sexta-feira, 14 de junho

Enraizadas em Cristo

Sua vida não é sua

Conforme compartilhei na introdução deste livro, o Senhor me deu mais do que eu podia suportar quando estava na faculdade. Foi a primeira vez, mas certamente não a última, em que fui incapaz de consertar a mim mesma. Antes daquele momento em minha vida, quando as coisas estavam difíceis, quando as circunstâncias me derrubavam, eu era capaz de sair dessas situações. Estava acostumada a sair de um mau humor, de uma época ruim ou de qualquer outra coisa. Mas não naquele momento. A tristeza que Deus me deu estava além de mim.

Na providência de Deus, peguei a Bíblia empoeirada que havia levado comigo para a faculdade, mas que nunca tinha aberto. Parecia que naquelas páginas o Senhor queria me oferecer cura, plenitude e liberdade. Mas também senti em meu coração que ele me queria inteira – não apenas a Jen da manhã de domingo, não apenas a Jen que às vezes ia ao grupo de jovens, não apenas a Jen que era moral quando convinha.

À medida que eu emergia daquela época de tristeza, algumas das palavras do apóstolo Paulo escritas à igreja de Corinto ficaram comigo. Ele disse: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Co 6.19-20).

“Não sois de vós mesmos” me atingiu imediatamente. Fiquei assustada com a verdade de que, por ter sido criada por Deus, ele tinha uma palavra a dizer sobre minha especialização universitária, minha vida social, com quem eu namorava, como gastava meu dinheiro e que carreira buscaria. De repente, tive a sensação de que ir a festas e beber álcool com menores de idade era muito errado. Perseguir uma carreira puramente baseada na renda que eu poderia gerar me pareceu vazio. Cristo em mim fez com que a busca por elogios mundanos e pela atenção das pessoas, coisas pelas quais eu tinha tanta fome, deixasse um gosto ruim na minha boca.

Essas palavras aos Coríntios se tornaram um versículo de vida para mim. Eu não sou de mim mesma. Eu fui criada e redimida por outra pessoa. É a respiração dele que está em meus pulmões. Nessa primeira temporada de receber mais do que eu poderia suportar, nessa crise que me colocou no chão, foi quando Jesus graciosamente me enraizou nele mesmo.

O que é o evangelho?

Se você já foi à igreja, provavelmente já ouviu a palavra evangelho. Talvez você já tenha ouvido falar do Evangelho de Mateus, ou do Evangelho segundo Marcos, ou do Evangelho de Lucas, ou ainda do Evangelho de João. Chamamos os primeiros quatro livros do Novo Testamento de “Evangelhos”. Evangelho significa simplesmente boas-novas. Os primeiros quatro livros do Novo Testamento registram as boas-novas da vida, morte e ressurreição de Jesus. Eles são os relatos pessoais de Mateus, Marcos, Lucas e João, conforme eles testemunharam – ou entrevistaram testemunhas – sobre a vida de Jesus.

A palavra evangelho também pode ser usada para descrever as boas-novas compartilhadas na Bíblia. Para apreciar as boas-novas, porém, é preciso primeiro entender as más notícias. No capítulo anterior, exploramos o que significa ser criada por Deus para a glória dele. Mas todas nós demos as costas para Deus e perseguimos nossa própria glória. Ninguém valoriza o Senhor de acordo com o preço e o valor dele. Por termos nos afastado de nosso Deus santo e justo, merecemos a punição eterna. A Bíblia é clara: todos pecaram contra Deus e todos estão destinados ao tormento no inferno (veja Rm 3.23; 6.23; Jo 3.36; 1Jo 5.12).

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, criou um caminho para escaparmos do inferno. Jesus, que é Deus, desceu voluntariamente à terra e viveu uma vida perfeita e sem pecado. Ele, então, voluntariamente morreu numa cruz, suportando o castigo dos nossos pecados, e ressuscitou dos mortos, vencendo tanto o pecado quanto a morte, para que nós, que confiamos em Cristo como Salvador, pudéssemos escapar do inferno e, em vez disso, reinar com Jesus no céu (veja Efésios 2.1-10).

