quarta-feira, 4 de março

De joelhos… mas longe de Deus

O perigo do ritualismo na vida de oração

“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais.” (Mt 6.5-8)

O povo nuriyahi, assim como todos os muçulmanos do mundo, deve orar cinco vezes ao dia. Essas orações são determinadas de acordo com o período do dia: ao nascer do sol, próximo ao horário do almoço, no meio da tarde, ao pôr do sol e no início da noite. Elas são memorizadas ainda na infância. Em momentos específicos do dia, eles se dirigem às mesquitas para cumprir esse ritual tão importante dentro de seu entendimento de obediência a Deus.

Um dos desafios para muitos muçulmanos é não transformar esse momento em algo mecânico. Ao repetir as mesmas palavras todos os dias, nos mesmos horários, realizando os mesmos movimentos corporais — ajoelhar-se, prostrar-se, levantar-se, corre-se o risco de que o que deveria ser relacionamento com Deus se torne puro ritualismo. Quantas vezes vi meus amigos interromperem o que estavam fazendo ao ouvir o chamado das mesquitas para a oração, apenas para cumprir o ritual. Eu lhes perguntava: “Mas e se você orar vinte minutos antes ou vinte minutos depois?”. Eles respondiam que o horário estipulado era o que deveria ser cumprido.

Deus nos chama a ter um relacionamento pessoal com ele, e a oração é parte desse processo. Esse momento não deveria ser um peso, uma obrigatoriedade ou um mero ritual em nossas vidas. Por isso, entre no seu quarto, feche a porta e derrame o seu coração na presença de Deus: “em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4.6).

Jesus nos ensinou muito sobre a oração. Quantas vezes lemos nas Escrituras que ele se retirou para buscar o Pai em oração? Precisamos seguir o exemplo de nosso Mestre e nos dedicar, de coração, e não por obrigação, a esse maravilhoso exercício espiritual de comunhão com o Senhor.

Somos missionários; portanto, que nossos joelhos se assemelhem aos dos camelos, ao nos prostrarmos diariamente aos pés de nosso Salvador.

CURIOSIDADE CULTURAL

Aprender a ouvir 

Em Al-Nuriyah, assim como no Afeganistão, as mulheres têm de cobrir a cabeça. Muitos acreditam que esse gesto é apenas cultural — mas não é. Trata-se de uma exigência religiosa baseada nos preceitos do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Portanto, não podemos olhar para uma mulher coberta e concluir que ela é árabe, pois ela pode pertencer a qualquer nacionalidade. A mulher só pode mostrar o cabelo a homens com os quais não possa contrair matrimônio — seu pai, por exemplo. Qualquer homem que, legalmente, possa casar-se com ela não tem o direito de ver seus cabelos. No contexto árabe, até mesmo os primos devem ser preservados dessa visão, já que o casamento entre pessoas com esse grau de parentesco é permitido e relativamente comum.

Nem tudo o que nos parece apenas um elemento cultural realmente o é para os povos aos quais somos enviados. Por isso, um missionário precisa aprender a ouvir — ouvir cada povo, cada contexto, cada indivíduo — em todos os aspectos.

O trecho abaixo foi extraído com permissão do livro 10 anos em 10 dias: o relato de um missionário preso no Oriente Médio, escrito por um cristão perseguido, em breve pela Editora Fiel.


Autor: Cristão Perseguido

Pastor presbiteriano desde 2008, missionário transcultural e apaixonado por evangelismo. Com licenciatura em Educação Física e formação em Missiologia, serve desde 2010 no Oriente Médio. Casado e pai de três filhos, utiliza o futebol e sua facilidade de fazer amigos como importantes ferramentas para fazer discípulos de Jesus no mundo árabe.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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