“Você é um missionário?”
Essa é a pergunta que nenhum missionário quer ouvir em um país fechado ao evangelho, em que falar de Cristo é crime — ainda mais se ela vier de policiais em um interrogatório.
Sem hesitar, respondi com outra pergunta:
— O que o senhor entende sobre ser um missionário?
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Com frequência, em nossa vida, discutimos com pessoas que têm ideias e opiniões baseadas em parâmetros diferentes dos nossos, e isso gera muito desgaste e até mesmo confusão, porque partimos de conceitos diferentes sobre o mesmo assunto.
Quando olhamos para a igreja evangélica brasileira, por exemplo, vemos divergências discrepantes em alguns assuntos, muitas vezes por simples falta de entendimento das verdades bíblicas.
Um olhar míope sobre as Escrituras resulta em uma igreja doente.
Cresci em uma igreja que sempre me ensinou verdades bíblicas extremamente importantes desde a infância. A EBD, a Escola Bíblica Dominical, nos proporcionava estudar diferentes temas à luz da Palavra de Deus, com material de qualidade e professores capacitados.
Tive a graça de Deus de ter pais comprometidos com a Palavra, que me levavam semanalmente à igreja para aprender, desde pequeno, conceitos bíblicos tão importantes para a vida. Ali, eu já aprendia doutrinas como a do pecado original, o plano da redenção e o sacrifício de Cristo por mim.
Tenho até hoje, em minha memória, o dia em que Cristo me chamou para sua maravilhosa luz. Ouvir uma lição sobre o plano da salvação, na qual a professora usou o livro sem palavras: um livro gigante, com cinco cores e sem palavra alguma, sendo cada cor um símbolo — o pecado, o sangue, o perdão, o céu e a esperança da volta de Cristo.
Eu tinha sete anos de idade quando ouvi essa lição. Ao chegar à minha casa, abracei uma almofada gigante, verde-musgo, que ficava em nossa sala sobre o tapete, e comecei a orar. Clamava a Deus que perdoasse meus pecados e fosse o Salvador da minha vida. Comecei a chorar e percebi que aquele choro era diferente de todos os outros que eu já havia experimentado até aquele momento em minha breve vida.
Era um choro de alegria e de satisfação por conhecer um Deus que me ama. Contei aos meus pais, e isso foi motivo de grande júbilo.
Algumas semanas depois, algo terrível aconteceu. Minha vida quase foi abreviada por um desejo enorme de estar com Deus. Após uma lição sobre o céu, aprendi sobre o Paraíso, sobre estar com Deus em um lugar perfeito, onde não há dor, nem choro, nem lágrimas, onde a enfermidade não existe e todos adorarão ao Cordeiro de Deus para todo o sempre.
Ao voltar da igreja, após o almoço, minha irmã brincava de boneca em seu quarto e meus pais descansavam. Fui até a cozinha, peguei a maior faca que encontrei e, decididamente, sem hesitar, impulsionei com toda a força aquela faca na direção de minha barriga. Eu queria muito estar com Deus. Eu não queria mais desobedecer, sentir dor; pelo contrário, desejava muito estar com o meu Salvador. Porém, aquela faca não perfurou minha barriga. Eu não entendia como, mas, toda vez que eu tentava encravá-la, uma força contrária muito forte a segurava próxima à minha pele. Tentei várias e várias vezes. Fui vencido pelo cansaço. Não entendia nada do que estava acontecendo.
Hoje sei que a boa mão do Senhor, o seu Anjo, segurava aquela faca cada vez que ela se aproximava da minha barriga. Ainda não era a minha hora. Deus tinha um plano para minha vida.
Nunca permiti que alguém — inimigo ou quem quer que fosse — me dissesse que não valho nada ou que não sou, de alguma maneira, especial. Deus tem um relacionamento pessoal comigo, conosco. Esse Deus, Criador de todo este universo, soberano, onipresente e onisciente, conhece o meu e o seu nome, a minha e a sua história, as minhas e as suas dores e temores. Ao orar a Deus, sempre me lembro de que milhões de pessoas que realmente acreditam em Jesus estão orando ao mesmo tempo e que Deus, em seu poder, escuta cada oração. É isso que faz dele um Deus pessoal.
Esse é um dos motivos de sermos especiais. Fomos criados por Deus. Ele tem a nossa história guardada em suas mãos. Ele olha para cada um de nós neste exato momento. Ele me contempla enquanto escrevo este livro. Ele sabe que você, agora mesmo, está passando os olhos sobre estas linhas, sobre estas palavras. Claro que, com apenas sete anos de idade, eu ainda não sabia de tudo isso — mas já sabia, mesmo com tão pouca experiência, que algo especial havia acontecido naquela cozinha.
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Na chamada UCP (União de Crianças Presbiterianas), o aprendizado e a comunhão continuavam. Ali, muitas histórias bíblicas eram ensinadas de diversas maneiras — teatros, musicais, acampamentos —, e a melhor parte disso tudo era ser ensinado por minha mãe. Isso mesmo: a responsável pela UCP durante mais de vinte anos em minha igreja foi minha mãe, a famosa tia Marlene.
Ela foi — e ainda é — uma grande referência na vida de centenas de crianças. Hoje, muitas delas são pastores e missionários(as), presbíteros, líderes em suas igrejas e, acima de tudo, discípulos de Cristo. Minha mãe foi minha grande mentora e meu principal exemplo.
