O que significa ser criado à imagem de Deus? A Bíblia ensina que homens e mulheres foram feitos para refletir o caráter, a santidade e o governo do Criador. Neste artigo, reunimos 10 versículos-chave sobre a doutrina da imagem de Deus no homem, mostrando como essa verdade fundamenta a dignidade humana, explica a queda e aponta para a restauração em Cristo.
Então, confira 10 versículos bíblicos sobre a imagem de Deus no homem, acompanhados de comentários da nossa Bíblia de Estudo da Fé Reformada com Concordância, que ajudam a perceber como essa temática é tratada em diversos textos por toda a Escritura.
1. Gênesis 1.26, 27
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
O uso do plural aqui: “Façamos… nossa… nossa” é interpretado com variação. Alguns veem isso como uma indicação de pluralidade dentro da unidade divina, mais tarde pressuposta na revelação neotestamentária do Deus único como Pai, Filho e Espírito Santo. Outros explicam esse uso gramaticalmente — ou como um plural de majestade (cf. v. 1, nota) ou como um plural deliberativo (em que Deu dirige a afirmação a si mesmo). Finalmente, há quem argumente que Deus e sua corte angelical e celestial estão em pauta (Is 6.8, nota).
Em algumas culturas do antigo Oriente Próximo, o rei humano era considerado a imagem de uma deidade e, como tal, ele governava em nome da divindade. Ao criar pessoas à sua imagem, Deus lhes concede autoridade para governar sobre a terra como seus vice-regentes. Isso é reforçado pelas referências ao ato de exercer domínio sobre todas as demais criaturas, como nos vv. 26 e 28. Enquanto Deus destina as pessoas a governar como ele governaria, Adão e Eva o traem, falhando no exercício da autoridade sobre a serpente (3.1-7). Enquanto a humanidade doravante retém sua capacidade de governar dada por Deus, eles nunca mais fazem isso como vice-regentes de Deus. O violento comportamento do povo nos primeiros capítulos de Gênesis é testemunho de seu uso equivocado do poder. Somente em Jesus Cristo encontramos, pela primeira vez, aquele que governa como vice-regente de Deus, aquele que também restaura a vice-regência ao seu povo.
Os teólogos medievais distinguiram marcadamente “imagem” e “semelhança”, com o termo “imagem” sendo visto como uma referência à razão natural, e “semelhança”, à justiça original perdida na Queda. Pesquisas mais recentes observam que os dois termos hebraicos são usados na Escritura como sinônimos (v. 27; 5.1, 3; 9.6).
Deus dá aos humanos o mandato cultural para governar a criação – tenha ele domínio –como reis benevolentes (9.2; Sl 8.5-8; Hb 2.5-9). As pessoas são destinadas por Deus a governar sobre outros seres vivos (v. 28), mas não podem governar os poderes celestiais, especialmente Satanás (cap. 3; Ef 6.10-12). Somente o último Adão, a própria imagem da pessoa de Deus (Cl 1.15; Hb 1.3), e somente os que estão unidos a ele podem fazer isso (3.15; Mt 4.1-11; Cl 3.10).
1.27. Ver nota teológica “Seres humanos criados à imagem de Deus”.
Criou. Ver nota no v. 1. Essas linhas, aparentemente poéticas (o verbo “criar” é usado três vezes), celebram a criação do homem.
2. Gênesis 9.6
Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem.
Em relação a – pelo homem – ver v. 5; 4.16 e notas. O ato de Deus, no sentido de dotar os humanos com essa autoridade judicial, mostra que eles portam a responsabilidade pelas ações de outros (1.26) e lança o fundamento para o governo pelo estado (Rm 13.1-7).
A imagem ainda que distorcidas pelo pecado, as pessoas ainda são especiais, porque são feitas à imagem de Deus (1.26 e nota; 8.21). Isso explica por que o sangue derramado pelo homicida, em contraste com o sangue animal, tem de ser compensado.
