Este artigo faz parte da série Gênero e Características literárias dos livros da Bíblia, que são artigos retirados e adaptados com permissão da Bíblia de Estudo da Fé Reformada, Editora Fiel.
O conhecimento do gênero literário de um livro bíblico visa conduzir o leitor ao melhor entendimento das Escrituras, já que a Palavra de Deus é inspirada e que o próprio Deus planejou a escrita de cada gênero para um determinado fim. Esperamos que o conhecer o gênero e a estrutura literária de cada livro ofereça ao leitor uma leitura e estudo bíblico mais profundo e proveitoso.
Gênero
Entre os escritos sapienciais do AT, o livro de Jó está com Eclesiastes como uma demonstração da complexidade tanto da sabedoria como do viver de forma habilidosa. O livro de Jó fornece outra perspectiva da sabedoria como complemento tradicional quando se digladia com o sofrimento de um indivíduo justo em confronto com a afirmação de que Deus é justo e bom. Algumas vezes chamada “teologia da retribuição”, a versão simplista dessa sabedoria tradicional ou popular sustenta que o bom comportamento é sempre galardoado, enquanto o comportamento mau ou imoral é sempre punido, que o bem tem êxito e o mal, não. Por toda a literatura sapiencial, vemos os autores bíblicos se digladiando com a superação da justiça de Deus e a questão do sofrimento. Jó, em particular, aborda o tema com uma franqueza que às vezes é desconcertante. O livro não sugere a existência de uma deidade má ou que o poder de Deus seja limitado. Em vez disso, ele louva a soberania, a sabedoria e a glória do Criador. O fato de o Deus de Jó não ser mau nem limitado é visto em duas descrições da relação de Jó com Deus.
A primeira representação é extraída do prólogo e do epílogo do livro. O prólogo descreve a submissão de Jó à vontade divina em meio ao sofrimento. Ali, Jó aparece como um homem bom, que confia na bondade de seu Deus. Finalmente, no epílogo (42.7-17), Deus honra sua confiança, restaurando-o.
A segunda representação no cerne poético do livro (caps. 3–42.6) mostra a indignação de Jó em meio ao seu sofrimento. Ele pensa que Deus se tornou seu inimigo e, injustamente, está afligindo-o. Jó chega a essa conclusão porque sabe que Deus é soberano. Se ele cresse em uma divindade limitada, não teria problema com a justiça ou a bondade de Deus, visto que, então, não poderia ter Deus como responsável por cada evento, inclusive por seu infortúnio.
Universalmente, reconhece-se a esplêndida maestria literária com que o material é apresentado no livro. Têm-se proposto três classificações principais para o gênero de Jó: litígio, lamento e disputa. O litígio é apresentado pelo uso de linguagem legal (p. ex., 5.8; 13.3; 23.6) e procedimentos (p. ex., cap. 32; 40.7, 8). Essa análise foca em Jó como instituindo
procedimentos contra Deus. De início, busca-se uma resolução informal (caps. 4–14) e, quando isso falha, adota-se, crescentemente, uma ação formal (caps. 15–31). Depois de os amigos de Jó, que agiram como advogados autodesignados de Deus, caírem em silêncio e, com isso, desistirem da causa, aparece Eliú contra a decisão deles (caps. 32–37). No entanto, ocorre a intervenção divina direta antes de Jó desistir de sua demanda (40.5). O lamento analisa o livro pela analogia dos salmos de lamento (ver Introdução aos Salmos: Gênero). Os lamentos encontrados nos caps. 3 e 29–31 endossam essa abordagem. Em Jó, o lamento é apresentado em sua forma dramática com a intervenção dos amigos interpretada como estendendo conforto a alguém angustiado. A disputa usa os diálogos em forma de controvérsia, registrados na literatura do antigo Oriente Próximo para elucidar a estrutura de Jó, a qual, obviamente, consiste de uma série de intercâmbios que envolvem controvérsia entre os oradores da sabedoria. Seus discursos não são primariamente diálogos em que os pontos de vista dos oponentes são elaborados e respondidos. Pode ser que isso aconteça, mas a disputa está mais próxima da apresentação de séries de papéis posicionais para debater um caso particular. No entanto, embora cada uma dessas interpretações reflita aspectos do livro de Jó, nenhuma delas fornece uma análise exaustiva. O livro de Jó é uma criação literária única e poderosa exatamente porque é uma combinação habilidosa de vários gêneros. O impacto do livro transcende seus componentes.
Características literárias
Composições semelhantes ao livro de Jó aparecem em fontes mesopotâmicas e egípcias dos tempos do AT. Uma delas (“Um diálogo sobre a miséria humana”) é sobre um conselheiro que critica um sofredor por sua impiedade enquanto o sofredor luta com o caráter dos deuses. Além disso, o formato literário de Jó não é único entre os documentos do antigo Oriente Próximo, consistindo de um prólogo em prosa, um diálogo poético e, finalmente, um epílogo em prosa. Mas não há outra obra que aborde o problema do sofrimento humano à luz da transcendência e da bondade de Deus com a profundidade teológica, a sofisticação literária e a aplicação prática do livro de Jó.
O autor de Jó era um artífice literário e empregou muitas técnicas para comunicar sua mensagem. Dois aspectos têm significado especial: a ironia e a linguagem mitológica.
A ironia ocorre de várias formas. A ironia verbal é uma figura de linguagem em que o significado pretendido é o oposto do sentido literal comunicado pelas palavras usadas (p. ex., 12.2). Também está presente no questionamento de Jó (38.4, 5, 18, 21) por Deus, em que não há dúvida quanto à resposta a ser dada. A ironia se converte em sarcasmo quando é pronunciada com a intenção de magoar ou ferir aquele que é abordado. Mais significativo em Jó é o uso da ironia dramática, que ocorre quando uma audiência (ou um grupo de leitores) sabe, no processo, o resultado de um jogo (ou narrativa), enquanto os personagens envolvidos não o sabem. Então, pode haver tensão entre a compreensão que um personagem tem de sua situação e a da audiência/leitor. Isso é feito em Jó pela maneira como os diálogos poéticos são embutidos numa estrutura de prosa. O prólogo deixa claro que Jó é inocente de injustiça hedionda, mas essa informação não está disponível aos seus chamados “consoladores”. Essa ironia dramática realça a apresentação em vários momentos (p. ex., 3.23; 7.12).
Em várias passagens de todo o livro, encontra-se a linguagem emprestada da mitologia do antigo Oriente Próximo (p. ex., 3.8), mas especialmente nos discursos de Jó e de Deus. No entanto, esse uso de imagens e expressões idiomáticas do ambiente cultural do paganismo adjacente não endossa as convicções politeístas no que diz respeito às forças naturais ou às entidades sobre-humanas, da mesma forma que as alusões clássicas de John Milton em Paraíso perdido não indicam eventual aceitação da mitologia greco-romana. As alusões linguísticas podem ser mais que figuras convencionais de linguagem. De fato, podem ser empregadas para combater uma cosmovisão mitológica e enfatizar a supremacia absoluta de Javé, o Senhor da aliança com Israel e o único Deus verdadeiro
Edição por Renata Gandolfo.

Este artigo foi retirado e adaptado com permissão do material de estudo da Bíblia de Estudo da Fé Reformada, Editora Fiel e Ligonier.
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