terça-feira, 24 de maio

Liderando com convicção

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Quando o líder entra na sala, é melhor a paixão pela verdade entrar com ele. Liderança autêntica não surge do vácuo. A liderança que mais importa tem convicção—profunda convicção. Essa qualidade de liderança nasce das mais profundas crenças que moldam quem somos e estabelece nossas crenças a respeito de tudo o mais. Convicções não são apenas crenças; isso é, elas não são aquelas crenças nas quais nós meramente nos seguramos. Em vez disso, são as convicções que nos seguram sob seu controle. Nós não saberíamos quem somos a não ser por essas crenças fundamentais, essas convicções, e sem elas não saberíamos como liderar.

Líderes cristãos reconhecem que convicção é essencial a nossa fé e discipulado. Nossa experiência cristã começa quando cremos. Aquele mais familiar dos versículos neotestamentários, João 3.16, nos diz que Deus enviou Jesus Cristo, seu único Filho, “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Quando Paulo e Silas contaram ao seu carcereiro atemorizado como ele podia ser salvo, eles expressaram isso com poderosa e inconfundível simplicidade: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (Atos 16.31).

A ordem para crer é central na Bíblia. O Cristianismo é fundado sobre certas verdades não-negociáveis, e estas verdades, uma vez conhecidas, são traduzidas em crenças. As crenças que são âncoras para nossa fé são aquelas as quais nós somos mais apaixonadamente e pessoalmente comprometidos, e estas são nossas convicções. Não cremos em crença mais do que temos fé em fé. Nós cremos no evangelho, e temos fé em Cristo. Nossas crenças têm substância e nossa fé tem um objeto.

Simplificando, uma convicção é uma crença da qual estamos completamente convencidos. Não quero dizer que nós meramente cremos que um determinado conjunto de afirmações é verdade, mas que estamos convencidos de que essas verdades são essenciais e transformam vidas. Nós vivemos essas verdades e estamos dispostos a morrer por essas verdades.

Considere Pedro e João, os dois Apóstolos que, apenas alguns dias após a morte e ressurreição de Cristo, tiveram a coragem de enfrentar o Sinédrio e desafiar sua ordem de não pregar em público a respeito de Jesus. Eles disseram às autoridades que os prenderam que eles simplesmente não podiam parar de contar o que tinham “visto e ouvido” (Atos 4.20). Essas mesmas crenças são as convicções que não permitem que líderes cristãos fiquem em silêncio hoje, mesmo diante de ameaças e oposição.

Justino Mártir, um dos líderes da igreja primitiva, também serve como um retrato de liderança com convicção. Ao liderar membros de sua própria congregação para execução nas mãos das autoridades romanas, Justino encorajava seu povo com essas palavras: “Lembrem, eles podem nos matar, mas eles não podem nos ferir.”

Agora, isso é liderança autêntica na sua forma mais clara—liderança que lidera pessoas às suas mortes, sabendo que Cristo irá vindicá-las e dar a elas o dom da vida eterna. Felizmente, a maioria de nós nunca terá de experimentar esse tipo de desafio de liderança.

Contudo, as convicções permanecem as mesmas, e também a função desses comprometimentos na vida e pensamento do líder. Sabemos que essas coisas são tão verdadeiras que estamos dispostos a arriscar por elas, viver por elas, liderar por elas, e, se necessário, morrer por elas.

A liderança que realmente importa é inteiramente sobre convicção. O líder se preocupa, com razão, com tudo, desde estratégia e visão para construir o time, motivação, e delegação. Mas no centro do coração e mente do verdadeiro líder você encontrará convicções que impulsionam e determinam tudo o mais.

Eu encontro muitos dos meus mais encorajadores e informativos modelos de liderança com convicção na história. Durante minha vida, eu tenho tirado inspiração do exemplo de Martinho Lutero, o grande reformador do século XVI que era tão convicto da autoridade da Bíblia que estava disposto a comparecer perante a intimidadora côrte das autoridades religiosas que o colocaram em julgamento, e até mesmo de enfrentar o santo imperador romano, declarando, “Aqui eu me firmo, não posso fazer de outro modo, que Deus me ajude.”

Aqui eu me firmo. Estas palavras são um manifesto de liderança com convicção. Mas Lutero não estava apenas preparado para se firmar; ele estava preparado para liderar a igreja em um processo de reforma corajosa.

