sexta-feira, 14 de junho

Atração pelo mesmo sexo e perseverança

vida crucificada

Por alguma estranha razão, a perseverança é uma palavra incomum, especialmente nas conversas voltadas à atração por pessoas do mesmo sexo. Talvez, numa cultura em que “rápido” é preferível a “esperar”, e “fácil” é melhor que “difícil”, deveríamos esperar que uma discussão sobre a tentação persistente, poderosa e, às vezes, até mesmo implacável da atração pelo mesmo sexo fosse apenas ocasional. Por mais estranho que possa parecer a algumas pessoas, isso é intrínseco à experiência cristã, e a recusa em seu emprego como arma de fé poderia garantir a perseverança do cristão professo (Mt 24.13).

Tenho tido inúmeras conversas com homens e mulheres AMS (atraídos pelo mesmo sexo) que ou tentam aderir a uma ética sexual bíblica ou já tentaram fazê-lo. De olhos cansados e sobrecarregados, eles me procuram cabisbaixos para me convidar a entrar em sua frustração. Por fim, eles confessam a razão para essa nebulosidade: “É simplesmente muito difícil”, dizem, deixando a frase no ar, sem maior explicação. A dificuldade de tentar resistir à atração pelo mesmo sexo tende a levar algumas pessoas a um ciclo depressivo de autocondenação e desânimo. Em outros casos, pode levar ao completo afastamento da fé na qual tentaram se ancorar.

Sempre me perguntei se, quando eles se tornaram discípulos, ou se consideravam seguidores de Cristo, sabiam que seguir Jesus significa não apenas ter a vida eterna, como também uma vida crucificada. As crucificações não eram somente excruciantes (uma palavra claramente derivada da própria crucificação), como também lentas. Uma morte demorada “até o pôr do sol”, mais de uma vez. Ser crucificado garantia que a morte chegaria, mas o esperar sangrento dependia do tempo. Nós, na condição de pessoas desconectadas da compreensão histórica da crucificação, no que se refere ao tempo, e não somente à dor, entendemos apenas parcialmente as palavras de Jesus em Lucas 9.23: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”. Sabemos que esse versículo se refere a morrer para nosso ego, mas quão frequentemente temos visto isso naquela morte diária, paciente e prolongada que vem quando levamos nossa própria cruz. Que, uma vez pregada às nossas costas, não significa que o pecado para o qual morremos hoje não voltará amanhã, para que tenhamos de matá-lo vez após vez até que, depois de um período ou de uma existência inteira, finalmente venhamos a descobrir que morreu. A vida crucificada é uma vida que persevera até o fim, quando, de uma vez por todas, a cruz será substituída por uma coroa.

Para o cristão AMS, Jesus exemplificou o trabalho árduo (porém possível) de perseverar para a glória de Deus quando o corpo prefere ceder. Em Mateus 26, nós o vemos indo ao Getsêmani. Ele acabara de jantar com os discípulos e, em seguida, os levou até um de seus lugares favoritos para orar, pois era chegado o tempo no qual ele faria aquilo para o qual viera: morrer.

Seu plano era falar com o Deus cuja voz conhecera antes de os céus o ouvirem ordenar que o dia se separasse da noite. O sol se pôs, as barrigas estão cheias do cordeiro da Páscoa, de pão e vinho, o corpo exausto de tanto caminhar, eles estão cansados, mas Jesus ordena que eles façam algo diferente de descansar. Ele quer que vigiem. O sono, embora fosse natural, não era aquilo de que eles precisavam. Manter os olhos abertos às tentações que estavam no cami- nho era o que o momento exigia.

Caminhando um pouco à frente deles, o corpo de Jesus falou antes de ele abrir a boca. Encostou o rosto na terra, respirando e afastando a grama, e voltou a face para cima, sob as estrelas e o luar aceso por toda espécie de tristeza — postura de alguém triste demais para ficar de pé. Prostrado, ele se dirige a Deus pelo nome, seguindo-se o pedido ao Pai por algo que ninguém mais poderia conceder-lhe: “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). Esse cálice é um símbolo, um retrato, uma metáfora da ira de Deus. Era outra espécie de dilúvio, com uma arca distante. Fogo e enxofre duplicados que eram enviados do céu para cair, dessa vez, sobre o Filho, e não para destruir Sodoma. Um deserto de quarenta anos encolhido e espremido numa só noite implacável, em que o Filho não conseguia encontrar o Sábado. Esse cálice continha algo que Jesus nunca antes havia experimentado. Até então, ele só conhecera o prazer de Deus nele e o amor de Deus por ele (Mt 3.17; Jo 5.20). A agonia da cruz, da qual ele queria fugir, se isso fosse possível, não era principalmente a dor física que viria, mas a terrível experiência de ser inimigo de seu Pai — devido ao pecado que ele carregaria sobre si em nosso lugar. E, se isso fosse possível, ele não queria fazê-lo, pelo menos não desse modo.