Ver a paixão e o prazer com que minha mãe falava de Jesus Cristo na igreja, em escolas, em praças, em escolas bíblicas de férias, em acampamentos e tantos outros lugares fazia meu coração vibrar de emoção.
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Durante toda a minha infância, eu já sabia que deveria contar a todos os meus amiguinhos da escola, da rua e do futebol que Cristo era meu Salvador. Músicas como “Posso ser um missionariozinho se falar de Cristo ao companheirinho”, “Minha pequena luz vou deixar brilhar” e tantas outras ecoavam diariamente em meu coração.
Quando adolescente, fui recebendo alimento mais sólido e aprendendo, nas Escrituras, o que é ser um discípulo de Jesus: sal da terra, luz do mundo, exalar o perfume de Cristo, ser uma carta viva, ser um embaixador — e tantos outros exemplos sobre o papel do discípulo. Essa semente germinava e crescia dia após dia em meu coração.
Comecei a me envolver cada vez mais nos trabalhos da igreja. Era sempre um prazer participar de campanhas de evangelismo, distribuir folhetos, ir às praças ajudar nos cultos evangelísticos, participar do coral de adolescentes e cantar no Natal em shoppings e hospitais. Tudo isso dava um sentido diferente à minha vida. Estar com meus amigos da igreja nos fins de semana era mais do que um encontro social: era o cumprimento da Palavra em minha vida, na condição de servo. Tudo isso moldava o meu caráter, a minha história e a minha vida.
Missões já era uma palavra que fazia parte do meu vocabulário — e estava entre aquelas que eu mais utilizava.
Quando um missionário era convidado a vir à minha igreja, eu nem piscava durante o culto. Aquelas saídas para ir ao banheiro ou tomar água não aconteciam nesses dias. Cada testemunho, cada foto projetada na parede, cada história contada, tudo isso regava meus olhos com as mais sinceras lágrimas de compaixão por vidas. Eu lia na Palavra: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19) e via, no exemplo dos missionários, maneiras tão criativas e maravilhosas de levar o evangelho a lugares tão diferentes, como tribos indígenas ou vilarejos na África, e ficava fascinado por tudo aquilo.
“O que você vai ser quando crescer?” A essa pergunta, aos 15 anos, já não cabia a resposta “jogador de futebol”, como diria a maioria das crianças nascidas nos anos 1980. Eu estava no Ensino Médio e, em breve, teria de enfrentar um vestibular e ingressar em uma universidade. Porém, algo incomodava meu coração.
Eu não queria ter uma vida “normal”, como as pessoas têm. Eu não queria aquela vida de acordar, bater o cartão na empresa, trabalhar, voltar para casa e servir a Deus no domingo — uma vida que não é errada, mas que não era o que eu desejava para mim.
Eu queria viver de forma intensa e exclusiva para o Senhor. Só que não sabia como.
Ainda novo, eu já entendia de maneira clara — fruto do conhecimento bíblico aprendido ao longo dos anos — que deveria sempre proclamar as verdades bíblicas a outras pessoas. Eu, como discípulo de Cristo, queria ser como meu Mestre. Já na adolescência, comecei a trabalhar na igreja, ajudando nos ministérios com as crianças, em acampamentos, em escolas bíblicas de férias, em teatros, musicais e nas aulas dominicais.
Eu tinha grande prazer em servir e fazer discípulos. Sem perceber, fui me envolvendo cada vez mais na obra do Senhor e sentia uma tremenda alegria em servir ao meu Salvador. Porém, alguns conflitos internos me tiravam a paz. Uma tristeza profunda acometia meu coração. Eu não conseguia mais servir ao Senhor com a mesma alegria. Minha família passava por grandes problemas. Meu pai estava afastado do Senhor e começou a se envolver com coisas que não eram corretas. Por várias vezes, durante os anos de minha adolescência, vi minha mãe chorar por saber que ele estava literalmente preso. Saber que meu pai estava encarcerado — física e espiritualmente — me machucava demais. Não ter um pai presente nessa fase tão importante da vida me trouxe grandes prejuízos.
Eu não entendia por que tudo aquilo estava acontecendo. Minha mãe era uma mulher incrível, serva do Deus altíssimo, que trabalhava exaustivamente pelo Reino. Como Deus permitia tamanha dor ao seu coração? Por que ela tinha de sofrer tanto?
Sem que eu percebesse, na soberania e na graça do Pai, ele já estava forjando o meu coração. Ele estava me ensinando que o servo de Deus passa por problemas e dificuldades. Que, ao servir, o servo não está em uma posição “intocável”. Que o trabalho na seara não exclui o sofrimento e a dor.
Tenho certeza de que caminhar por esse deserto, por essa escola do Senhor, durante minha adolescência, fez com que eu estivesse mais preparado para enfrentar o sofrimento de estar perante aqueles interrogadores.
Nós não sabemos o percurso por onde o Senhor nos levará, mas sabemos que o Caminho é perfeito, mesmo quando não enxergamos dessa forma — afinal de contas, nossos olhos ainda estão presos a esta natureza carnal, pecadora, na qual caminhar pela fé nem sempre é fácil.

O trecho abaixo foi extraído com permissão do livro 10 anos em 10 dias: o relato de um missionário preso no Oriente Médio, escrito por um cristão perseguido, em breve pela Editora Fiel.