Quando eu era um adolescente, eu assisti o filme O Homem que Não Vendeu sua Alma, baseado na peça de teatro de Robert Bolt. A história diz respeito aos últimos anos do Sir Thomas More e seu julgamento sob acusação de traição. Como antigo Lorde Chanceler da Inglaterra, More ganhou a fúria do Rei Henrique VIII por se recusar a fazer o Voto de Supremacia, o qual declarava o rei ser o supremo governador da igreja. Mais tarde, soube que More tinha ele próprio perseguido os Luteranos e William Tyndale, o grande tradutor da Bíblia para o Inglês. A versão de Bolt de Thomas More não contava toda a verdade, mas desde a primeira vez que vi aquele filme até hoje, ainda me sinto inspirado pelo exemplo de More ao ir para o cadafalso para ser fiel às suas convicções. Diante da multidão reunida para testemunhar sua execução, More disse: “Recebi a ordem do rei para ser breve e, uma vez que sou o servo obediente do rei, breve eu serei. Morro como bom servo de Sua Majestade, mas de Deus primeiro.”

Esse é o tipo de convicção que faz toda a diferença. Infelizmente, muitos dos líderes de hoje parecem ter pouca ideia do que eles crêem, ou parecem não ser motivados por convicções claras e discerníveis. Quantos dos líderes de hoje são conhecidos pelas convicções pelas quais estão dispostos a morrer—ou até mesmo viver?

Você pode dividir todos os líderes entre aqueles que meramente ocupam um cargo ou posição e aqueles que possuem convicções profundas. A vida é muito curta para dar muita atenção a líderes que defendem pouco ou nada, líderes que estão procurando pelo próximo programa, utilizando a última novidade de liderança, testando ideia atrás de ideia, mas movidos por nenhuma convicção profunda.

Eu quero ser um líder que importa, que lidera de forma que faça a diferença precisamente porque essas convicções importam. Se você pensar, quase todo líder que agora é lembrado por ter feito a diferença na história foi um líder cujas convicções sobre a vida, liberdade [1], verdade, e dignidade humana mudaram a história.

Essa é a única liderança que importa. Líderes de convicção impulsionam ação precisamente porque são movidos por convicções profundas, e a paixão deles por essas convicções é transferida para os seguidores, que se unem em coro para fazer o que sabem ser o certo. E, eles sabem o que é certo porque sabem o que é verdade.

Como pode qualquer líder Cristão ficar satisfeito com qualquer coisa que seja menos do que isso? Posições, cargos, e títulos desbotam mais rápido que tinta.

Uma vez levei meu filho, Christopher, em uma viagem à cidade de Nova Iorque. Em vários pontos, nos percebemos olhando para estátuas e monumentos de homens que foram, em algum momento, famosos ou poderosos. Muitos desapareceram da memória de todos, e a aparência deles agora se mistura com a paisagem de Nova Iorque, com milhões passando por eles sem nem dar atenção por um instante.

A maioria dos Americanos consideram que o presidente dos Estados Unidos ocupa o mais alto cargo imaginável da liderança secular. Mas quantos Americanos podem nomear sequer vinte ou trinta dos quarenta e cinco homens que ocuparam esse cargo? Qual foi a última vez que você ouviu alguém mencionar Chester A. Arthur ou William Henry Harrison?

Lembramos daqueles que foram conhecidos por suas convicções e pela coragem que aquelas convicções produziram. Este mesmo princípio pode ser estendido a cada cargo ou posição imaginável de liderança. Sem convicção, nada verdadeiramente importa, e nada de importância é passado adiante.

Acredito que liderança é sobre colocar as crenças certas em ação, e sabendo, na base de convicções, quais essas crenças certas e ações são. Muito do que se passa por liderança hoje é puramente administração. Você pode ser apto para administrar sem convicções, mas você não pode verdadeiramente liderar.

Para líderes cristãos, esse foco em convicção é de ainda maior importância. Não podemos liderar de uma forma que não seja fiel a Cristo e efetivo para o povo de Cristo se não formos profundamente investidos na verdade Cristã. Não podemos liderar fielmente sem antes crermos fielmente—e se não formos profundamente comprometidos com a verdade Cristã.

Ao mesmo tempo, existem muitos Cristãos que se sentem chamados para liderar e são apaixonadamente comprometidos com todas as verdades certas, mas eles simplesmente não estão certos de onde partir daqui. O ponto de partida para a liderança Cristã não é o líder, mas as verdades eternas que Deus revelou a nós—as verdades que permitem que o mundo faça sentido para nós, enquadram nossos entendimentos, e nos impulsionam a agir.

O Apóstolo Paulo encorajou os Tessalonicenses a saber que o evangelho tinha chegado a eles, “[não] tão somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção” (1 Ts 1.5). Como líder Cristão, isso é o que eu espero e oro que seja verdade sobre mim—e sobre você também. Quero liderar “em plena convicção.”

Publicado originalmente em Ligonier Ministries.

Tradução: Melanie de Bessa. Revisão: Pedro Henrique Lima de Oliveira.


Autor: Albert Mohler Jr.

Albert Mohler Jr. é reconhecido como um dos líderes mais influentes dos Estados Unidos pelas revistas Time e Christianity Today. Possui um programa no rádio que é transmitido em mais de 80 estações em todo o país. É presidente da escola mais importante da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, a Southern Baptist Theological Seminary.

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