Não existe outra maneira de agradar a Deus exceto obedecendo pela fé. A obediência para os que são AMS diz respeito a algo aterrorizante, pois significa negar ao corpo aquilo que, com frequência, parece tão natural quanto sorrir. Em geral, a AMS não é inventada ou modificada por alguma imaginação específica. Trata-se de um afeto real experimentado por pessoas reais. Desse modo, quando são ordenadas a não agir em conformidade com esses afetos, mesmo quando pulsam fortemente no corpo, a ponto de fazer barulho, é preciso haver um comprometimento sobrenatural para negar a si mesmas. Muitas pessoas assumirão esse desafio de forma hesitante, mas com disposição, até se darem conta de que a tarefa não é nada fácil.

Mas, em geral, crescem em uma série constante de tentações que voltam tão rapidamente quanto são mortificadas. A frustração e o desânimo fazem algumas pessoas levar em conta a incredulidade e tudo que ela tem a dizer em relação ao que é preciso fazer. A incredulidade, exatamente como Satanás, sempre procurará uma saída mais fácil. Ela diz para comer o fruto em troca de conhecimento, em vez de temer a Deus para obter a verdadeira sabedoria. A in- credulidade desvenda nossa percepção tanto do sofrimento como das bênçãos da vida, chamando-nos a deixar de lado, a todo custo, qualquer negação de nós mesmos, com todas as falsas promessas de conforto que não podem se estender além do túmulo. Para tantos outros, a incredulidade os convenceu de que eles podem servir a ambos: tanto a Deus como à sua homossexualidade. A ambos, Deus e a carne. Tanto ao pecado como ao Salvador. Mas isso, bem sabemos, é algo totalmente impossível.“Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). O cristão que lida com a atração pelo mesmo sexo nunca poderá procurar outro caminho para obedecer a Deus que esteja fora da vontade divina, pois sabemos que, do mesmo modo que era vontade de Deus que Jesus fosse crucificado, também é sua vontade que nos abstenhamos de toda forma de sexualidade que não esteja em consonância com suas Escrituras: “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição” (1Ts 4.3).

Se houvesse outro meio de obedecer à vontade de Deus, Jesus iria querer essa opção, mas só havia um jeito. E ele tinha total comprometimento com ele. Ainda prostrado em terra, ele diz ao Pai: “(…) Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres…”. Jesus pediu em três ocasiões distintas ao Pai que esse cálice passasse dele. E, como se o silêncio fosse significativo, isso foi tudo que Jesus ouviu em resposta. O vento não o encobriu para lhe dar uma resposta divina nem o monte se abalou junto ao céu com uma voz conhecida. Em toda a sua aflição, Deus Pai nada respondeu.

Alguém pode perguntar se, ao escolher não falar, Deus não poderia pelo menos ter agido. Mas Deus fez isso. Enviou um anjo do céu. Mas o anjo não foi mandado por razões triviais que esperaríamos de outros pais que estivessem mais dedicados ao conforto dos filhos do que à glória do nome de Deus. O anjo que Deus enviou não tomou o Filho de Deus que estava extremamente deprimido para levá-lo ao céu antes de ele passar pela cruz. Se necessário, um anjo poderia ter vindo com dez milhares de outros para encontrar e acabar com todos os inimigos de Jesus. Isso, claro, tornaria mais fácil para Cristo a longa caminhada até o Calvário, mas não fazia parte da agenda de Deus. Se o anjo tivesse vindo apenas para livrar Jesus de todo temor, ansiedade, de toda dor, tristeza, dificuldade, tentação, ou de qualquer outra coisa que seu corpo tivesse de suportar… Mas seu Pai fez algo completamente diferente de livrar o Filho para facilitar sua vida. Ao não permitir que Jesus ignorasse a adversidade da obediência, mandou o anjo para simplesmente fortalecer o Filho, para que ele suportasse tudo. Se Jesus precisava de força para perseverar no amor à obediência ao Pai, quanto mais nós carecemos dela! O escritor de Hebreus entendeu a necessidade de o crente perseverar quando escreveu:“Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hb 10.35-36). O fato é que ser cristão e, ao mesmo tempo, ter de negar a atração pelo mesmo sexo é algo difícil (difícil é dizer pouco), mas, do mesmo modo que o Pai enviou um anjo para fortalecer o Filho, também mandou alguém para nós ainda melhor: o Espírito Santo. Quando somos conduzidos pelo Espírito, quando olhamos para Jesus e não nos desencorajamos (nem cedemos a mentiras ou condenação), somos capazes de realizar aquilo que agrada ao Pai. Somos fortalecidos a perseverar; quando nos é dado o poder de obedecer, isso não torna mais fácil a obediência, mas a torna possível.

