quinta-feira, 7 de julho

Participe das provações de outros membros da igreja

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E se eu lhe dissesse que uma imaginação saudável é essencial para ser um bom membro de igreja? Você pode pensar que eu preciso ler menos Lewis e Tolkien e mais artigos do 9Marcas. Mas estou falando sério. A imaginação não fornece apenas uma porta para o mundo fantasioso dos contos de fadas; ela também fornece um caminho para entender a dor e as perplexidades dos membros da igreja.

Os clichês culturais apontam nesse ponto: “Ela vive indiretamente através de seus filhos”, dizemos. Até inventamos palavras para descrever essa capacidade imaginativa. Um “escapista” é alguém que busca distração e alívio de realidades desagradáveis imaginando viver uma vida diferente, muitas vezes a de outra pessoa.

Como crentes, nossa imaginação foi redimida. A imaginação não é mais uma maneira de escapar para o irreal, mas uma maneira de participar da realidade de outros santos sofredores.

A Bíblia está cheia de mandamentos para fazer isso:

  • Chorem com os que choram (Rm 12.15).
  • Lembrem-se dos presos como se estivessem presos com eles (Hb 13.3).
  • Levem as cargas uns dos outros (Gl 6.2).
  • Considerem como estimular uns aos outros e encorajar uns aos outros (Hb 10.24-25).

Tais mandamentos implicitamente exigem que, até certo ponto, sintamos o luto por um bebê que nasceu morto, a paralisia da prisão e o fardo da luta de nossos irmãos contra o pecado. Quando Hebreus nos exorta a considerar, está nos exortando a imaginar. O escritor está nos ordenando a imaginar a situação de nosso irmão ou irmã de tal forma que, com a ajuda do Espírito, possamos incitá-los ao amor e às boas obras. Para fazer isso de forma plena e frutífera, devemos lembrar: se um membro sofre, todos sofrem juntos (1Co 12.26).

Ao encontrarmos santos sofredores em nossa igreja, muitas vezes pensamos: preciso de sabedoria para esta conversa. Não queremos fazer a pergunta errada ou dizer a coisa errada. Eu gostaria de sugerir que as boas perguntas vêm com menos frequência da sabedoria espontânea e mais do tempo para pensar ou imaginar como participar das provações do outro.

Venha, imagine comigo

Vamos imaginar juntos. Alguém em sua igreja lida com dor crônica? Vamos imaginar como é a vida deles.

Você já prendeu os dedos na porta da frente de sua casa? E se você não conseguisse tirá-los dali? Todo mundo já deu sugestões e você tentou todas, mas ainda assim seus dedos estão presos. Durante semanas mantém uma atitude esperançosa. “Talvez amanhã será melhor”, você diz para si.

Três meses se passam e você começa a se acostumar com sua situação. A dor, no entanto, é apenas parte dela. Você sente falta de fazer coisas que costumava fazer: trabalhar, sair com sua esposa, levar seus filhos ao parque, ensinar na escola dominical. Você diz a si mesmo: “Está tudo bem. As coisas são apenas diferentes agora. Eu só tenho que encontrar um novo normal”. Então, você encontra uma nova maneira de passar tempo com sua esposa, brincar com seus filhos e servir à igreja.

Mas sair para trabalhar está fora de questão. Você não pode “sair para trabalhar” com os dedos presos na porta. Então você começa a sonhar em como poderia trabalhar em casa se pudesse aprender a digitar rapidamente com uma mão. Ou, talvez, você possa comprar algum software de reconhecimento de voz. Após vários meses de tentativas fracassadas, desiste dessa miragem idealista.

Seu novo normal significa um novo normal para sua família. Seus filhos e esposa estão fazendo o possível para se adequar. Suas expectativas lentamente se ajustam. Você gosta de brincar com seus filhos por 15 minutos; até esquece seus dedos por um tempo. Mas em pouco tempo, depois de tanto se movimentar e se divertir, a dor aumenta.

Sua esposa está fazendo o melhor que pode. Ela tem uma boa atitude quanto a cuidar de todas as responsabilidades familiares. Além disso, agora ela também está cuidando de você. Você não pode mais se vestir, tomar banho ou até mesmo cortar as unhas dos pés. Ela se arruma para seus “encontros à porta”, mesmo que você não possa ir a lugar nenhum. O mais difícil para ela, porém, é a sua incapacidade de ouvi-la. A dor comanda sua concentração.

Seu médico tenta ajudar. Ela prescreve medicamentos e vários remédios. Mas nada disso pode realmente tirar seus dedos da porta.

Com o passar dos meses, você começa a perceber que a medicação tem alguns efeitos negativos. Ela distorce sua personalidade. Faz você se sentir de ressaca pela manhã. Arruína sua capacidade de concentração; alimenta pesadelos. Mas sem isso, você não pode ser pai ou marido de forma significativa, porque os dias de se acostumar com a dor já se foram.

Até agora, você está desgastado. Só quer seus dedos fora da porta. E se mais um membro da igreja bem-intencionado, com as duas mãos nos bolsos e um sorriso no rosto, disser “Como está sua dor hoje?”, você pode perder a linha!

