quinta-feira, 7 de julho

Associe-se aos humildes

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Francis Grimké trovejou contra uma igreja que havia se perdido. O ano era 1898, e o pastor chamou sua igreja a se arrepender de sua hipocrisia. Ele disse:

O púlpito deve ser uma torre forte para toda causa fraca. As mulheres devem se apressar para a igreja, dizendo: Lá nossa causa será defendida. As criancinhas desabrigadas devem correr para o santuário, dizendo: Lá seremos bem-vindas. Os escravos fugitivos devem abrir a porta da igreja com a certeza de encontrar hospitalidade.[1]

O argumento de Grimké é simples: os humildes da sociedade devem encontrar consolo na igreja. Isso é verdade em sua própria vida? Isso é verdade em sua igreja? Você se associa com os humildes?

Quem são os humildes?

“Humilde”, para o propósito deste artigo, refere-se aos excluídos da sociedade. Os humildes são aqueles a quem a sociedade desaprova. Grupos de incluídos e excluídos não são novidades. Quando uma criança chega ao ensino médio, ela descobre todo um sistema de castas. Das escolas às ruas, dos bastidores às salas de reuniões, dos bairros às nações: ou você está dentro ou está fora.

Os excluídos mudam de acordo com nosso tempo e lugar. Nos dias de Jesus, havia vários excluídos com quem ele se associava com ousadia:

Excluídos étnicos: Jesus fala de um bom samaritano e mostra bondade para com a mulher samaritana junto ao poço.

Excluídos morais: Jesus interrompe o apedrejamento de uma mulher flagrada em adultério e mostra o perdão.

Excluídos cerimoniais: Leprosos vêm a Jesus e um perigoso endemoninhado corre para ele.

Excluídos imperiais: Um centurião romano deposita fé em Jesus quando este declara que ele tem mais fé do que todo Israel. Jesus convida um cobrador de impostos para seu círculo íntimo.[2]

Jesus e a humildade

Jesus descreve a si mesmo como humilde (Mt 11.29). Devemos lembrar que a humildade não era uma virtude nos dias de Jesus.[3] O mesmo termo é frequentemente usado para fazer referência a um status de grau inferior (Rm 12.16, Tg 1.9). Na humildade de Jesus, ele se associou com o excluído. Ele assumiu um status inferior. Os cristãos são chamados a fazer o mesmo.

Então, por que não nos associamos aos humildes? Principalmente por causa do nosso orgulho. A religião farisaica está cheia de orgulho e, como resultado, cheia de desdém para com os excluídos.

Pessoas orgulhosas não se associarão com os humildes, por alguns motivos:

1. O orgulho busca a honra

O orgulho diz: “Eu mereço o amor de Deus, outros não”. Na cultura de mídia social de hoje, estamos cheios de fanfarrões egocêntricos que exigem direitos. Em Lucas 14, Jesus é convidado à casa de um fariseu. Ele percebe a disputa por posição que está acontecendo e então diz: “Quando fores convidado, vai tomar o último lugar” (Lc 14.10).

A humildade não busca sua própria honra. Os cristãos não vivem para o louvor social. O que seu vizinho pensa de seu carro, sua casa, seus móveis e seus amigos não deve importar para você. O que importa não é nossa demonstração de esperança em um mundo que se esvai, mas sim nossa demonstração de esperança em um mundo vindouro.

2. O orgulho busca o benefício próprio

Enquanto Lucas 14 continua, Jesus se volta para o homem que o convidou e repreende sua lista de convidados:

Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado. Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos. (Lc 14.12-14)

Os orgulhosos convidam amigos que provarão ser um benefício. Convidam quem é conhecido para trazer uma boa sobremesa. Eles convidam bons parceiros de conversa. Eles convidam aqueles que os farão parecer bem. Eles convidam para o benefício próprio. Em contraste, o amor não busca o que é seu.

Em uma terrível reviravolta, Jesus finalmente nos diz que os orgulhosos estão excluídos do jantar eterno (Lc 14.24).

Quem vem para o jantar?

Jesus foi até os excluídos, e nós somos chamados a fazer o mesmo. Tiago 2.1-7 firmemente condena mostrar parcialidade para com os ricos — em outras palavras, o grupo dos incluídos. Os ricos precisam de Jesus tanto quanto os pobres. Jesus não o chama para se associar com os humildes e evitar os ricos. Em vez disso, ele chama todos nós à imparcialidade.

