quarta-feira, 11 de março

Quando Deus faz nascer uma igreja no deserto

Conversão, perseguição e o nascimento da igreja

“Você se reúne com essas pessoas para adorar a Deus?”

Quando o policial me perguntou isso, estava se referindo a uma lista que já existia de nuriyahis conhecidos da polícia secreta — pessoas que haviam deixado o islamismo para serem seguidores de Jesus, os denominados “cristãos”.

***

Quando cheguei a Al-Nuriyah, em 2010, não havia nenhuma informação, de minha parte ou de outros missionários, de qualquer nuriyahi cristão residindo no país. Na cidade de Bahjat Al-Bahr, local de minha chegada, éramos apenas quatro famílias de missionários estrangeiros, e nenhum de nós tinha ouvido falar de alguma conversão. Nem mesmo os missionários que estavam na capital do país tinham conhecimento de nuriyahis cristãos. Essa era uma triste realidade. E, se houvesse (e esse é um grande “se”), estavam totalmente isolados de uma comunidade cristã, sem a presença de um pastor ou de alguém que pudesse caminhar junto, estudando a Palavra e ajudando na vida cristã.

O anonimato era sinônimo de preservação da vida porque, para um nuriyahi, servir a Cristo em seu país significaria enfrentar uma forte perseguição, não apenas por parte da família, mas também de toda a sociedade e até mesmo do governo.

Com o passar do tempo, fui conhecendo melhor os colegas missionários, tanto os que viviam na minha cidade como outros por todo o país. Quando trocávamos informações, era comum ouvir sempre as mesmas histórias:

— Estou discipulando um jovem universitário que parece estar realmente interessado em Jesus — dizia um.

— Estou orando com minha vizinha e ela me pediu uma Bíblia — dizia outro.

— Consegui apresentar o plano de salvação ao meu amigo esta semana — falavam.

E essas notícias sempre eram animadoras, principalmente em um contexto tão difícil e desafiador de fazer discípulos quanto aquele em que nos encontrávamos ali. Mas eu esperava, assim como todos os meus colegas, ver frutos e, quem sabe, participar do início da igreja nuriyahi.

Confesso que fiquei chocado quando, em 2013, conheci um casal de colegas missionários que havia vinte anos servia em Al-Nuriyah e disse que nunca tinha presenciado uma conversão naquele país.

O trabalho deles era um exemplo para toda a comunidade de missionários no país. Quanta dedicação, quanto esmero e quanta entrega! Eles falavam muito bem a língua, conheciam perfeitamente a cultura e semeavam a Palavra como ninguém.

Mas nós sabemos que os frutos, as conversões, são realmente obras de Deus. É ele quem chama e salva. E doía demais em mim saber que aquela nação atravessava tão grande deserto espiritual, de dunas tão altas, capazes de encobrir até mesmo a luz do sol, o que tornava os dias daquelas pessoas escuros como trevas.

***

Eu já morava em Al-Nuriyah e semeava a Palavra havia quatro anos quando, de repente, notícias de conversões começaram a brotar em meio a tamanha sequidão. A primeira vez que tive o prazer de escutar o doce som dessa notícia maravilhosa aconteceu na primavera de 2014.

Em um dia que parecia ser comum, como qualquer outro, Mohammad saiu de casa com sua esposa e seus dois filhos para verificar como estava indo a construção de sua nova casa. Quando constatou que o pedreiro já havia colocado os vidros nas janelas da casa, a felicidade que sentiu foi enorme. A obra estava se encaminhando para a reta final de conclusão.

Porém, toda aquela felicidade foi rompida acidental e repentinamente, junto a um grande vidro que se soltou de uma das janelas da obra e estilhaçou diretamente no rosto de sua filha, Khadija. Essa tragédia inesperada era o início de um grande plano de Deus na vida daquela família.

Encaminharam-se, então, para o hospital, onde Khadija passou por uma cirurgia no rosto e lutava pela vida. A menina havia perdido muito sangue e precisava de um milagre do Senhor. Pela graça de Deus, a cirurgia foi bem-sucedida e Khadija saiu da mesa de cirurgia com vida. Já estava dormindo no quarto do hospital, recuperando-se, enquanto Mohammad chorava, inconsolável, ao lado da filha, vendo sua princesa com o rosto todo enfaixado.

O quadro clínico de Khadija inspirava intensos cuidados e, no meio daquele drama, uma pessoa apareceu para visitá-la: o pedreiro que construía a casa para a família. Manoj veio da Índia para trabalhar em Al-Nuriyah e, ao passar aqueles meses construindo a casa de Mohammad, acabou tornando-se amigo da família.

Um detalhe importante nessa história é que Manoj é cristão e, ao entrar naquele quarto de hospital, ele brilhou a luz de Cristo, trazendo esperança para aquela família.

Quando Manoj viu o estado de Khadija em seu leito e o desespero de seu pai, perguntou a Mohammad se poderia orar pela vida de Khadija. Mohammad disse que sim, que sabia que somente Deus poderia agir na vida de sua filha naquele momento. Porém, o que Mohammad não esperava era que Manoj tivesse Jesus como seu Deus. Assim, ao final da oração feita por Manoj, Mohammad disse não entender como o profeta Jesus poderia ajudar sua filha.

Mas o fato é que Khadija melhorou significativamente após as orações de Manoj, e seu pai, Mohammad, sentiu algo naquele quarto que nunca havia sentido antes. Quando Khadija saiu do hospital, Mohammad procurou Manoj para conhecer mais sobre esse Jesus poderoso que havia curado a sua filha.