Ver “Seres humanos criados à imagem de Deus”, em 1.27.
3. Romanos 8.29
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
Sobre – de antemão conheceu… predestinou – ver nota teológica “Predestinação”, na p. 1650. Os vv. 29 e 30 explicam o propósito de Deus (v. 28). É um plano de graça soberana e salvadora, dando a todos os que creem o direito de traçar a origem de sua fé e sua salvação na decisão eterna de Deus de levá-los a glória, bem como o direito de olhar para essa glória como uma certeza garantida. O destino designado para os crentes (conformação com Cristo e glorificação com ele) flui da presciência divina. Aqui são pessoas, e não eventos e fatos, que se diz que Deus conhece de antemão. Deus realmente vê de antemão os eventos, mas a ênfase de Paulo aqui é que Deus escolhe, por iniciativa própria, os objetos de amor ativo e salvador. “Conhecer” implica ter um relacionamento íntimo pessoal, e não meramente conhecimento de fatos e circunstâncias (Gn 4.1; Am 3.2; Mt 1.25). Assim, a expressão “aos que de antemão conheceu” equivale aos “eleitos”, aqueles que Deus amou, individual e pessoalmente, antes de serem criados (Ef 1.3, 4). Isso é especialmente evidente em Romanos 11.2 e 5: “Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu… sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça”. Aqui, “de antemão conheceu” é o paralelo direto de “não rejeitou” e, em seguida, é explicado por “eleição da graça”.
4. 1 Coríntios 11.7
Porque, na verdade, o homem não deve cobrir a cabeça, por ser ele imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem.
Sobre – a mulher é glória do homem – ver nota teológica “Seres Humanos Criados à Imagem de Deus”, na p. 13. Paulo não está dizendo que a mulher seja inferior ao homem (vv. 11-12), nem está negando que Deus fez as mulheres à sua imagem (Gn 1.27). Em vez disso, Paulo enfatiza que cada esposa expressa, de maneira singular, a excelência de seu marido.
5. 2 Coríntios 3.18
E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.
Todos nós – ou seja, todos os cristãos. Aqui é descrita uma experiência característica dos crentes da nova aliança.
Diferentemente de Moisés (v. 13), que subiu sozinho o monte Sinai para contemplar a glória de Deus, quando recebeu a lei de Deus, todos nós estamos com o “rosto desvendado”. De modo semelhante, os cristãos postam-se diante do mundo sem ter do que se envergonhar, refletindo em suas próprias vidas a glória de Cristo contemplada na Palavra de Deus. E, longe de ser uma glória desvanecente, a glória deles é sempre crescente, visto que são mudados cada vez mais à semelhança de Cristo, por meio do processo vitalício de santificação realizado pelo Espírito de Deus.
“Na sua própria imagem” é uma referência ao crescimento contínuo durante toda a vida na semelhança com Cristo. Esse crescimento é transformação moral e espiritual “de glória em glória”. Os crentes estão sendo progressivamente restaurados à possessão cada vez maior da imagem de Deus, que foi corrompida na queda de Adão (ver Ef 4.24; Cl 3.10).
6. 2 Coríntios 4.4
Nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.
O deus deste século, Satanás (cf. 1Jo 5.19) influencia fortemente este mundo caído e mau, que continua até o tempo em que Cristo retorna e traz em plenitude o século vindouro (cf. Gl 1.4). Satanás é um enganador que se opõe à verdade (Jo 8.44; Ap 12.9).
Cegou – o resultado é que os incrédulos não podem apreciar ou entender totalmente as afirmações do evangelho, a menos que Deus, por meio do evangelho, os ilumine interiormente, por obra do Espírito Santo (4.6; Jo 3.3; 9.39-41; Ef 2.2, 3; 4.17-19).
Cristo, o qual é a imagem de Deus – Embora criado à imagem de Deus, Adão caiu no pecado. Cristo é a imagem de Deus como o Filho eterno que revela o Pai (Cl 1.15-17) e como o Cabeça impecável da nova raça humana (1Co 15.49; Cl 3.10; Rm 8.29).