Eis aqui um estudo de caso: é domingo. Há dois convidados no culto da sua igreja. O primeiro é um jovem profissional. Ele é novo na sua cidade, trabalha em algum tipo de empresa e sua esposa está começando uma residência. Eles estão procurando uma nova casa para congregar. A outra visitante é uma mãe solteira dos conjuntos habitacionais populares. Ela é claramente uma pessoa de poucas posses. Sentindo-se um pouco deslocada, se senta silenciosamente em um canto isolado.

Pergunta: na sua igreja, quem é mais provável que receba um convite para almoçar? Qual visitante vai despertar entusiasmo? Quem é cercado após o culto? Quem será convidado para jantar essa semana?

Enquanto muitos de nós pensamos em nossas igrejas como lugares acolhedores, eu me pergunto se inconscientemente violamos Tiago 2.1-7. Eu me pergunto se elas são acolhedoras para com alguns e decididamente não são hospitaleiras para com outros.

Vale fazer a pergunta: em nossa hospitalidade e afeto, mostramos parcialidade? Lembramos os nomes do casal de classe média-alta. Até sabemos onde eles cursaram a faculdade. No entanto, nunca encontramos tempo para saber o nome daquela mãe solteira moradora dos conjuntos habitacionais. E isso já aconteceu mais de uma vez.

Não mostre favoritismo

A aplicação é simples: tenha como objetivo associar-se aos humildes. Quem são os excluídos em sua comunidade? Quem é esquecido? E quando eles vêm para o jantar?

Louvado seja Deus que não nos evitou. Quem são os humildes? Aqueles que não têm outra opção senão Jesus. Jesus disse: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5.3). O apóstolo Paulo, embora tenha escrito grande parte do Novo Testamento e sido o principal apóstolo de Deus para os gentios, considerava-se o pior dos pecadores. Todos os que vêm a Cristo se enxergam dessa maneira. Somos miseráveis espirituais que foram encontrados por um Salvador suficiente e misericordioso. Fomos salvos pelo amor de Deus, então nós que já fomos marginalizados espirituais devemos ir aos excluídos da sociedade e mostrar esse mesmo amor.

Conclusão

Vou encerrar com algumas palavras de agradecimento aos membros da minha própria igreja. Eric e Aisha se mudaram para um bairro deprimido para demonstrar hospitalidade motivada pelo evangelho entre os esquecidos. Mike e Bekah convidam sistematicamente traficantes de drogas para jantar em suas casas. Bethany visitou uma senhora idosa em uma casa de repouso e a amou em seus últimos dias. Alton e Mike fizeram um esforço para conhecer e amar todos os vizinhos em seu pequeno quarteirão em Baltimore. Carde escolhe se associar com os sem-teto depois do culto em vez de conversar com amigos.

Isso não é “nós servindo a eles”. Não se trata “dos que tem” ajudando “os que não tem”. Em vez disso, dizemos: “Não existe nós e eles”. Há apenas um bando de pessoas humildes, procurando fazer o bem a todos por causa de Cristo.

Publicado originalmente em 9 Marks.

Tradução: João Costa. Revisão: Renan A. Monteiro.

Notas:

[1] GRIMKE, Frances J. The Negro His Rights and Wrongs, The Forces for Him and Against Him. Cornell University Library, 1898

[2] É fácil romantizar os “excluídos” dos dias de Jesus. Nós nos perguntamos: “Como esses fariseus foram tão duros com eles?” Devemos tratar disso com humildade. Roma dominou Israel exigindo enormes impostos. Os cobradores de impostos eram judeus que vendiam seu próprio povo para obter lucro egoísta. Poderia facilmente ter ficado do lado dos fariseus que lutavam pela dignidade e pelos direitos de seu povo.

[3] Pensadores e escritores como John Dickson, no livro Humilitas, procuraram mostrar que o conceito moderno de humildade na verdade vem da pessoa, obra e vida de Jesus. No Império Romano, o oposto era verdadeiro. Virtude era buscar a própria honra e status.


Autor: Joel Kurz

Joel Kurz é o pastor principal da The Garden Church em Baltimore, Maryland.

Parceiro: 9Marks

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O ministério 9Marks tem como objetivo equipar a igreja e seus líderes com conteúdo bíblico que apoie seu ministério.

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Ministério Fiel: Apoiando a Igreja de Deus.

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