Alguns princípios

Alguns princípios que se aplicam ao sofrimento a curto e longo prazo.

  1. “O problema” não é o problema principal.

Considere um homem que é demitido e fica desempregado por um tempo. O julgamento que se segue não é a perda de seu emprego em si. Mais significativo é o fato de que ele não tem mais dinheiro para pagar as contas. Sua família não mais desfruta de estabilidade financeira. Internamente, agora ele não tem propósito, principalmente se seu desemprego se prolongar. Ele se sente derrotado pelo silêncio ensurdecedor de esperar por mais uma resposta ao seu currículo.

  1. Assuma o fardo da pergunta sobre si mesmo.

Quando perguntamos a um santo sofredor “Como você está?” ou “Como foi sua semana?”, estamos inadvertidamente pedindo a eles que “considerem”. Essas perguntas podem indicar que não consideramos genuinamente a situação deles. Nós os vemos no corredor da igreja. Sabemos que eles não estão indo bem, então dizemos a primeira coisa que vem à mente. Sabemos por experiência que perguntas inexatas, do tipo “como foi sua semana?”, são difíceis de responder. Quem anda por aí com a semana inteira na mente? Além disso, é improvável que seja respondida genuinamente enquanto você corre, atrasado para a Escola Dominical.

  1. Não transforme a pessoa no problema.

Nossa pergunta para alguém passando por uma provação geralmente é: como você lidou com sua “situação” esta semana? Embora eles provavelmente tenham sido questionados sobre o câncer ou outra doença várias vezes naquela semana, ninguém provavelmente perguntou como eles estão espiritualmente. Mas lembre-se: seu irmão não é seu fardo. Sua irmã não é o sofrimento dela. Eles são cristãos que estão passando por uma provação e estão lutando por saúde espiritual.

Então, pergunte se eles conseguiram ler a Bíblia esta semana. Essa pergunta oferece uma oportunidade para tirar a mente do problema e encorajá-lo com o que está pensando nas Escrituras. Ou talvez ele lhes diga como a doença dificulta a concentração ou a leitura. Isso os ajudará a orar por eles e a fazer perguntas mais específicas no futuro.

  1. Deixe espaço para o lamento.

Assim como uma atmosfera ruim dificulta a respiração, uma pergunta ruim pode dificultar que uma irmã lhe diga com sinceridade como está. Quando não nos imaginamos na situação de nossa irmã em dificuldades, quando não sentimos sua frustração, nossas perguntas podem dar um ar de positividade que comunica nossa falta de consideração.

Por outro lado, a consideração fiel nos ajuda a acabar com a expectativa tácita de que nossa irmã deve ter algo positivo a relatar. Abre a porta para o lamento esperançoso. Quando a positividade permear a conversa, aqueles que estão no meio da provação sentirão — com ou sem razão — que você não “entendeu”. Quando, porém, nos deixamos sobrecarregar pela imaginação, nossas perguntas virão com uma solenidade que muitas vezes não só abre a porta para o lamento, mas também para o louvor.

  1. Lembre-se de que as pessoas não são isoladas.

Nosso sofrimento normalmente causa sofrimento para aqueles que amamos. Lembra do irmão que perdeu o emprego? Incentive sua esposa a escrever para a esposa desse irmão um cartão com Mateus 6.25 em diante nele. Proporcione um momento para que sua esposa a leve para tomar um café e descobrir como ela está e se precisa de ajuda financeira.

  1. Sempre considere, mas raramente compare (pelo menos em voz alta).

Ao considerar o sofrimento de outra pessoa, muitas vezes o comparamos com nossas experiências passadas, com um bom desejo de nos identificar com ela. Essa prática raramente encoraja as pessoas em meio ao sofrimento. Lembra da ilustração dos dedos na porta? Após cerca de 6 meses, como você acha que seria ajudado por alguém dizendo: “Sabe de uma coisa, certa vez eu fiquei com os dedos presos na porta”?

Advertência e conclusão

Será que estou dizendo que você precisa imaginar e sentir as provações detalhadas de cada um de seus irmãos enquanto ora com base no diretório de membresia de sua igreja? Não. Somos finitos; não podemos fazer muito. Deus sabe que somos pó.

Mas estou sugerindo que a fidelidade requer que não nos contentemos em manter as dores, fardos e tristezas do corpo à distância. A consideração fiel requer uma contemplação imaginativa (Hb 10.25). Se as palavras de Paulo “se um membro sofre, todos sofrem com ele” um dia serão assimiladas em nossas igrejas, será através do trabalho da imaginação capacitada pelo Espírito Santo.

Publicado originalmente em 9 Marks.

Tradução: João Costa. Revisão: Renan A. Monteiro.


Autor: Derek Minton

Derek Minton é membro da Heritage Baptist Church em Owensboro, KY.

Parceiro: 9Marks

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O ministério 9Marks tem como objetivo equipar a igreja e seus líderes com conteúdo bíblico que apoie seu ministério.

Ministério: Ministério Fiel

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

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