quarta-feira, 28 de janeiro

Como saber a hora de partir?

Lições de Gênesis 31 para decisões difíceis

Resumo: Em Gênesis 31.1–55, a história de Jacó mostra como discernir a hora de partir quando não há “sinais” extraordinários, mas circunstâncias reais e a providência de Deus conduzindo o caminho. A partir de uma experiência pessoal de mudança (de Brasília para um novo rumo), o texto destaca que decisões importantes exigem oração, conversa, coragem e responsabilidade, sem exigir de Deus garantias “com papel timbrado do céu”. Deus permanece fiel às suas promessas, usa até tensões e injustiças para amadurecer seu povo e nos chama a agir com sabedoria, confiando que ele está presente também nos momentos decisivos. Leia abaixo o artigo deste excelente e criativo escritor, Emílio Garofalo Neto, ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear, em Brasília, DF. Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, completou seu Ph.D. no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.


Leia Gênesis 31.1-55.

Como saber a hora de partir? Como discernir os caminhos do nosso coração dentro das possibilidades diversas que se apresentam na nossa vida? Anelise, minha esposa, e eu estávamos em uma ótima situação no ano de 2004. Começo do ano. Estávamos em uma fase muito confortável em Brasília. Recém-casados, ela quase se formando na UnB. Eu estava trabalhando como professor. Aprovado em um concurso e esperando ser chamado. Não havia nada ruim nos forçando a mudar. Já tínhamos feito meu pedido de admissão para o seminário nos EUA. Mas eu já estava cursando Teologia no Brasil, caso não desse certo a admissão. A vida estava boa. Morando bem, aproveitando tudo. Muitos amigos. Servindo e entrosados na igreja local. 

Quando veio a aprovação de meu ingresso no Greenville Presbyterian Theological Seminary, com bolsa de estudos e tudo, ficamos animados. Porém, começou a bater aquela sensação: para que mesmo que estamos querendo ir embora? Será que é o caso de ir? Será que não é melhor ficar por aqui? Oramos, pensamos e conversamos. Foi bastante difícil tirarmos as raízes da terra e nos plantarmos em outro lugar. Deus não nos deu nenhum sonho dizendo “vão” ou dizendo “fiquem”. Nenhuma calamidade nos fez ver que era hora de sair de Brasília. A decisão não nasceu de uma insatisfação com a situação vigente. Mas foi tomada. E agimos sobre ela. E essa é a vida de todos nós. Decisões, escolhas, mudanças. E por vezes queremos que Deus nos prometa que, ao mudarmos de emprego, vai sair tudo bem. Quero promessas de Deus com papel timbrado do céu. 

Muitas vezes nos vemos nesses momentos decisivos.  Como nos movermos? Como sabermos a hora de agir ou o momento de sair? E como ficam a providência e a soberania de Deus sobre nossa vida nessas coisas todas? 

Investigaremos a história de Jacó finalmente saindo da terra de Padã-Arã — rumo à terra prometida. E, ao refletirmos sobre essa história, veremos que Deus nos chama a decidir e agir, confiantes na providência dele. 

Na vida temos que agir e com coragem mudar

Vamos ao começo do capítulo: 

Então, ouvia Jacó os comentários dos filhos de Labão, que diziam: Jacó se apossou de tudo o que era de nosso pai; e do que era de nosso pai juntou ele toda esta riqueza.

Jacó, por sua vez, reparou que o rosto de Labão não lhe era favorável, como anteriormente.

E disse o Senhor a Jacó: Torna à terra de teus pais e à tua parentela; e eu serei contigo. 

Então, Jacó mandou vir Raquel e Lia ao campo, para junto do seu rebanho,

e lhes disse: Vejo que o rosto de vosso pai não me é favorável como anteriormente; porém o Deus de meu pai tem estado comigo. (Gn 31.4,5)

Jacó vinha levando vantagem sobre seu sogro no esquema que haviam combinado. E começou a ouvir os filhos de Labão comentando coisas como: “ele pegou a riqueza de nosso pai”. Ou seja, seus cunhados estavam se voltando contra ele. E Jacó percebeu que o rosto de Labão não lhe era favorável como costumava ser; Labão se sentiu lesado, embora não soubesse exatamente dizer como isso estava acontecendo. 

Deus avisou a Jacó em sonho que era hora de voltar à terra de sua parentela, e que Yahweh seria com ele. Isso acendeu os alertas na cabeça de Jacó. Ele chamou suas esposas e disse que era hora de partir.