Há algo a ser dito sobre o amor em tudo isso. Se o que aconteceu no Jardim do Getsêmani tivesse sido contado de um modo diferente, algo como uma forma invertida da história conhecida do evangelho, imagino que alongaria a figura de Jesus em algo mais humano do que santo. O que seria se, após o jantar da Páscoa com os discípulos, Jesus tivesse entrado no jardim para orar e, em vez de ter um corpo pesado a ponto de carecer de Deus, ficasse ali parado, indiferente às nuvens flamejantes que estavam a caminho de arrancar sua própria luz da terra. Ele fala ao Pai conforme planejado, mas sem agitação. Como oraria uma pessoa sem pesar, ele ora. Sem pedidos. Sem agonia. Sem depressão. Nenhuma súplica das profundezas da alma, pedindo que passasse o cálice sem que ele bebesse. Ele sabe que esse cálice virá sobre ele, em toda a sua ira acumulada e pronta para ser derramada. Mas não há sinal de que ele queira fugir daquilo que virá. Ou mesmo que o que viria a acontecer fosse algo terrível. Ele se mantém tranquilo. Como se a crucificação fosse mais um dia normal, como todos os demais.

Se essa fosse a versão de Jesus que lêssemos, o que ela diria a respeito do amor? Ou seja, de seu amor por Deus Pai? Diria que talvez ele não amasse tanto a Deus quanto imaginamos. Se, no momento de Jesus experimentar toda a ira de Deus, no lugar do doce amor no qual ele sempre habitara, ele se aproximasse disso com indiferença, só poderíamos concluir que ele não se importava muito com o fato de sua intimidade com o Pai ter sido interrompida. Mas a história verdadeira é que Jesus realmente se importou. Ele se importou a ponto de sentir a total miserabilidade, que sacudiu o sangue de seu corpo e os pedidos dentro de seu coração. É a grande agonia que vemos em Jesus enquanto ele suportava tudo isso que nos revela seu amor inimaginável pelo Pai. Ele preferiria que o cálice passasse a não permanecer nesse amor.

O grande contraste entre nós e Jesus é este: Jesus estava profundamente triste diante da perspectiva de experimentar o desprazer de Deus acima de tudo, mas a maioria de nós, se não todos, ficamos tristes diante da perspectiva de não experimentar os prazeres do pecado.

Jesus não suportou tudo por ser forte; o mais provável era que estivesse num dos pontos mais frágeis de sua humanidade, mas ele perseverou porque amava seu Deus. Portanto, ele tinha convicção plena de estar cumprindo a vontade de Deus, a qualquer custo. Esse amor é o que vai nos ajudar a perseverar: um amor que vê o conhecimento de Deus como o maior prazer que uma pessoa ou que seu corpo possa ter.

Mesmo em meio a lágrimas, dores e dificuldades, nós continuamos a lutar porque sabemos que a vontade de Deus é infinitamente melhor do que permanecer na nossa. Assim como Jesus, nós perseveramos porque sabemos que a alegria sempre estará do outro lado da obediência. Assim, nós nos voltamos para ele, “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.2).

Este artigo é um trecho adaptado com permissão do livro Garota gay, bom Deus, de Jackie Hill Perry, Editora Fiel.


Autor: Jackie Hill Perry

Jackie Hill Perry é escritora, poetisa e artista, com trabalhos publicados no Washington Times, e 700 Club, Desiring God e Gospel Coalition. Ao se tornar cristã, em 2008, passou a usar seus dons para compartilhar a luz do evangelho de Deus da maneira mais autêntica possível. Jackie é esposa de Preston, com quem tem dois filhos, Eden e Autumn.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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