O problema é que Mohammad não falava híndi, a língua nativa de Manoj, e o vocabulário árabe de Manoj limitava-se ao âmbito da construção. Dessa maneira, Manoj não conseguiu explicar a Mohammad sobre as boas-novas de salvação. Mohammad estava inconformado em saber que havia um Deus tão poderoso, capaz de curar sua filha, e que ele não conhecia esse Deus. Ele havia sentido algo especial naquele quarto de hospital e queria sentir aquilo em todos os momentos.

Diante da situação, perguntou a Manoj se o rapaz se reunia com amigos para adorar a esse Deus e, ao ouvir um “sim” como resposta, demonstrou seu interesse em participar dessa reunião.

— Eu vou conversar com meus amigos sobre isso — respondeu-lhe Manoj, e completou: — Mas saiba, desde já, que esse encontro acontece em Al-Sakhara.

Al-Sakhara é uma cidade a 65 quilômetros de distância de Hajran, onde morava Mohammad. Mas isso não foi empecilho para ele. Durante um ano, Mohammad viajou com Manoj semanalmente até Al-Sakhara e passou a frequentar os cultos naquele lugar.

O mais interessante, inclusive, é que Mohammad não entendia nada do que estava sendo falado naqueles cultos, já que todos falavam híndi, e ele, árabe. No entanto, o que ele sentia em seu coração naquele lugar era algo que nunca havia experimentado em qualquer mesquita.

Não satisfeito em somente ter aquela sensação em seu coração, ele teve o imenso desejo de entender racionalmente esse Deus. Então, pediu ajuda àquele grupo de indianos para encontrar algum estrangeiro que falasse árabe e pudesse explicar a Bíblia a ele. Foi dessa maneira que Mohammad entrou em minha vida.

***

Quando me mudei para Hajran e quis abrir uma academia de futebol com Alex, conheci Christopher, um missionário americano que morava em Hajran havia quase três anos. Como Christopher e Alex eram bons amigos, comecei a fazer parte da vida de Christopher mais extensivamente.

Foi justamente o telefone de Christopher que tocou, trazendo-nos a informação de que havia um nuriyahi querendo conhecer Jesus.

Após o primeiro contato com o tal nuriyahi, Christopher convidou a mim e Alex a começar um estudo da Palavra com Mohammad.

Em nossa primeira visita a Mohammad, eu me senti completamente anestesiado. Não parecia conseguir parar de olhar para ele. Foi uma das situações mais constrangedoras da minha vida, pois, toda hora que Mohammad me olhava, eu estava olhando para ele e sorrindo largamente. Eu não tirava os olhos daquele homem e não acreditava no que via pela primeira vez na vida: um nuriyahi procurando e querendo Jesus — e por conta própria.

Tirei meu violão da capa e comecei a tocar a primeira música de adoração a Deus. Quando terminei de cantar, vi que Mohammad estava em lágrimas.

Ele podia louvar a Jesus em sua língua, e cantava cada vez mais forte, com muitas lágrimas rolando em seu rosto, talvez por finalmente entender que Jesus era o filho de Deus e seu Salvador.

Esse foi um dos momentos mais marcantes em todo o meu ministério pastoral. Alguns meses depois, três missionários da capital nos convidaram para trazer Mohammad para um encontro de cristãos em Madinat Al-Nur. Eu agradecia a Deus incessantemente por saber que ele havia começado a chamar nuriyahis para sua maravilhosa luz.

Quando cheguei à casa do missionário na capital, eu vi de cara dois nuriyahis: Amir e Karim, sentados no sofá, sorrindo e conversando. Com Mohammad, seriam três nuriyahis ali reunidos adorando a Deus. Mohammad, um pouco ressabiado e temeroso, cumprimentou Amir e Karim, que deram largas boas-vindas ao novo irmão na fé.

Após o rito cultural de comer frutas e tomar café com tâmaras, o culto começou. Éramos sete pessoas na sala: quatro missionários e três nuriyahis, todos adorando a Deus. A oração de abertura foi feita por Amir e, quando escutei aquela bela oração, comecei a chorar copiosamente. Quando a oração terminou, o silêncio foi quebrado pelo som do violão — e, para a minha surpresa, era o nuriyahi Karim quem tocava as músicas, liderando o louvor.

Eu simplesmente não conseguia cantar uma música sequer. Não por ter alguma dificuldade com a língua ou por não conhecer as canções, mas porque chorava incessantemente diante daquela cena de três homens convertidos adorando a Cristo Jesus, o Salvador de suas vidas.

O culto foi de uma emoção jamais vista por todos e marcava o nascimento da igreja de Cristo em Al-Nuriyah.

Passadas algumas semanas após esse culto, a esposa de Mohammad, Nur, começou a se encontrar com Sarah, Jennifer (esposa de Christopher) e Lisa (esposa de Alex).

Elas se encontravam semanalmente para estudar a Bíblia. Nur estava curiosa e queria saber mais sobre o Deus que havia transformado tanto a vida de seu marido. Em poucas semanas, as quatro famílias — a minha, a de Christopher, a de Alex e a de Mohammad — estavam adorando a Deus em cultos semanais.

Para mim, a oportunidade de participar desses momentos de adoração e ser usado por Deus como instrumento para a formação da igreja em Al-Nuriyah era simplesmente maravilhosa.

O trecho abaixo foi extraído com permissão do livro 10 anos em 10 dias: o relato de um missionário preso no Oriente Médio, escrito por um cristão perseguido, em breve pela Editora Fiel.


Autor: Cristão Perseguido

Pastor presbiteriano desde 2008, missionário transcultural e apaixonado por evangelismo. Com licenciatura em Educação Física e formação em Missiologia, serve desde 2010 no Oriente Médio. Casado e pai de três filhos, utiliza o futebol e sua facilidade de fazer amigos como importantes ferramentas para fazer discípulos de Jesus no mundo árabe.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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