As Escrituras advertem os cristãos a não amarem o mundo nem as coisas que nele existem. Neste trecho de Não ameis o mundo, o puritano William Greenhill explica como as coisas boas da criação devem ser usadas corretamente, sem substituir Deus no coração, e mostra por que a busca por lucro e riquezas jamais pode ser o objetivo principal da vida cristã. William Greenhill (1591–1671) foi um pastor e teólogo puritano inglês, conhecido por sua poderosa pregação. Membro da Assembleia de Westminster, serviu fielmente no ministério congregacional até sua morte, deixando um legado de sólida erudição bíblica.
Alguns ainda podem perguntar: As criaturas de Deus não são boas, e não podemos amá-las por isso? Não seria o bem o objeto do amor? Essas são boas perguntas, e os pontos a seguir nos ajudarão a resolver essas questões.
1. Mantenha a bondade da criação na devida perspectiva. A bondade inerente à criatura é muito, muito pequena em comparação aos bens espirituais ou à bondade de Deus. A bondade da criatura é muito pequena, tão pequena que não pode nos tornar bons. Pelo contrário, tende a fomentar ainda mais a nossa corrupção e a alimentar nossa luxúria, pois “tudo que há no mundo” é considerado “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2.16). As coisas do mundo alimentam nossos desejos e são mais eficazes em estimular nossa corrupção do que em promover o bem que existe em nós. Visto que as coisas do mundo nos afastam de Deus, nos desencorajam para o bem ou corrompem o bem que há em nós, o Senhor nos proibiu de amar o mundo — ainda que haja algum bem no mundo.
2. Lembre-se do uso correto dessas coisas boas. Podemos amar o mundo e as coisas que há nele como um homem ama as ferramentas que usa para realizar seu trabalho. Em outras palavras, podemos amar o mundo na medida em que ele nos auxilie em nossa principal atividade. Na medida em que as riquezas possam ser usadas para promover e aprofundar nosso interesse espiritual em Cristo — nossa paz, conforto e graça —, nessa mesma medida podemos amar o mundo.
3. Coloque o bem maior acima de tudo. Podemos amar o mundo com um amor subordinado a Deus, desde que isso não prejudique nosso amor por Deus. Dessa forma, podemos amar o bem que existe no mundo e em todas as criaturas. Caso contrário, não devemos amar o mundo.
Reconhecendo nossa recompensa
É possível seguir uma vocação específica na vida com o objetivo de enriquecer ou aceitar um emprego simplesmente porque ele trará maior ganho? Os homens vivem e têm suas vocações no mundo. Portanto, não faria sentido que eles trabalhassem para serem produtivos nas riquezas deste mundo? Embora acumular riqueza seja uma prática comum entre os homens, a resposta simples é que eles não devem fazê-lo. Aqui estão cinco razões que ajudam a explicar essa resposta:
1. É uma atitude pagã considerar a bondade de uma vocação com base nos ganhos que ela proporciona. Em Atos 19.24-25, lemos como “um ourives, chamado Demétrio, que fazia, de prata, nichos de Diana e que dava muito lucro aos artífices, convocando-os juntamente com outros da mesma profissão, disse-lhes: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa prosperidade”. Os pagãos argumentavam em favor da bondade de sua vocação com base nos benefícios que ela lhes trazia. Ora, não devemos considerar uma vocação boa apenas por ser lucrativa; até os pagãos assim o faziam. Assim, 2 Pedro 2.3 fala de falsos profetas: “movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias”. Os verdadeiros profetas deveriam receber apoio e incentivo para viverem confortavelmente, mas o objetivo final de sua vocação não era o lucro. As Escrituras condenam isso, e esse foi o pecado deles; eles venderam suas almas pelo lucro. Eles não se importaram com o que seria de suas almas, desde que pudessem obter ganho e lucro.
Quando duas vocações se apresentam a alguém na vida, essa pessoa não deve escolher com base em qual trará mais lucro. Antes, deve escolher avocação que melhor se adapta a ela. Deus nos dá dons e talentos para fazermos o bem aos outros e glorificá-lo, e é isso que deve influenciar nossa decisão.
2. Em nossa vocação, devemos visar o bem comum. Trabalhamos para o bem da igreja e do estado, não para nosso ganho pessoal. “Disto ficaram sabendo Sambalate, o horonita, e Tobias, o servo amonita; e muito lhes desagradou que alguém viesse a procurar o bem dos filhos de Israel” (Ne 2.10). Neemias não pensou em si mesmo; ele buscou o bem comum. Ele foi chamado para ser governador e buscou o bem-estar dos filhos de Israel. Em Ester 10.3, diz-se que Mordecai foi “estimado pela multidão de seus irmãos, tendo procurado o bem-estar do seu povo e trabalhado pela prosperidade de todo o povo da sua raça”. Assim também todos devem ter como principal objetivo buscar o bem comum da igreja ou do estado. Como disse um pagão: “Nosso país, nossos pais e nossos amigos reivindicam parte de nossos bens, nossas vocações ou o que recebemos; não devemos existir para nós mesmos, mas para o bem comum”. Assim, em 2 Coríntios 12.15, o apóstolo diz: “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma”. Paulo se sacrificaria se isso servisse para fortalecer a fé deles ou lhes fazer o bem. Essa era a distância que ele estava de buscar a si mesmo em sua vocação.
3. Ter como objetivo a riqueza contraria um grande e glorioso princípio do evangelho: a abnegação. Em Mateus 16.24, nosso bendito Salvador disse: “Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”. É preciso negar a si mesmo. Ora, se eu nego a mim mesmo, não posso ao mesmo tempo me elevar. Paulo queixou-se disso em Filipenses 2.21: “pois todos eles buscam o que é seu próprio, não o que é de Cristo Jesus”. Cada um é por si mesmo — por sua própria honra, lucro e prazer —, em vez de negar a si mesmo. A abnegação é uma grande e gloriosa verdade que todo homem e toda mulher devem levar em consideração e praticar, ou não são discípulos do Senhor Cristo.
4. É diretamente contrário às Escrituras buscarmos o ganho terreno como nosso objetivo. “Não te fatigues para seres rico” (Pv 23.4). Esse não deve ser o seu objetivo. A maioria dos homens trabalha arduamente para alcançar riqueza e grandiosidade no mundo, mas essa não deveria ser sua meta. Trabalhar arduamente para enriquecer é diretamente contrário a João 6.27: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna”. Devemos ter como objetivo a vida eterna, e não as coisas que perecem.
5. Devemos seguir nossa vocação de glorificar a Deus, independentemente de obtermos algum lucro com isso ou não. Deus deu a Adão uma vocação para que ele pudesse glorificá-lo. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Em nossa vocação, devemos almejar a glória de Deus. Em Efésios 6.5-8, falando sobre servos e sua vocação, Paulo diz: “servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo”. Eles devem servir e glorificar a Cristo em suas vocações, não obstante sua posição social inferior. Até o servo mais humilde deve servir a Cristo, “não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens”. Eles não devem buscar agradar aos homens nem pensar em si mesmos, mas servir ao Senhor. Devem procurar honrar o Senhor, “certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre”. Receberemos uma recompensa do Senhor se formos corretos em nossa vocação, não tendo o ganho e o lucro como objetivo final.

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Não ameis o mundo, de William Greenhill, em breve pela Editora Fiel.