7. Colossenses 1.15
Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação.
Paulo irrompe (1.15-20) em doxologia a grandeza de Deus e a glória de Jesus Cristo. Alguns acreditam que Paulo está fazendo uso de um hino cristão primitivo. Ao mostrar a supremacia de Cristo, tanto na Criação (vv. 15-17) como na Redenção (vv. 18-20), Paulo ressalta o que faltava no falso ensino de Colossos: um ponto de vista inadequado sobre a pessoa e a obra de Cristo. Ao explicar Jesus Cristo dessa maneira, Paulo convida seus leitores a adorarem o Filho de Deus.
A imagem do Deus invisível – Para Paulo, crer na divindade de Cristo (2.9, 10; Rm 9.5; Fp 2.6; Tt 2.13) é prático. Como Cristo é Deus por natureza, ele revela o Deus que, de outro modo, seria invisível (1Tm 1.17; 6.16). Um pensamento semelhante se encontra em Joao 1.1-18 e Hebreus 1.3. Em seu comentário sobre Colossenses 1.15, Joao Calvino observa que “devemos ser cuidadosos em não procurar Deus em qualquer outra fonte, senão em Cristo, pois, sem Cristo, tudo que se apresenta a nós em nome de Deus é um ídolo”.
O primogênito de toda a criação – Paulo não está dizendo que o Filho foi o primeiro a ser criado (v. 17, nota). No Antigo Testamento, um primogênito era o principal herdeiro de um patrimônio (Dt 21.17; cf. Êx 4.22), e a palavra é usada metaforicamente para expressar a preeminência de Davi e sua dinastia entre os reis das nações (Sl 89.27). Usada a respeito de Cristo, a palavra “primogênito” lhe atribui supremacia, honra e dignidade — ele é o Davi mais elevado e o principal herdeiro do Pai. Cristo é especialmente amado por seu Pai (v. 13), e todas as coisas foram criadas nele, por ele e para ele (vv. 16, 17).
8. Colossenses 3.10
E vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.
Em Cristo, o segundo Adão (1Co 15.20-28, 45-49), os crentes estão sendo transformados e renovados a sua imagem. Cada um dos atributos que Paulo lista no v. 12 pode ser identificado no caráter de Deus, em geral, ou de Cristo, em específico. Isso demonstra como Paulo entendia a ideia de os crentes tomarem a “imagem” de seu Criador. Ver nota teológica “Seres Humanos Criados a Imagem de Deus”, na p. 13.
9. Hebreus 1.3
Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas.
A palavra grega traduzida como “resplendor” descreve a sabedoria divina personificada no livro judaico, do período intertestamentário, Sabedoria de Salomão (7.25-28). Mas Hebreus fala não meramente de um atributo personificado, mas também de uma pessoa divina — o Filho de Deus — que entrou na história para purificar os pecadores.
O versículo – expressão exata do seu Ser – expressa tanto a unidade do Filho com o Pai como a distinção das pessoas divinas. Como Alguém cujo ser corresponde exatamente ao Pai, o Filho revela exatamente o Pai. Cristo é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), por quem nós vemos o Pai (Jo 14.9; 2Co 4.4-6).
sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder. A ordem do Filho mantém a ordem criada em existência (Cl 1.17; 2Pe 3.4-7), preservando-a da destruição, até aquele dia em que sua voz removerá tudo, exceto o reino inabalável de Deus e seus herdeiros (12.26-28).
Purificação dos pecados. Uma mudança do tempo verbal focaliza a atenção na morte expiatória do Filho na história, o ato sacerdotal que nos purifica para adorarmos na presença de Deus (9.14).