Fez uma conferência familiar para explicar o que ia se passar e chamou-as para, com coragem, considerar a situação. Ele já devia ter feito isso muito antes. A cumplicidade da família envolve os adultos pensarem juntos sobre os problemas e, em união, agirem. 

Jacó reconheceu a mão de Deus sobre si e falou das circunstâncias que o estavam forçando a decidir. Jacó mostrou saber bem que foi Deus quem o abençoara. Foi a mão de Deus. Não foi sua malandragem com lentilhas, sua malandragem com fantasia de peludo, sua tática mirabolante com varas verdes riscadas. Foi Deus. O quanto ele entende isso verdadeiramente ainda seria algo a ver. O quanto ele entende isso verdadeiramente ainda seria algo a ver. 

Aqui, Jacó está nos dando e às esposas detalhes do que se passou após o meio e o final do capítulo anterior. Leiamos:

Vós mesmas sabeis que com todo empenho tenho servido a vosso pai;

mas vosso pai me tem enganado e por dez vezes me mudou o salário; porém Deus não lhe permitiu que me fizesse mal nenhum.

Se ele dizia: Os salpicados serão o teu salário, então, todos os rebanhos davam salpicados; e se dizia: Os listados serão o teu salário, então, os rebanhos todos davam listados.

Assim, Deus tomou o gado de vosso pai e mo deu a mim.

Pois, chegado o tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e vi em sonhos que os machos que cobriam as ovelhas eram listados, salpicados e malhados.

E o Anjo de Deus me disse em sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui!

Ele continuou: Levanta agora os olhos e vê que todos os machos que cobrem o rebanho são listados, salpicados e malhados, porque vejo tudo o que Labão te está fazendo.

Eu sou o Deus de Betel, onde ungiste uma coluna, onde me fizeste um voto; levanta-te agora, sai desta terra e volta para a terra de tua parentela. (Gn 31.6-13)

Jacó explicou que se empenhou na obra e que Labão tentou, de todo jeito, enganá-lo, e que, por dez vezes, tentou mudar o salário dele, refazendo o acordo. E que nisso Deus foi operando e, aos poucos, o gado foi passando para ele. Deus ia mostrando o que se passaria, e a palavra do Senhor não falha. Deus o protegeu pactualmente. Na fala do Senhor, registrada no versículo 13, estamos diante de promessas pactuais feitas mais de uma década antes em Betel, na ocasião do sonho da escada. O Senhor vem sendo totalmente fiel ao que prometeu, como sempre. 

Deus estava cuidando de Jacó. Mas e esses tantos anos ali? E o mal-estar com Labão? Nada disso ficou alheio à vontade soberana de Deus ou se passou longe dos olhos de Deus. Erro é erro; mal é mal. Mas Deus utilizou até mesmo o mal feito contra Jacó para fazê-lo crescer. O Senhor da aliança sempre está atento aos seus. E nesse momento Deus manda Jacó voltar para a terra de sua parentela. 

Jacó recebeu uma ordem clara, um direcionamento inequívoco. Mas, para nós, muitas vezes as ordens não são claras nem diretas. Gostaríamos muito que Deus simplesmente aparecesse e dissesse: “Vestibular para Engenharia Naval” ou “Case-se com o X”. Palavras como “Nem tente esse concurso; tente aquele!”. Ou ainda “Vai fazer MPU por quê? Não, não… você vai passar no concurso da Câmara!”. Deus não promete fazer esse tipo de direcionamento. Ele o fez para Jacó — mas Jacó já sabia que voltar para a terra de sua parentela era a vontade de Deus desde o começo. Deus o está chamando para, com responsabilidade, fazer aquilo que há anos ele sabe que é certo. 

Jacó precisou de uma mudança de circunstâncias para agir em fidelidade pactual. Ele só se moveu de volta quando a vida apertou. Algo parecido se dá no livro de Atos. Jesus havia dito que seus discípulos seriam testemunhas tanto em Jerusalém como na Judeia, em Samaria e até os confins da terra (At 1.8). Porém, é apenas quando vem a perseguição que eles se espalham levando o evangelho. 

Deus mudou as circunstâncias e não permitiu que Jacó se sentisse confortável demais ali. 


O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Jacó e a graça transformadora, de Emilio Garofalo Neto, em breve pela Editora Fiel.


Autor: Emilio Garofalo Neto

Emilio Garofalo Neto é ministro presbiteriano e pastor da Igreja Presbiteriana Semear em Brasília, DF. Completou seu Ph.D no Reformed Theological Seminary, nos EUA. É professor de teologia sistemática no Seminário Presbiteriano de Brasília e professor visitante em teologia pastoral no CPAJ.

Ministério: Editora Fiel

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