As boas-novas não terminam com nossa salvação e justificação – ou com a realidade de que Jesus levou nosso castigo ao nos dar sua justiça – mas continuam enquanto o Espírito Santo habita em nós e nos ajuda a valorizar Cristo mais do que a nós mesmas. À medida que somos santificadas, ou transformadas de dentro para fora a fim de nos parecermos cada vez mais com nosso Salvador, ficamos mais satisfeitas e alegres nele. As boas-novas culminam com o céu e a terra sendo reconciliados e restaurados por Cristo. Nós, que confiamos nele e o valorizamos, reinaremos com ele para todo o sempre (veja 2Tm 2.11-13).

Em um artigo intitulado “O que é o Evangelho Cristão?” o pastor e autor John Piper diz:

Crer no evangelho não é apenas aceitar as verdades maravilhosas de que (1) Deus é santo, (2) nós somos pecadores sem esperança, (3) Cristo morreu e ressuscitou pelos pecadores, e (4) essa grande salvação é desfrutada pela fé em Cristo – mas crer no evangelho é também valorizar Jesus Cristo como sua riqueza inescrutável. O que torna o evangelho em Evangelho é que ele leva uma pessoa para a alegria eterna e sempre crescente de Jesus Cristo.[i]

Crer no evangelho e confiar em Jesus como Salvador não é apenas escapar da condenação. É também ser despertada para a liberdade e a alegria disponíveis somente em Cristo. Quando cremos no evangelho, ele muda tudo. Nossa compreensão de nosso passado, presente e futuro é reorientada de um modo de vida focalizado em nós mesmas para um modo de vida focalizado em Jesus.

O que significa estar enraizada no evangelho?

Estar enraizada no evangelho é ser como as árvores banyan dos trópicos. As raízes das árvores são muitas. Elas brotam de todo lado e descem em direção ao solo rico em nutrientes. As árvores prosperam por causa de suas muitas raízes e do solo exuberante. O solo é perfeito – é exatamente aquilo de que esses organismos precisam. A nutrição faz com que as árvores cresçam altas e largas, e se reproduzam. As raízes de longo alcance permitem que as árvores se mantenham firmes em meio a ventos de furacões que açoitam os trópicos a cada ano. Mesmo as tempestades mais ferozes não podem desarraigar as banyans.

As raízes das árvores banyan ligam as árvores à sua fonte de vida, o solo. Também nós devemos estar enraizadas em nossa fonte de vida, que é o evangelho. Como cristãs, sabemos que o evangelho é a boa-nova da salvação. É o nosso resgate do inferno e a libertação para o céu.

Mas o evangelho também é a verdade que nos impulsiona e nos compele em todas as coisas. É o próprio fundamento de nossas vidas, nossa visão de mundo e compreensão da realidade. O evangelho é a verdade mais básica e importante para todas as pessoas. Colocar nossas raízes em qualquer outro solo nos faz murchar.

João Calvino escreve: “Pois a verdadeira doutrina não é uma questão de língua, mas de vida; tampouco a doutrina cristã é compreendida apenas pelo intelecto e pela memória, como a verdade é apreendida em outros campos de estudo. Ao contrário, a doutrina é corretamente recebida quando ela toma posse da alma inteira e encontra morada e abrigo nos mais íntimos afetos do coração”.[ii]

Em outras palavras, para crer na verdade do evangelho é preciso fazer mais do que consentir mentalmente com ela. A verdade do evangelho tem o objetivo de nos transformar. E se isso não ocorre, então nós não cremos realmente. O evangelho tem algo a dizer sobre como gastamos nosso tempo, em que gastamos nosso dinheiro, os objetivos que perseguimos, a carreira que buscamos, os hobbies que desfrutamos, a comida que comemos – tudo.

O evangelho diz que nós não somos de nós mesmas.