A entronização do Filho “à direita” de Deus no céu, prometida em Salmos 110.1 (1.13), revela sua superioridade de duas maneiras. Em primeiro lugar, em “À direita da Majestade”, Cristo está ministrando no verdadeiro santuário celestial, e não em uma cópia terrena (8.1, 2, 5). Em segundo, ele “assentou-se” porque sua obra sacrificial (ao contrário da obra dos sacerdotes levitas) foi terminada de uma vez por todas (10.11, 12).
10. Tiago 3.9
Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.
Bendizemos… amaldiçoamos – A língua é capaz de ser usada tanto para virtude como para pecado. A mesma boca usa a língua para cumprir esses propósitos contrários.
Feitos à semelhança de Deus. – Ver nota teológica “Seres Humanos Criados à Imagem de Deus”, na p. 13. Nossa fala é uma das maneiras como fomos feitos à imagem de Deus; e devemos usar nossas palavras de modo a refletir a própria Palavra de Deus, o que, por sua vez, honra e abençoa a ele e os outros.
Nota da Bíblia de Estudo da Fé Reformada
Seres humanos criados à imagem de Deus
Na arte, a fabricação de imagens é um exercício de beleza. Pintura, escultura e coisas afins costumam ser imitativas. Através de nossa habilidade, descrevemos os objetos extraídos da vida real.
O artista último é Deus. Quando formou o universo, ele deixou sua própria marca, de modo que os céus declaram sua glória e o firmamento exibe a obra de sua mão.
Quando Deus fez as criaturas que encheram a terra e o mar, criou uma criatura para que fosse feita de um modo singular, à sua própria imagem. Gênesis 1.26, 27 declara:
Então, disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.”
Assim, Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou.
O fato de a Bíblia dizer que somos criados a imagem e semelhança de Deus tem levado alguns a concluir que existe uma diferença entre ser à imagem e ser à semelhança de Deus. Mas a estrutura da linguagem bíblica indica que imagem e semelhança referem-se à mesma coisa. Somos os ícones de Deus, criaturas feitas com a capacidade única de espelhar e refletir o caráter de Deus.
Em geral, compreende-se ser feito à imagem de Deus como a indicar o sentido segundo o qual somos semelhantes a Deus. Ainda que ele seja o Criador e nós, as criaturas, e ainda que Deus nos transcenda no ser, no poder e na glória, há algum sentido em sermos semelhantes a ele. Existe alguma analogia entre Deus e nós. Ele é um ser inteligente e moral. Nós também somos agentes morais equipados com mente, coração e vontade. Essas faculdades tornam possível para nós espelhar a santidade de Deus, a qual era nossa vocação original.
O termo homem, quando usado em passagens bíblicas, tais como “Deus criou o homem à sua própria imagem” (Gn 1.27), significa “humanidade”. Ambos, macho e fêmea, da espécie humana, são feitos à imagem de Deus. Parte da imagem inclui a vocação da raça humana para governar a terra, para ter domínio sobre ela. Somos chamados a vestir, encher e guardar a terra como vice-regentes de Deus. Aqui somos chamados a refletir o caráter do justo governo de Deus sobre o universo. Ele nunca devasta ou tira partido do que governa, mas, ao contrário, reina com justiça e benignidade.
Na queda da raça humana, algo espantoso aconteceu. A imagem de Deus foi severamente maculada. Nossa capacidade de espelhar sua santidade foi grandemente afetada, de modo que agora o espelho está obscurecido.
Todavia, a Queda não destruiu nossa humanidade. Ainda que nossa capacidade de refletir a santidade de Deus tenha sido perdida na Queda, ainda somos humanos. Ainda temos uma mente, um coração e uma vontade. Ainda portamos em nós a marca de nosso Criador. E a restauração da plenitude da imagem de Deus nos seres humanos é concretizada por Cristo. No dizer do autor de Hebreus, “o esplendor da glória de Deus e a impressão exata de sua natureza” (Hb 1.3).
Edição por Renata Gandolfo.

Este artigo faz parte da série Versículos-chave.
Todas as seções de comentários adaptadas da Bíblia de Estudo da Fé Reformada com Concordância, Editora Fiel.
