No relato de Mateus sobre a “gênese” de Jesus, encontramos a linhagem de Abraão, a quem Deus prometeu que todas as famílias da terra seriam abençoadas. Deus dirige seus propósitos de recriação para a raça humana através dessa família — e, então, através do reino que Deus estabelece por meio de um dos descendentes de Abraão, Davi. As histórias de Abraão e Davi não foram contadas no vácuo nem tinham a intenção de servir ao orgulho étnico e nacional. Elas foram contadas para “todas as famílias da terra” (Gn 12.3; cf. Sl 22.27, um dos salmos mais davídicos). É nessa linhagem humana — mesmo através, precisamente através, do tortuoso caminho do exílio (Mt 1.11-12) — que Jesus, ele mesmo humano e a esperança singular da humanidade, aparece.
Depois que Mateus ancora a vida de Jesus na substância de nossa humanidade, ele se volta para a divindade de Jesus. O nome do Cristo é Jesus, que significa “Yah salva”. Embora o nome Jesus tenha servido (e ainda sirva) como um nome normal, Mateus insiste no fato de que, para essa criança, ele tem um significado maior. Primeiro, a origem de Jesus (sua “gênese”) não é meramente humana, mas também divina: “ela [Maria] achou-se grávida pelo Espírito Santo” (1.18). Em segundo lugar, a razão pela qual ele leva o nome “Yah salva” é porque sua missão é “salvar seu povo de seus pecados” (1.21), uma tarefa que somente o próprio Deus pode realizar. Terceiro, seu nome também é “Emanuel (que significa Deus conosco)” (1.23). Tampouco o título “Deus conosco” deve ser tomado de forma meramente metafórica, pois o Jesus de Mateus sustenta:
1. que, quando seus seguidores se reúnem, “eu estou no meio deles” (18.20).
2. que, quando seus seguidores batizam, fazem-no em seu nome, bem como no do Pai e do Espírito Santo.
3. que, aonde quer que eles vão para fazer discípulos, “eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (28.20).
Alguns eventos são difíceis de colocar em um lado do registro divino-humano. Embora Mateus esteja profundamente interessado na autoridade de Jesus (7:29; 8:9; 9:6; 10:1; 21:23; 28:18), ele também abraça a verdade complementar: a verdadeira humanidade de Jesus, claramente expressa nas passagens de “ignorância”: (1) o Pai decide quem estará à direita e à esquerda do Filho do Homem (20.23); (2) Jesus não sabe o tempo do fim do mundo (24.36); e (3) ele morre com o questionamento “por quê?” em seus lábios (27.46).
Depois, há a filiação de Jesus: na medida em que ele é o foco da declaração: “Do Egito chamei meu filho” (2.15), Jesus é a personificação de Israel, a humanidade em relação correta com a divindade. Na medida em que ele vive a obediência no deserto, em contraste com a rebelião de Israel no deserto, ele mostra o que é para o “homem” (ὁ ἄνθρωπος) viver de mais do que mero pão. E, é claro, a genealogia se esforça para mostrar a sua procedência humana. Então, novamente, o enigma final que Jesus apresenta a seus interlocutores depende do enigma (derivado das Escrituras!) do Messias ser tanto o Filho de Davi quanto o Senhor de Davi (22.41-46) — isto é, Jesus se entende como o Filho divino de Deus. Em sua visão de Cristo como Deus-homem, Mateus se junta às outras vozes do Novo Testamento que se destacam como teólogos cristológicos:
Em sua visão de Cristo como Deus-homem, Mateus se junta às outras vozes do Novo Testamento que se destacam como teólogos cristológicos:
• João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1:1); e observe os sete “Eu sou” de João.
• Hebreus: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hb 1.3).
• Paulo: “Embora ele estivesse na forma de Deus…” (Fp 2.6).
Não é difícil entender por que o consenso da Igreja veio a ser que Jesus é totalmente divino e totalmente humano — ou, como o artista cristão Shai Linne expressa, “Jesus, tanto Deus quanto homem, 200%”. O que marca a cristologia de Mateus como especial é a maneira como ele desdobra organicamente a humanidade e a divindade de Jesus Cristo para um leitor judaico-cristão. Ele o faz aludindo à história de Israel. Em outras palavras, Jesus é a nova Torá; é “maior que o templo” (12.6); é “maior que Jonas” (12.41); é “maior que Salomão” (12.42); é aquele em quem o Reino de Deus veio e está vindo; é o único Mestre de Israel; e, finalmente, é “Deus conosco”, o qual, porém, é totalmente conhecido, ironicamente, “no menor destes” (25.45).

O artigo acima é um trecho adaptado e retirado com permissão do Introdução Bíblico-teológica do Novo Testamento, Guy Prentiss Waters, editado por Michael J. Kruger, Editora Fiel