Paulo orou para que a Igreja estivesse arraigada

A palavra arraigada aparece em dois lugares na Bíblia. Ambas são encontradas nas cartas de Paulo a duas igrejas diferentes, as quais ele ajudou a estabelecer. Uma é à igreja em Éfeso e a outra é à igreja em Colossos. Em ambos os contextos, Paulo insta seus leitores a estarem arraigados no evangelho.

Primeiro, em sua carta aos Efésios, Paulo diz:

Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. (Ef 3.14-19)

É possível ouvir o trabalho e o amor de Paulo pelos Efésios com essas palavras. Em primeiro lugar, ele diz que ora sinceramente por eles. Ele ora ao Pai de cada família, o que significa que todos nós somos criados por Deus. Paulo diz que pede a Deus que os encha de poder do Espírito Santo, para que Cristo possa habitar neles. Ele quer que eles sejam arraigados e alicerçados no amor – não um amor qualquer, mas o amor do Pai, que nos dá seu Filho e nos capacita pelo Espírito – que é o evangelho.

O amor de Cristo, que excede o entendimento, é comunicado de forma radical na mensagem do evangelho, o qual os Efésios creram pela fé e Paulo ansiava que compreendessem. Ele desejava que eles (e você e eu!) fossem preenchidos com a plenitude de Deus. O evangelho não é periférico. Não é secundário. Como seguidoras de Cristo, ele é destinado a ser o próprio centro de nossas vidas.

Paulo encerra sua oração com estas palavras poderosas:

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20-21).

Quando cremos no evangelho pela fé, quando somos capacitadas pelo Espírito Santo, quando Cristo habita em nossos corações, quando estamos cheias da plenitude de Deus, então Deus é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo quanto podemos pedir ou pensar! Esse é o poder do evangelho em nós. E quando esse poder está em ação, ele traz glória a Jesus através de todas as gerações.

Revisitaremos isso no capítulo 6, quando veremos o que significa ser estabelecida no evangelho. Quando estivermos enraizadas e edificadas em Cristo, seremos estabelecidas nele. Isso nos leva ao descanso no evangelho – um descanso que pode fazer muito mais do que jamais pedimos ou pensamos.

Em segundo lugar, em sua carta aos Colossenses, Paulo diz:

“Portanto, assim como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, também andai nele, arraigados e edificados nele e confirmados na fé, como fostes ensinados, sempre cheios de ações de graças” (Cl 2.6-7; A21).

Essa oração aponta para aquele momento em que os Colossenses se renderam ao Senhor e creram no evangelho pela graça, através da fé. Paulo diz que se você recebeu Cristo, enraíze-se em Cristo, seja edificada nele, estabeleça-se nele e cresça a partir daquele fundamento.

Receber Cristo, estar arraigada no evangelho, é um momento divisor de águas. Ele muda tudo. Ele toma posse de todos os que creem.

Artigo adaptado do livro Que Eu Diminua, de Jen Oshman. Publicado pela Editora Fiel.


[i] John Piper, “What Is the Christian Gospel?,” Desiring God website, 5 de junho de 2002, https://www.desiringgod.org/articles/what-is-the-christian-gospel.

[ii] Calvin, Little Book on the Christian Life, 12–13. Ênfase adicionada.


Autor: Jen Oshman

Jen Oshman participa do ministério de mulheres como missionária e esposa de pastor há mais de duas décadas e em três continentes diferentes. Ela é mãe de quatro meninas, autora e apresentadora de All Things, um podcast sobre tendências e eventos culturais. Jen e sua família moram no Colorado, onde seu marido plantou a Redemption Parker, uma igreja do ministério Acts29.

Ministério: Editora Fiel

Editora Fiel
A Editora Fiel tem como missão publicar livros comprometidos com a sã doutrina bíblica, visando a edificação da igreja de fala portuguesa ao redor do mundo. Atualmente, o catálogo da Fiel possui títulos de autores clássicos da literatura reformada, como João Calvino, Charles Spurgeon, Martyn Lloyd-Jones, bem como escritores contemporâneos, como John MacArthur, R.C. Sproul e John Piper.

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