domingo, 14 de agosto

O medo e suas consequências | parte 2/3

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O texto abaixo foi extraído do livro Vencendo Medos e Ansiedades, de Elyse Fitzpatrick, da Editora Fiel.

O Medo é Habitual

Judith, uma mulher que lutava contra um medo habitual, trabalhava como assistente de enfermagem em uma casa de repouso local. Como Kathryn, ela tinha uma forte fé em Deus e queria agradá-lo. Ela veio falar comigo porque estava tendo problemas em seu trabalho. Ela descobriu que toda vez que entrava no quarto de um paciente gravemente doente, ela se sentia dominada pelo terror. Seu corpo reagia com sintomas como coração acelerado, dor no peito, falta de ar e fraqueza. Ela ficava aterrorizada com a possibilidade de desmaiar, assustar seus pacientes ou machucá-los de alguma maneira. Ela se sentia fora de controle e pensava que pudesse estar ficando louca. Eu poderia dizer que ela realmente gostava do seu trabalho, mas tinha medo de que tivesse que mudar de carreira. Na verdade, seus problemas com alguns pacientes se tornaram tão graves, que eles haviam criado ressentimentos com os outros auxiliares de enfermagem e conflitos com o supervisor dela.

Ao discutirmos sobre as suas dificuldades, ela disse que havia tentado superar seus medos orando todas as manhãs e pedindo a Deus para ajudá-la a não pensar sobre o seu medo. Ela não estava consciente de nenhum pensamento de medo que pudesse disparar seus sentimentos de pânico; parecia que eles simplesmente haviam vindo do nada.

O medo, como tudo na vida, pode se tornar habitual. Na verdade, ele pode se tornar um hábito tão arraigado que, de fato, parece que veio do nada. Pessoas que sofreram o que comumente chamamos de ataques de pânico relatam ocorrências repentinas de intensa ansiedade que não parecem ter qualquer fundamento em seus pensamentos. Essa experiência intensa pode parecer tão misteriosa e desconcertante que o medo dela pode facilmente se tornar um fator controlador na vida de um sofredor.

Deixe-me ilustrar como respostas emocionais podem se tornar habituais. Pense sobre o processo de descer um lance de escadas. Quando você usa as escadas pela primeira vez, está consciente de cada passo e observa atentamente onde está pisando para não cair. Mas se as escadas se tornarem parte da sua rotina diária, você desenvolverá rapidamente o hábito de descer por elas sem pensar. Você pode até mesmo ser capaz de manter uma conversa ou ligar para alguém enquanto desce os degraus nos quais um dia teve que se concentrar. Às vezes, você nem mesmo estará consciente deles. Na verdade, se você for do tipo atlético, talvez você até pule dois ou três degraus de uma vez. Ou talvez você se sente no corrimão e deslize sobre ele apenas por diversão.

Agora, se na primeira tentativa de descer as escadas, você tivesse imaginado como seria saltar do topo até a parte inferior de uma só vez, então você provavelmente ficaria com medo e desenvolveria sentimentos de nervosismo à medida que efetivamente descesse. Se o seu medo persistir, ele pode se tornar habitual. Mesmo que em sua mente você saiba que o seu medo é irracional, ainda assim ele terá um efeito sobre você devido à forma como você permitiu que a sua percepção fosse influenciada pela sua imaginação.

Agora, um ataque de pânico é como saltar do topo da escada até o chão em nosso processo de pensamento. Ao invés de encararmos uma situação, degrau por degrau (como deve ser ao andar em uma escada), nós saltamos rapidamente de nosso pensamento inicial ao completo pânico.

Por exemplo, Judith ficou surpresa quando se lembrou de que a primeira vez que havia experimentado uma sensação de pânico foi quando tentara cuidar de seu pai cronicamente doente e demasiadamente exigente. Ela o amava e estava com medo de que pudesse desagradá-lo ou machucá-lo ao medicá-lo de forma errada. Quando criança, ela reagia com medo a situações que requeriam algum tipo de cuidado de sua parte. Quando refletiu sobre a sua infância, ela percebeu que havia se tornado uma enfermeira porque gostava de ajudar os outros, mas ela ainda nutria ansiedades quanto a cometer um erro ou ser desaprovada por outros. Ela não estava consciente de seus medos durante a sua adolescência ou anos universitários, mas quando voltou a cuidar de pessoas gravemente doentes, ela respondeu exatamente como fazia quando criança. Você pode ver como o medo de Judith, embora irracional, tinha sua base em um pensamento racional e em uma experiência?

Enquanto conversávamos, Judith lembrou-se de outra situação que parecia pertinente. Quando ela começou a trabalhar na casa de repouso, um de seus pacientes teve, subitamente, uma parada cardíaca. Judith lidou corretamente com a situação e notificou o seu supervisor, mas depois ela repassou o incidente vez após vez em sua mente. Ela foi assombrada por pensamentos como: “E se o homem tivesse morrido? E se o supervisor não pudesse ajudá-lo? Será que eu seria responsável pelo problema dele? Como eu poderia encarar a família de um paciente ou a mim mesma se um paciente morresse?”. Essas questões, e outras como essas, atormentaram seus pensamentos por vários dias até o incidente desaparecer da sua memória. Foi só quando ela começou a lutar contra os ataques de pânico nos leitos de seus pacientes é que ela tomou conhecimento do poderoso efeito que essa experiência anterior havia tido sobre ela.

Pessoas que sofrem com ataques de pânico frequentemente relatam sensações semelhantes. Parece que, sem qualquer tipo de alarme ou premeditação, o corpo começa a bombear adrenalina. Isso é o que faz com que os ataques de pânico e certos tipos de fobias, como o medo de altura ou de espaços fechados, sejam tão difíceis de entender. A maioria dos que sofrem com isso não estão conscientes de quaisquer pensamentos que predispõem a sensação de medo. Ela simplesmente parece vir do nada. No entanto, ao invés de ser terrivelmente misteriosa, a verdade sobre os ataques de pânico e sobre os medos é realmente muito fácil de se entender. As pessoas os experimentam porque desenvolveram um hábito. Quando estão em qualquer situação, elas nem sequer precisam pensar sobre os seus medos – elas simplesmente reagem. A mente funciona de forma tão rápida e habitual que, mentalmente, essas pessoas saltam do degrau superior para o degrau inferior sem qualquer esforço. Isso, por sua vez, as leva a pensar que suas emoções estão fora de controle, ou que elas estão ficando loucas. Elas, então, começam a tentar evitar essas

situações “fora de controle”, o que permite que o hábito se torne cada vez mais paralisante.

Algumas pessoas lutam contra medos em situações sociais. Elas temem dizer ou fazer algo que pareça tolo e, então, elas evitam-nas. Outras têm medos em relação à doença ou morte, enquanto outras temem ter que falar com estranhos ou diante de um grande público. Algumas pessoas evitam relacionamentos íntimos, mesmo que estejam solitárias e desejem se casar, simplesmente porque estão com medo de cometer um erro ou de ser desapontadas. Existem diferentes formas de medo para diferentes situações na vida.


Autor: Elyse Fitzpatrick

Elyse Fitzpatrick é conselheira bíblica no Institute for Biblical Counseling and Discipleship, na Califórnia, e possui mestrado em Aconselhamento Bíblico no Trinity Theological Seminary. Elyse é coautora do livro Pais Fracos, Deus Forte.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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