deus foi sempre vencido por seus medos – existem muitos Daniéis, Sadraques, Marias e Paulos na Escritura para nos mostrarem que Deus pode mudar corações e vidas. Você pode se alegrar nisso. Mas você também pode se consolar com o fato de que Deus ama chamar o coração temeroso para si. Deus tem trabalhado na vida de seus filhos de forma consistente ao longo da história: ele lhes trouxe paz em meio a tempestades violentas, coragem ao confrontar inimigos esmagadoramente poderosos e confiança diante de acusações e perseguições. Ele os ajudou a comparecerem diante de juízes e reis hostis. Ele lhes deu a ousadia sobrenatural para “fecharem as bocas dos leões”. Se ele é capaz de ajudar seus filhos nas circunstâncias extraordinariamente difíceis descritas na Bíblia, ele pode lhe dar tranquilidade e alegria à medida que você enfrenta as pressões do dia a dia que ameaçam oprimi-la.

Por que Deus tem prazer em nos ajudar a nos tornar filhas confiantes, cheias de paz e ousadia, filhas que se apoiam em sua força? Porque quando ele transforma corações como os nossos em corações como o dele, ele recebe louvor e glória. Quando descobrimos que somos capazes de caminhar pacificamente através das condições que anteriormente nos aterrorizavam, nosso coração transborda de gratidão e ações de graças – e isso traz alegria a Deus. Somente ele pode mudar corações que são frequentemente tomados pelo medo em corações que são inundados por seu poder e bravura, e ele se agrada em fazer assim.


Este artigo é um trecho adaptado com permissão do livro Vencendo medos e ansiedades, de Elyse Fitzpatrick, Editora Fiel.

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Autor: Elyse Fitzpatrick

Elyse Fitzpatrick é conselheira bíblica no Institute for Biblical Counseling and Discipleship, na Califórnia, e possui mestrado em Aconselhamento Bíblico no Trinity Theological Seminary. Elyse é coautora do livro Pais Fracos, Deus Forte.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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